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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Cem anos de amor

«Intigrado com esse enigma, esgravatou tão profundamente nos sentimentos dela que, à procura do interesse, encontrou o amor, porque a tentar que ela o amasse acabou por amá-la. Petra Cotes, pelo seu lado, ia amando-o cada vez mais, à medida que sentia o carinho dele aumentar e foi assim como, na plenitude do Outono, voltou a acreditar na superstição juvenil de que a pobreza era uma condição do amor. Ambos evocavam então como um estorvo as paródias desatinadas, a riqueza aparatosa e a fornicação desenfreada e lamentavam-se de quanta vida lhes tinha custado encontrar o paraíso da solidão partilhada. Loucamente apaixonados até ao fim de tantos anos de cumplicidade estéril, gozavam o milagre de amarem-se tanto à mesa como na cama e chegaram a ser tão felizes, que quando eram dois velhos esgotados ainda continuavam a traquinar como coelhinhos e a discutirem como cachorros.»

 

"Cem anos de Solidão", Gabriel Garcia Márquez

Hoje e sempre, portugueses


   Ao ver esta imagem, automaticamente pensei "isto é mesmo tipicamente português". Não tanto pela questão moderna da coisa, por esta necessidade de fotografarmos tudo e mais alguma coisa, incluindo as desgraças, mas antes por esta característica que sempre foi tão nossa de nos "alimentarmos" um pouco da vida alheia, especialmente quando a dita envolve desgraças. Não há nenhum português que não goste de saber ao pormenor o que se passa na vida deste e daquele, seja vizinho ou pessoa "famosa". Não há nenhum português que não goste de pelo menos folhear as revistas cor-de-rosa cusquice (mea culpa!), ainda que muitas vezes não o admita, ou que não abrande em plena autoestrada para se inteirar de algum acidente de viação alheio, provocando filas de voyerismo ainda maiores que as filas provocadas pelo acidente.

   Está em todos nós esta veia da cusquice. Mais ou menos apurada. E não vale a pena negá-la. Eu confesso que não gosto de falar da vida de pessoas que de alguma forma conheço ou com quem convivo e não alimento esses comportamentos, acima de tudo porque não tolero também que falem da minha vida, mas gosto de espreitar as revistas do jet 7, ainda que seja para ridicularizar alguma situação e, a maior parte das vezes, apenas para ver "as imagens", que é o mesmo que dizer "para ver os modelitos que as nossas famosas usam". E mesmo não gostando da desgraça alheia e não abrandando para ver acidentes de viação, muito menos para fotografá-los, não resisto a espreitar na varanda quando ouço alguma voz mais exaltada na rua...

   É uma costela nossa e parece-me que, sendo controlada, não é maligna. Quando fazemos dela característica de vida e motor, ao ponto de registarmos a vida dos outros, isso sim é de lamentar.

   E não será esta coisa dos blogs e de seguir blogs também uma forma de voyerismo e um ossinho dessa costela de cusquice? Dá que pensar...

Dia Mundial do Sorriso



Provavelmente a maior e melhor arma que temos. Ou dom.

Um sorriso destrói barreiras, derruba pessoas e, acima de tudo, dá vida, muita vida, a quem o recebe e a quem o dá.

Por isso não se esqueçam de sorrir. Muito. Para nós, para a vida e para os outros. Vão ver como é fácil deixar a nossa marca neste mundo se nos limitarmos a sorrir...

O inimigo silencioso

  

   Trabalhando eu na área que trabalho, se há coisa que eu mais vejo é doença e o que ela pode fazer a um ser humano. A nossa população é maioritariamente envelhecida, da dita 3ª idade (e 4ª para alguns!) e, por isso, demências e AVCs são o pão nosso de cada dia, com todos os efeitos devastadores que cada um deles pode ter. Mas recentemente têm-nos chegado pedidos de ajuda de pessoas mais novas, a quem esse bicho chamado cancro colocou a vida em suspenso. E são cada vez mais e mais as pessoas a serem atingidas por este bicho, sendo que as que nos chegam são principalmente aquelas que, embora continuem a lutar, já sabem que essa é uma luta perdida.

