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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Dos meus dias difíceis

   Nunca equacionei realizar o meu trabalho de psicóloga sem criar relações/ligações com as pessoas que encontro. Já aqui escrevi sobre isso noutra altura e nesta fase profissional em que me encontro percebo mais do que nunca que essa era, apesar de tudo e de todas as indicações para fazer precisamente o contrário, a única forma de fazer o meu trabalho bem feito. 

   O ser humano vive de relações e ligações. Muitas das pessoas junto das quais exerço as minhas funções não têm uma rede social ou de ligações forte. Muitas não têm sequer qualquer tipo de relações para além das que estabelecem com as pessoas que lhes prestam algum serviço. Durante este 4 anos e meio de trabalho na instituição enquanto psicóloga criei relações com muitas pessoas, especialmente idosos, que hoje sei que eram relações verdadeiras e fortes. Nesta altura de mudança de funções, interromper essas relações é um imperativo. Comunicar a quem se habitou a ver-me como um membro da família e alguém em quem podiam confiar o que muitas vezes não confiavam a mais ninguém que vão deixar de me ter tem sido duríssimo. Ver nos olhos dos que acompanho que já sentem a minha falta, que ficam decepcionados, tristes, alguns até mesmo chateados, é algo que difícil de gerir interiormente. Mas é também a prova de que estava a fazer o meu trabalho da melhor forma possível; que dei o melhor de mim, que dei muito de mim, mas que não me arrependo. Não podia ser de outra maneira. Não podia ser com outra intensidade. Estive lá para eles. Não sempre que eles precisavam, mas estive muitas vezes. E é por isso que é tristeza que eu vejo nos olhos deles por estes dias. Mas também é por isso que todos eles, sem excepção, me dão os parabéns, me desejam o melhor deste mundo e do outro em sucesso e felicidade e transmitem a sua alegria por me verem "subir de posto". 

   Criar relações também é isto. Também é ficarmos tristes e felizes ao mesmo tempo com uma mudança e transmitirmos isso ao outro. Ser psicóloga é isto. É dar uma parte de nós ao outro que precisa; é ficar com uma parte do outro em nós; é criar uma ligação que quando tem de levar um ponto-e-vírgula (porque eu não gosto de pontos finais, muito menos parágrafos) que nos deixa o coração e a alma duplamente apertadinhos: de tristeza pelos que deixamos e de alegria por levarmos cá dentro tanto de tantos, com a certeza de termos feito a diferença na vida de alguém. E a mim, é isso que me move.