Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

This made my day

31f7cdc4f751d4ae6ad521bbbb0a714a.jpg

 Qual a característica que mais aprecias em ti? 

   É uma pergunta que todos nós poderemos um dia escutar. Sem pensar muito, facilmente diria que a minha forma positiva de ver as coisas e a vida, sem negativismos e pessimismos extremos que nos inundam em sofrimento e mágoa, mas com os pés sempre muito bem assentes na terra. 

  Mas agora, e depois de alguns anos de experiência profissional enquanto psicóloga, a minha resposta mudou e descobri isto hoje depois de uma tarde de consultas relativamente pesadas. É a minha necessidade de arrancar um sorriso aos outros, seja em que situação for, que mais de agrada em mim. Esta vontade de, mesmo com lágrimas nos olhos, ver o outro sorrir. É isto que me realiza enquanto psicóloga. Muito mais que saber que estou a ajudar aquela pessoa ou que lhe poderei estar a conduzir a vida para um caminho mais simples. Muito mais que ouvi-la. Muito mais que me dizerem "Obrigada doutora". Muito mais que qualquer coisa. Ver um sorriso na cara de uma pessoa que me pediu ajuda, seja qual for a sua idade, é a melhor recompensa que eu poderia ter. E é para isto que eu me esforço todos os dia, a cada consulta: por roubar um sorriso sincero. Quase sempre consigo. E é isto, isto mesmo, que é tanto, aquele momento, aquele sorriso partilhado, que me faz sentir orgulhosa pelo meu trabalho e cheia por dentro, apesar de todo o sofrimento humano com que lido. É isto que faz aparecer por cima da minha cabeça aquele balãozinho invisível que diz "this made my day". 

   

Histórias com gente dentro...

   Hoje, pela primeira vez em consulta, aquele momento em que percebemos claramente que temos de usar todas as nossas barreiras emocionais e profissionais para não nos envolvermos mais naquela história, naquele momento, naquela dor, se queremos manter a postura de "eu não vou chorar com os meus pacientes". 

  Explorar o abuso sexual de uma jovem de 18 anos com a própria é duro, muito duro. Especialmente quando começamos a criar uma relação de proximidade terapêutica tão positiva, que a pessoa já confia em nós apenas para chorar e chorar e chorar...

   O melhor e o pior da minha profissão! 

A Arte de Cuidar

“A senhora está preocupada com ele porque ele tem uma doença, mas à minha frente vejo duas pessoas: ambas estão a sofrer e, para mim, são igualmente importantes”.

    As palavras não são minhas. Mas podiam ser.

    No meu trabalho diário lido maioritariamente com pessoas doentes, em sofrimento e muitas delas, quando ainda estão capazes de o receber, a necessitarem de apoio emocional ou psicológico. Mas também lido com os/as seus/suas cuidadores/as, quase sempre familiares e, quase sempre também, pessoas igualmente em sofrimento e a necessitarem de tanta ou mais ajuda que as anteriores. Se é verdade que são os doentes que sofrem biologicamente da doença e experimentam parte das alterações emocionais associadas à sua condição, é importante não esquecermos que grande parte do sofrimento psicológico é experimentado pelas pessoas que convivem e se entregam aos cuidados dos pacientes.

    Cuidar, segundo o Dicionário da Língua Portuguesa, significa tratar de, tomar conta de, ocupar-se de, responsabilizar-se por, prestar atenção a, interessar-se por… ou seja, cuidar pressupõe uma entrega e dedicação a outrem, situação que poderá ser humanamente gratificante, é certo, mas que pode ser igualmente desgastante. Regra geral, o conceito de cuidador é equiparado ao de uma pessoa com uma dedicação de cem por centro à pessoa doente, uma pessoa obrigada a esquecer as suas próprias necessidades. Mas talvez devêssemos entender o/a cuidador/a como alguém que está a partilhar a sua vida com o paciente e não como alguém que anula a sua vida em prol da vida do outro.

