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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Nós, como a fruta...

   Somos como a fruta. Alguma vez pensaram nisso? 

   Esta ideia surgiu-me enquanto descascava uma maçã já rejeitada pela sua pele encurrilhada. Dei por mim, estupidamente talvez, a pensar "nós somos como a fruta; quando temos a pele encurrilhada já ninguém nos quer". E daqui deixei-me levar ao sabor de uma maçã que já ninguém queria mas que ainda estava totalmente comestível e rapidamente estabeleci os pararelos entre a fruta e os seres humanos. 

   Nós, seres humanos, crescemos a a partir de uma semente plantada, como a fruta. E, também como a fruta, crescemos juntos, em comunidades, que não são mais do que árvores de fruta gigantes onde vamos encontrando outros, ou com os outros. Às vezes caímos dessa árvore e os mais fragéis ficam pisados, como a fruta. Algumas marcas marcam-nos ao ponto de alterarem por completo a nossa essência e aquilo que somos e é aqui que, por vezes, enfrentamos o primeiro desafio da rejeição. Estamos marcados, somos diferentes, haverá quem não nos queira.

   Há um momento certo em que a fruta é comestível. Nós somos imaturos, verdinhos, ou maduros, ou seja, estamos na árvore da vida há tempo suficiente para nos podermos considerar gente e para os outros poderem olhar para nós e confiar em nós. Depois claro, há a velha questão: há quem goste dela mais verde e há quem gosta dela mais madura...e humanos, há-os para todos os gostos!

   Temos a fruta doce e a amarga, a que nos põe com cara feia a cada trinca. Na vida, há boas pessoas e más pessoas, e perante estas últimas, as caras que fazemos serão tão feias quanto as que fazemos ao comer uma laranja ácida. E depois há aquela fruta brilhante, cheia de cores vistosas, com um aspecto suculento, mas que dada a primeria trinca se torna uma grande desilusão, criando a desconfiança perante outras peças de fruta "hum , aquela era tão má, será que esta presta?". Desilusão, falsidade, cinismo, exteriores de sonho para interiores que nos dão vontade de cuspir, medo de encontrar outra tão má ou pior...será fruta ou será gente? 

  Como a fruta, vamos amadurecendo, que é como quem diz envelhecendo, a pele enruga-se, a nossa aparência exterior altera-se e cada vez menos vamos sendo a escolha. A fruta envelhecida fica na prateleira ou no fundo do caixote. Ninguém dá nada por ela e se a pudermos atirar para o lixo, ainda que discretamente, melhor ainda. Para quantos seres humanos o envelhecimento não é uma experiência tão dolorosa quanto a de ser deixado no fundo do caixote?

   Da casca enrugada até à podridão é um instante. Começamos a apodrecer por dentro, pelo coração, da fruta e das gentes e a dada altura a podridão é já tanta que o único passo que falta dar é o do caixote do lixo...ah! E às vezes, vêm uns bichinhos que aceleram todo o processo. Uns chamam-lhe o bicho da fruta, nós achamos giro dar-lhes o nome de doença, com apelidos tão variados quanto assustadores.  

   E os seres humanos, como a fruta, precisam de alguém que olhe por eles. Que os regue com amor, dedicação, carinho. A fruta, como o ser humano, tem o propósito de satisfazer alguém, vive para o outro e não é nada sem ele. O que seria de uma fruta que nascesse para nunca ser saboreada por alguém? O que seria do ser humano que vivesse para nunca ser saboreado por alguém?

   Somos fruta. Ou como a fruta.