   Quando entro num novo domicílio e me deparo com alguém que está na luta vencida e, muitas vezes, numa fase terminal da doença e numa fase ainda precoce da vida, há qualquer coisa, qualquer campainha, cá dentro que apita e que me relembra que nós, seres humanos, não somos efectivamente nada quando a doença chega para ficar e nos levar. E este inimigo, este bicho, é demasiado silencioso para se anunciar e capaz de mudar vidas de um dia para o outro, enquanto as consome e acaba com sonhos, planos, projectos, ou pequenas coisas tão simples da vida como ter forças para nos levantarmos da cama para ir à janela ou, ainda mais básico, levantarmo-nos da cama para irmos à casa-de-banho.

   Há doenças que nos roubam tudo antes de nos roubarem a vida, mas que não nos roubam a consciência do nosso estado e a certeza de que esta batalha não vamos vencer e que, se é para perder, que seja o mais rapidamente possível. Lidar com o sofrimento humano, no seu estado mais puro, é das experiências mais dolorosas que podemos ter. Mas é também das mais ricas, já que, mais uma vez, colocamos tudo em perspectiva, sem conseguirmos deixar de pensar no inevitável "pode-me acontecer a mim ou aos meus...".

   Sendo importante esses exemplos de gente mais ou menos conhecida que lutou contra o cancro e o venceu ou não, para mim é ainda mais importante esta realidade nua e crua, o entrar naquelas casas, naqueles quartos, naquelas vidas, onde já só cheira a morte anunciada. Ouvir um "já não há nada a fazer, só esperar" é mais forte que qualquer livro de 500 páginas cheio de esperança e positivismo. E, quase sempre passado pouco tempo (e ainda bem que este tempo é sempre curto), "fulano morreu" é a certeza definitiva que não somos nada, que a saúde é o nosso bem mais precioso e que isto de viver, às vezes, é muito, muito doloroso.

Aos senhores do IPMA


   Eu sou pessoa para ouvir diariamente ou consultar no site do IPMA as previsões do tempo para os dias seguintes. O que eu questiono é quando é que os senhores do IPMA vão deixar de nos estragar o dia com previsões de chuva para o dia seguinte quando, na realidade, chuva nem vê-la...não é que eu me importe, até bem pelo contrário, já que passo muito bem sem qualquer pingo de chuva, mas há mais de uma semana que nos dão previsões de chuva (ou aguaceiros), incluindo avisos amarelos para um dia em que eu tive a bronzear-me na varanda de top, e acabamos sempre por ter belos dias de sol. Nada contra, reforço, mas é que para mim, ouvir "previsões de chuva para todo o país" é motivo para eu demorar mais 20 minutos para além dos habituais (já muitos!) a escolher a roupa de manhã...e quem se levanta todos os dias Às 7h sabe que escolher o outfit do dia é dos maiores desafios desse dia...tirando isto, nada contra os avisos de chuva que nunca chega!

«Livro Sem Ninguém», Pedro Guilherme-Moreira

 

Na rua do arco-celeste há sete casas, cada uma de sua cor; e também um café, uma horta, um jardim, uma florista, uma sucata, um infantário e uma escola. Mas, embora lá vivam pessoas – que frequentam o café, trabalham na horta, lêem no jardim, compram flores para oferecer a quem amam, se desembaraçam dos seus podres ou jogam à bola no recreio –, esta história é contada apenas pelas coisas que lhes pertencem à medida que vão mudando de lugar, e por isso se diz que o livro é sem ninguém. E, ainda assim, durante este ano extraordinário, acontece de tudo na rua: há quem se apaixone e quem se separe, quem nasça, quem morra, quem mate e até quem, depois do trauma, consiga uma vida nova. Mas, como em todas as ruas, havemos de encontrar nesta preconceitos, dúvidas, alegrias, segredos e desgostos. Enquanto isso, o tempo vai passando sem darmos por ele, mas a montra da florista e o que se colhe ou semeia na horta nunca nos deixam perder do mês em que estamos. Num romance profundamente original, a um tempo cru e delicado, poético e realista, Pedro Guilherme-Moreira usa o microcosmos da rua para desenhar o retrato da sociedade contemporânea e abordar temas tão polémicos como a xenofobia, a violência doméstica, a repressão sexual ou o envelhecimento. E – miraculosamente – sem precisar de ninguém.