    Quando surge a necessidade de cuidar de alguém, existe geralmente um membro da família que assume um papel mais determinante e dominante, quer pelos laços afetivos existentes, pelo seu perfil psicológico, pelo seu carácter ou ainda, pelo desinteresse dos restantes familiares, quando estes existem. É por isso comum existir uma pessoa que assume o papel de ser “O/A Cuidador/a”. Este papel, além da responsabilidade implícita, pressupõe também conviver com uma certa sensação de angústia que advém da incerteza, do medo, da dificuldade em conviver com a situação, ao que acresce, muitas vezes, a sensação de “obrigatoriedade” de que tem e deve cuidar impreterivelmente daquela pessoa. Desde logo, esta sensação de obrigatoriedade é o principal sentimento do qual os cuidadores se devem libertar, já que é o principal causador de uma tensão psicológica baseada quase numa sensação de escravatura, muito comum da tradição judaico-cristã – a sensação de obrigatoriedade e dever de cuidar dos nossos até ao fim.

    Cuidar e dedicar a própria vida à vida de outra pessoa não significa que o/a cuidador/a deva ser anulado enquanto pessoa, mas antes fazê-lo do fundo do coração, o que implica ser capaz de delegar parte desse tempo de cuidado físico a outras pessoas e estruturas, para que possa dedicar tempo e espaço ao seu cuidado e atenção pessoal. No caso de famílias com maior capacidade económica, poderá colocar-se a possibilidade de contratar uma cuidadora formal, profissional, o que poderá ser de grande utilidade, pois permitirá que o/a cuidador/a tenha algum tempo livre para dedicar à sua vida pessoal, familiar e social. Na impossibilidade de receber ajuda externa, é fundamental garantir que o/a cuidador/a tem tempo para si e para viver a sua vida. Cuidar de alguém de forma adaptativa e saudável para as duas partes, a que cuida e a que é cuidada, obriga à existência de um equilíbrio que permita estar com e para a pessoa a quem temos de nos entregar e a necessidade de nos vermos enquanto pessoas e seres humanos igualmente necessitados de amor, carinho, atenção dos outros e da nossa própria atenção. Cuidar não faz sentido se o/a cuidador/a não cuidar de si também. Não se trata de cuidar porque “tenho de o fazer” mas antes de “eu quero e posso cuidar de alguém.”

   Nos casos em que o/a cuidador/a se vê isolado e sem qualquer ajuda, a sensação de solidão é um dos maiores desafios que enfrenta. Há uma dupla solidão: por um lado há um sentimento de perda contínuo que diz respeito à noção de que se vai perder aquela pessoa de quem se cuida e, por outro, há a verdadeira solidão da pessoa que se sente desamparada e só nesta missão de cuidar. Quem cuida poderá ainda viver numa espécie de “luto vivo”: luto porque perante a doença a sensação de perda é constante, e vivo, porque supõe cuidar de alguém que está em permanente mudança, assim como a relação que se tem com ela. Se não nos adaptarmos a este processo de mudança permanente, a dor e o sofrimento serão uma inevitabilidade. Perante a morte da pessoa de quem se cuida, o sentimento mais comum e mais significativo é o de vazio e falta de um propósito para a vida. Este vazio é compreensível se pensarmos que a pessoa de quem se cuidava nos preenchia completamente; a dedicação oferecida era de tal forma total que todos os nossos sentimentos, todas as nossas emoções, todo o nosso amor, estavam projectados nela. Além disso, ao dedicar os dias ao cuidado, é-se em função daquela pessoa.

    Cuidar aumenta também a nossa percepção da realidade e ensina-nos a dar todo um novo significado à vida e ao que nos acontece. Os cuidadores podem pensar que, além da possibilidade de perder alguém que lhe é próximo, o futuro pode reservar-lhe algo parecido e as comparações são inevitáveis «E se isto me acontecesse a mim?», é a pergunta que muitos familiares fazem a si próprios quando começam a viver num processo de cuidar. Até eu já perdi a conta à quantidade de vezes que regresso a pensar “e se isto me acontecesse a mim ou aos meus?”. Lidar de perto com a doença e com a (possibilidade da) morte aumenta a perceção de que somos finitos. É-nos mais fácil pensar que viveremos muitos anos, porque é nisso que o cérebro quer que acreditemos. Ninguém vive (nem deve!) a pensar que qualquer momento pode ser o último. Ninguém. A realidade, porém, diz-nos que o deveríamos fazer. E é precisamente esta capacitação de que tudo é finito que nos permitirá conviver de uma forma mais harmoniosa com um doente, vendo cada novo dia como mais um dia junto da pessoa que amamos.

