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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Let the week begin

   Mais uma semana que começa e ao que parece com mais chuva. E talvez seja precisamente este tempo que me anda a pôr de tão mau humor e sem vontade nenhuma de fazer seja o que for com energia. Estou verdadeiramente numa fase terrível de "Please, do not disturb" e esta semana não vai ajudar nada a melhor a coisa, já que será uma semaninha muito ocupada entre trabalho, consultas, últimas sessões da formação em igualdade de género (continua absolutamente intragável e intolerável) e consequente elaboração de um trabalho, voluntariado e, para terminar em grande, um concerto da orquestra sinfónica do Porto, na Casa da Música, na sexta-feira. Com tanta coisa em mente nem me consigo lembrar que terminando esta semana tenho a próxima para recuperar e descansar, já que estarei de férias.

   Entretanto, boa semana, bom trabalho, e vamos aproveitando todos os bocadinhos para fazermos aquelas coisas que nos dão algum animo.

   Boa semana!

 

Mimos do meu namorado

Como ele, melhor que ninguém, sabe o quanto eu gosto da colecção de jóias da Calvin Klein, resolveu fazer-me mais uma surpresa das que nos deixam revoltadissimas mas muito felizes. E como soube mimar-me depois do dia dos namorados eu aceitei e usei logo esta pulseirinha que estava na minha wish list e este anel giro que só ele. Tudo bem simples e bonito, como a CK já nos habituou. 

«Gisberta»


   A 22 de Fevereiro de 2006, o transsexual brasileiro Gisberto Salce Júnior, 46 anos - conhecido por Gisberta ou Gis - morreu na sequência de várias agressões e o seu corpo foi encontrado submerso no fosso de um prédio inacabado, no Campo 24 de Agosto, Porto, depois de um dos jovens ter contado o sucedido a um professor. Sabe-se que Gisberta foi vítima de agressões violentas por parte de 14 jovens durante 3 noites consecutivas, tendo estas terminado quando os jovesn atiraram Gisberta para o poço. Um perito médico-legal concluiu que o transsexual morreu vítima de afogamento e que as lesões que lhe foram alegadamente infligidas pelos menores não eram fatais.

   A 22 de Fevereiro de 2014, Rita Ribeiro vestiu a pele da mãe de Gisberta e ofereceu a uma plateia emocionada a dor, revolta, raiva e profunda tristeza de uma mãe que perdeu "o seu menino lá no país estrangeiro". Durante uma hora e exactamente 8 anos depois pudemos sentir uma pequena amostra do que poderá ter sido a dor daquela mãe e nós, assim como Rita Ribeiro, revoltamo-nos ao perceber que foi no nosso país que um dos mais vergonhosos exemplos de discriminação aconteceu. No final, uma Rita Ribeiro emocionadíssima e uma plateia que saiu da sala de lágrimas nos olhos e carregada daqueles silêncios que nos deixam a pensar.

  

Histórias com gente dentro

   Quando o ser humano se conforma e aceita com aparente normalidade o facto de passar toda a noite com uma fralda a transbordar de urina e fezes até ao pescoço (e acreditem que é literalmente e estou a ser muito simpática), julgo que chegamos ao cúmulo da miséria humana. 

   Onde fica o viver? Onde ficam as condições minímas de sobrevivência? Onde fica a dignidade? Onde fica a nossa capacidade de continuarmos o nosso dia como se não o tivessemos começado com aquele cenário?

   Hoje é só isto. E já tanto...

«Nunca digas adeus», Lesley Pearse

 

Num chuvoso dia de outono, Susan Wright entrou numa clínica, matou duas pessoas a sangue-frio e aguardou que a polícia chegasse. Terá sido um ato de loucura? Uma vingança planeada? Susan não parece interessada em defender-se e recusa falar. O seu silêncio estende-se a Beth Powell, a advogada a quem é atribuído o caso. Beth é uma mulher de sucesso com uma carreira brilhante mas nada a preparara para o momento em que identifica a autora daquele crime tão bárbaro. Quando eram crianças, Beth e Susan juraram ser amigas para sempre. Vinte e nove anos depois, mal se reconhecem. Mas as memórias dos verões felizes das suas infâncias são suficientemente poderosas para as unir de novo. Enquanto as provas contra Susan se acumulam, elas partilham recordações e revelam os segredos que ditaram o rumo das suas vidas.
A amizade entre as duas mulheres torna-se cada vez mais forte mas sobre uma delas pende a implacável mão do destino…

