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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Reborn (ou a ilusão)

   Dizia uma reportagem do Expresso deste fim-de-semana que há por aí quem se dedique a criar bonecos de borracha que imitam na perfeição bebés reais, ao ponto de em alguns deles se instalar um dispositvo que simula os batimentos cardíacos, a respiração e até mesmo o aparelho urinário. Chamam-lhe "Reborn" e eu fui pesquisar.  A arte do “reborn” terá os seus antepassados nas mães que viveram no tempo da II Guerra Mundial. Perante tanta destruição, eram obrigadas a reconstruir, dentro do possível, os brinquedos dos seus filhos. Principalmente na Alemanha e no Reino Unido, construiu-se um gosto pela reciclagem dos bonecos, que precisavam muitas vezes de cabelos ou roupas novas. Até aqui tudo bem. Ou tudo normal.

   Mas a reportagem do Expresso vai mais longe e explica-nos que actualmente, estes bebés reais de borracha são mais do que meros objectos de colecção de gente crescida. Apesar de também serem utilizados para terapia e estimulação em casos de autismo e Alzheimer, por exemplo, estes bonecos são sobretudos subsitutos de bebés reais para quem não pode ter um real ou perdeu um filho. Se aqui isto me começa a fazer confusão, o pior está para vir. Há mulheres que adoptam literalmente estes bonecos, às vezes mais que um, e os tratam como verdadeiros filhos de carne e osso e sangue e vida. Vestem-nos, mudam-lhes a roupa, dão-lhes banho, dão-lhes mimo, penteiam-nos 3 vezes ao dia (o testemunho é real!), decoram-lhes quartos, levantam-se de noite para ver se estão a dormir descansados (!!!), levam-nos a passear em verdadeiros carrinhos de bebé...e a lista poderia, assustadoramente, continuar por aqui fora. Resumindo: tudo o que uma mãe faz a um bebé, a um dos reais, estas mulheres fazem a um boneco.

   E é de um boneco que estamos a falar! Por mais real que pareça! Um boneco! Analisando isto com olhos clínicos e não com os olhos de alguém que perdeu um filho (porque serão sempre olhares e perspectivas diferentes), acho tudo muito pouco saudável. Doentio até. A roçar o louco. E preocupante. Pior do que não fazer o luto, não aceitar a morte, ão quebrar as rotinas que se tinha com a criança perdida, é alimentar estas ilusões com objectos de borracha. Porque se eu sair por aí a passear um gato de peluche todos me chamarão louca, mas se eu sair por aí a passear um bebé de borracha, vão chamar-me o quê?

   Quem perde um filho, precisa de ajuda. Precisa de lidar com a perda, com a morte, com a ausência, com o finito de algo que julgavam infinito. Precisa da dor que será eterna, mas com a qual aprenderão a (sobre)viver. Não precisam, com toda a certeza, de um boneco que rejeita tudo isto e prolonga um amor falso, alimentando uma relação que não existe e que cria a ilusão de que tudo é substituível. E um filho que parte não é NUNCA substituível. Muito menos por um boneco.

   Desculpem a minha frieza, mas isto completamente louco!!!!

 

 A própria realidade deste bebés de borracha é assustadora.