   Cuidar do outro é também cuidar de nós. Afinal, o mesmo Dicionário da Língua Portuguesa que nos ensina que cuidar é um acto dirigido ao outro, também nos diz que cuidar é obter cuidado ou zelo consigo mesmo, tratar de si.

   Cuidar é amor. Amor aos nossos, ao próximo e amor-próprio.

 

A todas as pessoas que entregam a sua vida ao cuidado e atenção dos outros.

Dias (dramas, manias ou paranóias) de mulher

tumblr_m1jwjcbACo1ronge6o1_500.png

  Provavelmente todas as mulheres têm destes dias: os dias em que nada nos satisfaz, tudo nos parece errada e a nossa auto-estima anda ali pelas ruas da amargura. Há quem diga que a culpa é das hormonas (as coitadas têm culpa de tudo!) e se calhar até é, mas o que é certo é que em dias destes não há muita coisa que nos anime. São aqueles dias em que não nos apetece fazer nada, seja trabalhar ou sair de casa para passear e em que nada nos agrada, seja de comer, de beber, de vestir ou de fazer. Olhamo-nos ao espelho e não gostamos do que vemos, implicamos com o cabelo que não conseguimos domesticar, com a cara de lulas que não conseguimos disfarçar, com as coxas que parecem inchar a cada inspiração, com as roupas que parece que não nos assentam como deviam e queriamos. Apetece-nos comer este mundo e o outro e parece que o nosso estômago nunca está completo. Abrimos um livro para ler e não passamos da primeira página, folheamos uma revista onde nenhum artigo nos prende. Cumprimos as nossas obrigações e não paramos de olhar para o relógio com urgência de que o tempo passe depressa para irmos fazer o que quer que seja que também não nos vai satisfazer mas que nos parece melhor do que o que estamos a fazer naquele momento.

   Poderia ficar aqui a noite toda com exemplos e mais exemplos destes dias, mas tenho a certeza que há por aí alguma mulher que me compreenderá. Mulheres, há dias assim não há? 

   A parte boa é que, como todos os dias, estes também passam...

Porque sem saúde mental não há saúde

sem nome.png

 

   Ter saúde mental é sentirmo-nos bem connosco próprios e na relação com os outros. É sermos capazes de lidar de forma positiva com as adversidades. É termos confiança e não temermos o futuro. É ter robustez mental.

   A pessoa com saúde mental sente-se bem, feliz, com alegria. Estes sentimentos subjectivos advêm do bem-estar conseguido, por exemplo, com o autocontrolo, auto-eficácia, amar e ser amado e não o obtido através do uso de drogas, comportamentos de risco ou satisfação imediata de necessidades primitivas. Também temos de distinguir que o facto de vivenciarmos emoções negativas não significa ausência de saúde mental. No caso de perda, luto, tragédia, etc., a capacidade de reconhecer e lidar com as próprias emoções negativas e as dos outros é um sinal de saúde mental

   Para se atingir um bom estado de saúde mental a pessoa deverá aumentar o seu nível de auto-conhecimento, aumentar a capacidade para lidar com as diferentes emoções e elaborar os conflitos internos. Para tal, pode necessitar de intervenção psicológica especializada. Para além disso, uma vida equilibrada, com baixos níveis de stress, relacionamentos familiares e sociais estáveis, prática de actividade física, respeito pelos ritmos sono/vigília, respeito pelos limites físicos e psíquicos individuais, equilíbrio entre as actividades profissionais e os tempos de lazer, constituem alguns factores que podem contribuir para uma melhor saúde mental.
Na prática clínica, ao longo de anos, temos comprovado empiricamente que o sucesso da intervenção clínica é maior e mais duradouro quando o objectivo é dotar a pessoa de maiores recursos psicológicos para enfrentar as situações internas e externas. Este modelo de saúde mental implica também que, mesmo as pessoas que não tenham sintomatologia psiquiátrica ou doença mental beneficiem de intervenções ou ajuda que promova as suas capacidades mentais. Portanto também os “normais”, isto é, sem sintomas, podem melhorar a sua saúde mental e, consequentemente, aumentar a qualidade de vida.

