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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

A Arte de Cuidar

“A senhora está preocupada com ele porque ele tem uma doença, mas à minha frente vejo duas pessoas: ambas estão a sofrer e, para mim, são igualmente importantes”.

    As palavras não são minhas. Mas podiam ser.

    No meu trabalho diário lido maioritariamente com pessoas doentes, em sofrimento e muitas delas, quando ainda estão capazes de o receber, a necessitarem de apoio emocional ou psicológico. Mas também lido com os/as seus/suas cuidadores/as, quase sempre familiares e, quase sempre também, pessoas igualmente em sofrimento e a necessitarem de tanta ou mais ajuda que as anteriores. Se é verdade que são os doentes que sofrem biologicamente da doença e experimentam parte das alterações emocionais associadas à sua condição, é importante não esquecermos que grande parte do sofrimento psicológico é experimentado pelas pessoas que convivem e se entregam aos cuidados dos pacientes.

    Cuidar, segundo o Dicionário da Língua Portuguesa, significa tratar de, tomar conta de, ocupar-se de, responsabilizar-se por, prestar atenção a, interessar-se por… ou seja, cuidar pressupõe uma entrega e dedicação a outrem, situação que poderá ser humanamente gratificante, é certo, mas que pode ser igualmente desgastante. Regra geral, o conceito de cuidador é equiparado ao de uma pessoa com uma dedicação de cem por centro à pessoa doente, uma pessoa obrigada a esquecer as suas próprias necessidades. Mas talvez devêssemos entender o/a cuidador/a como alguém que está a partilhar a sua vida com o paciente e não como alguém que anula a sua vida em prol da vida do outro.

    Quando surge a necessidade de cuidar de alguém, existe geralmente um membro da família que assume um papel mais determinante e dominante, quer pelos laços afetivos existentes, pelo seu perfil psicológico, pelo seu carácter ou ainda, pelo desinteresse dos restantes familiares, quando estes existem. É por isso comum existir uma pessoa que assume o papel de ser “O/A Cuidador/a”. Este papel, além da responsabilidade implícita, pressupõe também conviver com uma certa sensação de angústia que advém da incerteza, do medo, da dificuldade em conviver com a situação, ao que acresce, muitas vezes, a sensação de “obrigatoriedade” de que tem e deve cuidar impreterivelmente daquela pessoa. Desde logo, esta sensação de obrigatoriedade é o principal sentimento do qual os cuidadores se devem libertar, já que é o principal causador de uma tensão psicológica baseada quase numa sensação de escravatura, muito comum da tradição judaico-cristã – a sensação de obrigatoriedade e dever de cuidar dos nossos até ao fim.

    Cuidar e dedicar a própria vida à vida de outra pessoa não significa que o/a cuidador/a deva ser anulado enquanto pessoa, mas antes fazê-lo do fundo do coração, o que implica ser capaz de delegar parte desse tempo de cuidado físico a outras pessoas e estruturas, para que possa dedicar tempo e espaço ao seu cuidado e atenção pessoal. No caso de famílias com maior capacidade económica, poderá colocar-se a possibilidade de contratar uma cuidadora formal, profissional, o que poderá ser de grande utilidade, pois permitirá que o/a cuidador/a tenha algum tempo livre para dedicar à sua vida pessoal, familiar e social. Na impossibilidade de receber ajuda externa, é fundamental garantir que o/a cuidador/a tem tempo para si e para viver a sua vida. Cuidar de alguém de forma adaptativa e saudável para as duas partes, a que cuida e a que é cuidada, obriga à existência de um equilíbrio que permita estar com e para a pessoa a quem temos de nos entregar e a necessidade de nos vermos enquanto pessoas e seres humanos igualmente necessitados de amor, carinho, atenção dos outros e da nossa própria atenção. Cuidar não faz sentido se o/a cuidador/a não cuidar de si também. Não se trata de cuidar porque “tenho de o fazer” mas antes de “eu quero e posso cuidar de alguém.”

   Nos casos em que o/a cuidador/a se vê isolado e sem qualquer ajuda, a sensação de solidão é um dos maiores desafios que enfrenta. Há uma dupla solidão: por um lado há um sentimento de perda contínuo que diz respeito à noção de que se vai perder aquela pessoa de quem se cuida e, por outro, há a verdadeira solidão da pessoa que se sente desamparada e só nesta missão de cuidar. Quem cuida poderá ainda viver numa espécie de “luto vivo”: luto porque perante a doença a sensação de perda é constante, e vivo, porque supõe cuidar de alguém que está em permanente mudança, assim como a relação que se tem com ela. Se não nos adaptarmos a este processo de mudança permanente, a dor e o sofrimento serão uma inevitabilidade. Perante a morte da pessoa de quem se cuida, o sentimento mais comum e mais significativo é o de vazio e falta de um propósito para a vida. Este vazio é compreensível se pensarmos que a pessoa de quem se cuidava nos preenchia completamente; a dedicação oferecida era de tal forma total que todos os nossos sentimentos, todas as nossas emoções, todo o nosso amor, estavam projectados nela. Além disso, ao dedicar os dias ao cuidado, é-se em função daquela pessoa.

    Cuidar aumenta também a nossa percepção da realidade e ensina-nos a dar todo um novo significado à vida e ao que nos acontece. Os cuidadores podem pensar que, além da possibilidade de perder alguém que lhe é próximo, o futuro pode reservar-lhe algo parecido e as comparações são inevitáveis «E se isto me acontecesse a mim?», é a pergunta que muitos familiares fazem a si próprios quando começam a viver num processo de cuidar. Até eu já perdi a conta à quantidade de vezes que regresso a pensar “e se isto me acontecesse a mim ou aos meus?”. Lidar de perto com a doença e com a (possibilidade da) morte aumenta a perceção de que somos finitos. É-nos mais fácil pensar que viveremos muitos anos, porque é nisso que o cérebro quer que acreditemos. Ninguém vive (nem deve!) a pensar que qualquer momento pode ser o último. Ninguém. A realidade, porém, diz-nos que o deveríamos fazer. E é precisamente esta capacitação de que tudo é finito que nos permitirá conviver de uma forma mais harmoniosa com um doente, vendo cada novo dia como mais um dia junto da pessoa que amamos.

   Cuidar do outro é também cuidar de nós. Afinal, o mesmo Dicionário da Língua Portuguesa que nos ensina que cuidar é um acto dirigido ao outro, também nos diz que cuidar é obter cuidado ou zelo consigo mesmo, tratar de si.

   Cuidar é amor. Amor aos nossos, ao próximo e amor-próprio.

 

A todas as pessoas que entregam a sua vida ao cuidado e atenção dos outros.

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