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   Estava muito curiosa em relação a este livro. Li "A manhã do mundo" há algum tempo e adorei e, por isso, assim que soube que Pedro Guilherme-Moreira tinha novo livro decidi automaticamente que tinha de o ler rapidamente. Mais curiosa ainda fiquei quando descobri que este livro era um livro sem ninguém, sem personagens humanas ou de carne e osso, mas com coisas, muitas e variadíssimas coisas que são as personagens principais deste livro. E essas coisas contam tanta história como as pessoas o fariam. O que não deixa de ser curioso; perceber que para se contar uma história (ou várias) não se precisa de ninguém, não quando se tem uma imensa imaginação e uma infindável capacidade de nos conduzir por uma rua de 7 casas, uma florista, um café e uma horta de mãos dadas com violinos, sapatos, casacos, carros, bicicletas, flores ou os mais variados legumes. Porque neste livro sem gente há tanta vida nas coisas das gentes que lá não estão, que conseguimos, mais do que nunca, ver vida de gente lá.

    Gostei, Pedro Guilherme-Moreira. Ainda assim, este livro sem ninguém não supera, para mim, aquela manhã do mundo, tão cheia de gentes e coisas...que venha o próximo!

Estar à mesa com o problema

   Fico sempre algo incomodada quando ouço coisas como "os psicólogos resolvem os problemas das pessoas, não é?". Não, não é! Os psicólogos não resolvem os problemas das outras pessoas (e muitas vezes são péssimos a resolver os seus próprios problemas). Primeiro, porque ao contrário de um aparelho electrónico, as pessoas não têm um manual de resolução de problemas no qual alguém se possa especializar. E principalmente, a capacidade de resolução de problemas é uma função mental superior que todos os humanos possuem e que, não estando geneticamente activa, pode ser treinada e desenvolvida, e aqui sim, podem entrar os psicólogos.

   O que nós, psicólogos, fazemos é ajudar a resolver problemas. Desde identificá-lo (o mais difícil), exteriorizá-lo, pô-lo em palavras, explorá-lo, decompô-lo e, em conjunto, encontrar forma de o minimizar. O psicólogo também não apaga problemas. Pelo contrário, o psicólogo ajuda a pessoar a consciencializar-se do problema, com o objectivo último e máximo de dotar a pessoa de capacidades para "estar com o problema à mesa". Portanto, o que importa no trabalho psicológico, e a meu ver, não é fazer esquecer problemas, é fazer o outro aceitar esse problema e resolvê-lo ao ponto de ser capaz de viver com ele. O "já nem me lembro" não é o desejável, mas sim o "agora eu sou capaz de viver de forma adaptativa e equilibrada com isto". Esquecer ou deixar que outros resolvam os nossos problemas não é a solução, mas apenas uma forma de fuga e de perpetuar esses problemas.

   Este é o maior desafio de todos nós, sermos capazes de aceitar o que de menos bom nos acontece e processá-lo de tal forma que isso deixe ser um problema para passar a ser um momento ou uma experiência na nossa vida, com a qual eu consigo natural e adaptativamente conviver à mesa. Os psicólogos estão cá para ajudar a chegar lá quando sozinhos não o conseguimos. Estão cá para se sentarem connosco e com o problema à mesa enquanto não somos capazes de tolerar a sua companhia (a do problema) sozinhos (e todos nós, em algum momento, precisamos de alguém à mesa connosco). O trabalho do psicólogo está feito quando o outro diz "pode ir, agora eu sou capaz de estar à mesa com isto, sozinho".

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