O corpo de uma mulher tem destas coisas

 

   Há uns dias que não me sentia bem com o meu corpo. Olhava-me ao espelho e não lhe gostava das formas. Especialmente das coxas, que me pareciam estar a ocupar demasiado espaço na imagem e até a minha orgulhosa barriguinha me estava a deixar desiludida. Sexta-feira à noite fui à balança e apanhei a maior desilusão dos últimos meses. Estava acima dos 49kg! Não é muito, eu sei, mas para alguém que há alguns meses conta com uns simpáticos 48kg, 48,5kg, estes mais de 49 repentinos deixaram k.o. Amaldiçoei tudo e todos, que era impossível, que não alterei nada na minha alimentação, que me esforço no ginásio, etc, etc. O namorado automaticamente desvalorizou com um "eu até gosto mais de te ver assim. 49 é o peso ideal para ti". E eu ripostei "mas é preciso que eu os queira e me sinta bem neles!". E efectivamente, sendo um peso normalíssimo para alguém com a minha altura, não me sentia bem com aquele corpo e sobretudo com a mudança tão repentina.

   Uma coisa eu sentia há alguns dias: no período da tarde fazia muito menos xixi que o habitual em mim, que é tipo de 5 em 5 minutos. Para minha admiração aguentava horas sem ir ao wc, mesmo bebendo água. Estranho...

   Toca a planear uma pequena dieta para voltar aos 48kg. Planos feitos, corta nas 4 bolachas integrais ou Maria que comias por dia, este fim-de-semana não há gelado, redução nos hidratos e bora lá treinar com garra. E decidi parar com o depurante que estava a fazer há uma semana e meia para limpar o organismo. 

   O fim-de-semana é sempre a pior altura para começarmos estas maluquices, mas o certo é que Domingo senti-me melhor e passei o dia numa corrida ao wc, como é habitual em mim. Sem grandes alterações na dieta, que até inclui uma bifana no sábado à noite, a baança ofereceu-me uns menos preocupantes 48,7 kg. Alto! Nem tudo está perdido! Esta semana alimentação regrada e ginásio e aos poucos vamos ao sítio.

   Não foi preciso muito! 3 dias a reduzir hidratos, a beber água e com dois treinos fortes e há pouco voltei à balança e pasmem-se tanto como eu: 47,9kg!!! E sim, eu pesei-me mais que uma vez!

   Conclusão: eu não estava gorda, estava inchada! O que me pôs assim não sei...talvez o tal drenante, embora o bjectivo fosse precisamente reduzir a retenção de liquídos e afins, mas depois deste susto acho que o parei definitivamente. Não vejo outras possibilidades, mas nunca fiando, esta semana vai ser regradíssima na alimentação!

   Eu sei que é um post fútil e até doentio, mas quem se preocupa com estas coisas do corpo e de sentir bem consigo mesma perceberá que estas mudanças repentinas nas nossas formas, mais do que no nosso peso, nos assustam. A mim deixou-me mesmo de muito mau humor. Desiludida. Revoltada. È por isso que senti tanta necessidade de escrever sobre isto. Porque hoje voltei a sentir-me eu e bem com o meu corpo. Mesmo assim, não vou baixar a guarda!

   Já vos aconteceu algo do género?

«Alabardas", José Saramago

   Aquando do seu falecimento, em 2010, José Saramago deixou escritas trinta páginas daquele que seria o seu próximo romance; trinta páginas onde estava já esboçado o fio argumental, perfilados os dois protagonistas e, sobretudo, colocadas as perguntas que interessavam à sua permanente e comprometida vocação de agitar consciências.
Saramago escreve a história de Artur Paz Semedo, um homem fascinado por peças de artilharia, empregado numa fábrica de armamento, que leva a cabo uma investigação na sua própria empresa, incitado pela ex-mulher, uma mulher com carácter, pacifista e inteligente. A evolução do pensamento do protagonista permite-nos refletir sobre o lado mais sujo da política internacional, um mundo de interesses ocultos que subjaz à maior parte dos conflitos bélicos do século xx.
Dois outros textos - de Fernando Gómez Aguilera e Roberto Saviano - situam e comentam as últimas palavras do Prémio Nobel português, cuja força as ilustrações de um outro Nobel, Günter Grass, sublinham.

___________________________________________________

  Seria José Saramago. No seu melhor. E as 30 páginas que escreveu antes de nos ser levado deixam-nos ainda mais saudades das suas palavras...

