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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Histórias com gente dentro

   Um dia destes fui visitar novamente a Sra. C., como faço pelo menos uma vez por mês desde que a consegui "cativar" e conquistar depois de quase 2 anos de luta e visitas que terminavam com um "obrigada mas eu não preciso de nada" e que hoje é das pessoas que mais solicita a minha presença.

   A Sra. C., que nos seus mais de 80 anos, vive sozinha, é invisual há muitos anos e um autêntico mistério. Tal como todos aqueles que sofrem de alguma incapacidade sensorial, a Sra. C. é de uma sensibilidade espantosa, ao ponto de nos dizer coisas como "que se passa consigo hoje, sinto que está triste", "ei, volte à terra" quando já nos tinhamos desligado da conversa por exaustão psicológico (não, nunca deveria acontecer, mas acontece), "tem de se alimentar, as evidências de que está fraquinha são mais que muitas" ou "hoje está muito rabugenta e com ar de chateada, que se passa?"... poderia ficar a aqui mais um tempinho a discorrer sobre todas as coisas que a Sra. C. diz, e também sobre as que não diz mais eu também consigo sentir, mas o que hoje tenho de partilhar é muito simples, pelo menos para a maioria de nós.

   No final desta última visita (e depois de me ter partido o coração com um "não vá embora. É que quando sair eu não falo com mais ninguém até amanhã à hora de almoço quando vocês me vierem trazer a refeição") durante a qual toda a nossa conversa decorreu com a Sra. C. na cama por se encontrar constipada, instintiva e automaticamente eu despeço-me e puxo-lhe os lençóis para cima de forma a tapar-lhe as costas. De imediato a Sra. C. agarra-me a mão com uma força tremenda e a sorrir muito diz "ai, obrigada, muito obrigada, nunca ninguém me tinha feito isto". Sem palavras. Simplesmente um dos momentos mais tocantes da minha vida profissional e a prova de que não é precisa nada (ou aparentemente nada) para fazermos tanto por uma pessoa.