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   Lesley Pearse é uma escritora da qual gosto. Li grande parte dos seus livros e todos me agradaram por terem um pouco de romance histórico, já que todos se passam em tempos idos, o que para o leitor representa sempre uma excelente oportunidade de aprendizagem. Ao contrário de todos os outros livros, este não se passa nesse passado, o que me desiludiu um pouco. O enredo não é nada de extraordinário, embora seja algo viciante, já que facilmente nos envolvemos com as personagens e queremos saber como tudo vai acabar. Não sendo de todo um dos melhores livros de Lesley Pearse, arrumei com ele numa semana, o que quer sempre dizer alguma coisa.

O nosso legado

"Passei a vida inteira a pensar que a imortalidade era possível. Relacionei-me com meninas jovens para lhes extrair a vitalidade e prolongar a minha juventude, fiz ginástica sueca e um longo passeio tpdas as manhãs, tomei todos os dias banho em água gelada, até tudo o que comia era devidamente pensado e pesado, a cada refeição só comia não sei quantos gramas de iogurte e de fruta e de peixe e de tudo o mais que me prolongasse a vida. Quis fazer da minha própria existência qualquer coisa de único...sei lá, uma obra de arte. (...) Tudo isto para quê? (...) Para estar aqui deitado a vê-lo tirar-me a urina porque já nem a maldita da minha bexiga consigo controlar...

(...)

Deixe-me explicar-lhe uma coisa, senhor Sarkasian, (...) É preciso que o senhor saiba que não finais felizes. Se a vida fosse um rosto a sua expressão seria de tristeza. Desenhou um arco no ar. Começamos cá em baixo, subimos na vida, atingimos um pico em que estamos na plenitude das nossas capacidades e principiamos a descer, primeiro devagar e depois mais e mais depressa, até terminarmos de novo cá em baixo, como a curva de uma boca triste na cara de uma pessoa. A vida é isso.

Então para que aqui estamos, doutor? Porque vivemos?

Não tenho resposta para essa pergunta (...) O que importa talvez seja o que fazemos enquanto cá estamos e o que deixamos aos que cá ficam. Não vivemos para morrer, vivemos para fazer algo que perdure. Talvez o verdadeiro sentido da nossa existência esteja no nosso legado."

«Um milionário em Lisboa», José Rodrigues dos Santos

Histórias com gente dentro

   Um dia destes fui visitar novamente a Sra. C., como faço pelo menos uma vez por mês desde que a consegui "cativar" e conquistar depois de quase 2 anos de luta e visitas que terminavam com um "obrigada mas eu não preciso de nada" e que hoje é das pessoas que mais solicita a minha presença.

   A Sra. C., que nos seus mais de 80 anos, vive sozinha, é invisual há muitos anos e um autêntico mistério. Tal como todos aqueles que sofrem de alguma incapacidade sensorial, a Sra. C. é de uma sensibilidade espantosa, ao ponto de nos dizer coisas como "que se passa consigo hoje, sinto que está triste", "ei, volte à terra" quando já nos tinhamos desligado da conversa por exaustão psicológico (não, nunca deveria acontecer, mas acontece), "tem de se alimentar, as evidências de que está fraquinha são mais que muitas" ou "hoje está muito rabugenta e com ar de chateada, que se passa?"... poderia ficar a aqui mais um tempinho a discorrer sobre todas as coisas que a Sra. C. diz, e também sobre as que não diz mais eu também consigo sentir, mas o que hoje tenho de partilhar é muito simples, pelo menos para a maioria de nós.

   No final desta última visita (e depois de me ter partido o coração com um "não vá embora. É que quando sair eu não falo com mais ninguém até amanhã à hora de almoço quando vocês me vierem trazer a refeição") durante a qual toda a nossa conversa decorreu com a Sra. C. na cama por se encontrar constipada, instintiva e automaticamente eu despeço-me e puxo-lhe os lençóis para cima de forma a tapar-lhe as costas. De imediato a Sra. C. agarra-me a mão com uma força tremenda e a sorrir muito diz "ai, obrigada, muito obrigada, nunca ninguém me tinha feito isto". Sem palavras. Simplesmente um dos momentos mais tocantes da minha vida profissional e a prova de que não é precisa nada (ou aparentemente nada) para fazermos tanto por uma pessoa.

  

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