No Dia Internacional do Idoso

   O trabalho diário com idosos (e seus familiares) oferece-nos imensas oportunidades de aprendizagem e, acima de tudo, inestimáveis lições de vida. Pessoalmente, costumo afirmar, em jeito de brincadeira séria, que carrego cá dentro muitas vidas, vidas que não são minhas mas que me ensinam o que só a experiência e as vivências nos podem ensinar. As vidas que trago cá dentro são vidas feitas de histórias com gente dentro, gente essa que muitas vezes a sociedade discrimina, afasta, encosta a um canto. Para quem lida com o bom e o menos bom da vida e do envelhecer os desafios são inúmeros e diários. Mas, provavelmente, também é isso que nos alimenta os dias e nos faz gostar verdadeiramente daquilo que fazemos.

   Em pleno ano de 2014, numa época em que tudo o que no século passado parecia utopia já aconteceu ontem, continuamos a encontrar idosos sem as condições mínimas de subsistência, como por exemplo, sem luz ou água quente, e que, ainda assim, resistem às nossas tentativas de ajuda ou sugestões de alteração do seu estilo de vida – coisas simples como deslocarem-se ao centro de dia para tomar banho quando não têm água quente, aceitarem apoio para resolução de situações de corte de luz de há mais de 10 anos ou realização de higiene habitacional. Mais do que resolver estas situações, que na sua maioria são complicadíssimas, não só pela dita resistência do idoso, mas também pela escassez de respostas sociais imediatas, é necessário alterar mentalidades e representações mentais, já que para estas pessoas estas condições são tidas como “normais” e perfeitamente aceitáveis. Não me recordo de ter conhecido algum idoso a viver nestas condições desumanas que alguma vez tivesse reconhecido que viver no meio de lixo simplesmente não é viver e que merece muito mais do que isto. Acima de tudo é preciso respeitá-los, mas não desistir destes idosos, nem nos acomodarmos na certeza de que “fizemos tudo o que podíamos”, porque há sempre algo mais que podemos fazer pela qualidade de vida de alguém que, muito provavelmente, já perdeu toda a vontade de viver.

   A questão que se impõe é: onde está a família nestas situações?  A frieza, distanciamento e ausência de sentimentos com que algumas famílias tratam os seus (que acabam por ser mais nossos) idosos é das coisas que mais me revolta no meu trabalho. Quase diariamente me deparo com exemplos vergonhosos que me fazem questionar até onde o ser humano é capaz de ir na sua indiferença para com outros seres humanos. A solidão em que muitos idosos são deixados a (sobre)viver é uma das maiores epidemias dos tempos modernos e daquelas coisas em que pensamos enquanto nos encaminhamos para o conforto das nossas casas, onde sabemos que temos sempre alguém à nossa espera. Por um lado porque projectamos aquela solidão no nosso futuro e na possibilidade de também nós acabarmos sós e por outro, porque a solidão é talvez aquilo que mais sofrimento causa a um idoso, causando uma corrosão interior tão dolorosa que a morte emocional é inevitável. E a pior solidão é aquela que não é solidão, mas sim abandono (porque há a solidão que é quase obrigatória, quando não existem familiares vivos, por exemplo). As desculpas que os filhos arranjam para não estarem presentes na vida dos pais e as desculpas que os próprios pais arranjam para a ausência dos filhos davam tema para outro artigo, mas resumindo, os idosos estão abandonados porque há filhos se esquecem que o são, e esquecem que, algures, o pai e/ou a mãe estão abandonados e entregues a si próprios, a viverem sabe-se lá como e à custa de quê. Para estes filhos, uma questão apenas: "mas estes não são os seus pais?” Não deveria isto, que já é tudo, ser suficiente para nunca falharmos no amor e dedicação?  E como se não bastasse, temos ainda os próprios idosos, os pais, a desculparem estas ausências com um rol de justificações de quem não quer acreditar que foi abandonado. Quantas vezes aqueles pais anularam as suas vidas para estarem presentes na vida dos filhos, para mudarem uma fralda, para passarem uma noite em branco à espera que a febre baixasse, para terem o que lhes dar de comer e vestir... quanto sacrifício não terão eles feito para agora os filhos serem essas pessoas cheias de afazeres e cargos importantes que nem lhes deixam tempo para visitar quem lhes deu o mundo? Apenas um desabafo…

 É de dedicação humana que os nossos idosos precisam. E mais do que isso, o que temos de dar aos nossos idosos diariamente é um comprimido que não se vende na farmácia – o afecto. Como o Papa Bento XVI disse um dia “Quem acolhe os idosos, acolhe a vida”. 

Pág. 2/2