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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Estar à mesa com o problema

   Fico sempre algo incomodada quando ouço coisas como "os psicólogos resolvem os problemas das pessoas, não é?". Não, não é! Os psicólogos não resolvem os problemas das outras pessoas (e muitas vezes são péssimos a resolver os seus próprios problemas). Primeiro, porque ao contrário de um aparelho electrónico, as pessoas não têm um manual de resolução de problemas no qual alguém se possa especializar. E principalmente, a capacidade de resolução de problemas é uma função mental superior que todos os humanos possuem e que, não estando geneticamente activa, pode ser treinada e desenvolvida, e aqui sim, podem entrar os psicólogos.

   O que nós, psicólogos, fazemos é ajudar a resolver problemas. Desde identificá-lo (o mais difícil), exteriorizá-lo, pô-lo em palavras, explorá-lo, decompô-lo e, em conjunto, encontrar forma de o minimizar. O psicólogo também não apaga problemas. Pelo contrário, o psicólogo ajuda a pessoar a consciencializar-se do problema, com o objectivo último e máximo de dotar a pessoa de capacidades para "estar com o problema à mesa". Portanto, o que importa no trabalho psicológico, e a meu ver, não é fazer esquecer problemas, é fazer o outro aceitar esse problema e resolvê-lo ao ponto de ser capaz de viver com ele. O "já nem me lembro" não é o desejável, mas sim o "agora eu sou capaz de viver de forma adaptativa e equilibrada com isto". Esquecer ou deixar que outros resolvam os nossos problemas não é a solução, mas apenas uma forma de fuga e de perpetuar esses problemas.

   Este é o maior desafio de todos nós, sermos capazes de aceitar o que de menos bom nos acontece e processá-lo de tal forma que isso deixe ser um problema para passar a ser um momento ou uma experiência na nossa vida, com a qual eu consigo natural e adaptativamente conviver à mesa. Os psicólogos estão cá para ajudar a chegar lá quando sozinhos não o conseguimos. Estão cá para se sentarem connosco e com o problema à mesa enquanto não somos capazes de tolerar a sua companhia (a do problema) sozinhos (e todos nós, em algum momento, precisamos de alguém à mesa connosco). O trabalho do psicólogo está feito quando o outro diz "pode ir, agora eu sou capaz de estar à mesa com isto, sozinho".