Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Histórias com gente dentro

   De vez em quando encontro pessoas assim: resistentes às minhas tentativas de ajuda, com o discurso do "eu não preciso", quando sabemos perfeitamente que precisam e muito e do "já não nada que possa fazer por mim". Nestes casos limito-me a respeitar sem nunca me fazer esquecer, ou seja, de longe a longe vou passando lá por casa "só para saber como está e lhe dizer que, se precisar, eu estou cá".

   Nestes casos e quase sempre de repente dá-se o clic que os faz dizer "gostava de poder falar com a Dra..." e ganho aqui amigos de uma vida, que é como quem diz, casos em que as visitas terminam sempre com um "e agora, quando volta?".

   A Sra. N. é um destes casos. Ou era... Connosco há vários anos, muitos mais do que os que eu tenho na instituição, passou de cuidadora exímia de um marido em fase terminal de doença cancerosa a cliente há cerca de 2 anos, com a morte do marido. Dona de uma personalidade muito própria e peculiar e de ideias nem sempre facéis de gerir, a Sra. N. nunca aceitou a minha ajuda, apesar de serem claríssimos os sinais de um enorme desgaste emocional causado pela doença do marido e depois pela sua morte e acima de tudo por uma história de vida complicada de quem teve tudo e todos e hoje sobrevive com tostões e caridade, numa solidão total que encara como humilhação e castigo que não compreende.

   Sem nada o fazer prever, na passada semana pediu a uma das nossas colaboradores para marcar uma visita minha. Caiu-me o queixo. A mim e a toda a equipa. Ontem lá fui, conhecê-la, percebê-la e ouvi-la. Principalmente ouvi-la, porque é só disto tudo que ela precisa, de alguém que a ouça fechada numa casa despida de calor humano, alegria e afetos. O tempo passou a voar, a conversa foi interessantíssima, compatível com a pessoa que acredito que a Sra. N. é e já muito perto do final compreendi o que a fez mudar de ideias e chamar-me. Completamente desacreditada da vida e das pessoas, a Sra. N. leu o meu texto "A arte de cuidar" publicado na última revista instituição e reviu-se naquelas palavras dedicadas a todos os cuidadores. Segundo ela, viu ali compreensão e dedicação de alguém que se preocupa com quem cuida e não apenas com quem está doente. E com aquelas palavras, voltou a acreditar um bocadinho nas pessoas e na humanização...ou pelo menos, começou a acreditar um bocadinho em mim e como ela própria disse "ao ler isto eu percebi que tinha aqui alguém que me pode compreender, que me vai ouvir e que me vai ajudar".

   Para quem, como eu, acredita nas pessoas e na capacidade de mudarmos vidas simplesmente estando lá e ouvindo, isto foi dos maiores elogios possíveis. E sim, a visita terminou com a marcação do nosso próximo encontro.