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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Continuar a correr pelo parque

os olhos das crianças escondem o segredo da continuidade, para uma criança nada do que dói a um adulto impede a sua corrida pelo parque, e o que falta aos adultos é sempre a capacidade de continuar a correr pelo parque mesmo quando as bombas começam a cair, mesmo quando o parque parece um pântano, mesmo quando o escorregão fica velho e ferrugento, mesmo quando o parque já não é bem um parque mas um pré-cemitério, o que falta aos adultos é a capacidade de continuar a correr pelo parque mesmo quando a morte cai à volta.

Pedro Chagas Freitas, "Queres casar comigo todos os dias?"

Preciso de ti

Os filhos não precisam da presença física dos pais 24h por dia. Precisam sim de disponibilidade e entrega no tempo que existe, seja ele qual for, e de carinho, estímulos positivos e regras, mais do que brinquedos, chocolates ou qualquer outra coisa material.

E precisam de ouvir, as vezes que forem precisas; “és a coisa mais querida do mundo!”, “És a melhor coisa que me aconteceu."

Mário Cordeiro

 

   O J.N. é um menino de 11 anos que ainda está no 3º ano e de quem parece que toda a gente tem dificuldade em gostar. Diagnosticado com um grave quadro de hiperactividade com défice de atenção, é movido a comprimidos que procuram acalmar o excesso de energia que traz dentro de si.    O J. N. é um furacão - de energia, de sentimentos, de revolta, de raiva, de mau comportamento, de tudo o que menos se gosta numa criança e que a torna o alvo fácil de acusações e discriminações, ou o elo mais fraco, porque quando algo corre mal, se o J.N. está presente, a culpa é do J.N., sejam miúdos ou graúdos a emitir a sentença.

   Mas o J.N. também é um menino cheio de sonhos, inocência e vontade de ser tudo e capaz de tudo. E como todos os meninos, o J.N. gosta de ser gostado, de se sentir gostado e, por isso, o J.N. é um menino carente e ávido de atenção e afecto.

   O J.N. é aquele menino que muitos rotulam de "mau" e sem "capacidade de socializar" mas que sempre que me vê corre para mim, abraça-me e pede-me "Posso estar contigo hoje?" enquanto me oferece gomas e rebuçados que tem no bolso.

   O J.N. é aquele menino que muitos evitam e "impossível de ter em casa, na escola ou no ATL" mas que enquanto ouve um sermão de grupo na sala do ATL onde também não o compreendem procura a minha mão como quem procura abrigo da chuva e não a larga senão depois de muitas insistências da minha parte. 

   E podia ficar aqui horas a dar exemplos de como o J.N. e todos os outros meninos como o J.N. que existem são crianças com crescimentos complicados, são crianças que dão trabalho, são crianças que cansam e por vezes nos levam à loucura, mas são, acima de tudo crianças que estão a tentar dizer-nos algo e esse algo é, muitas vezes, "preciso de ti". 

 

Para mudar comportamentos é preciso mudar mentalidades

Cinco minutos de gritos e berros representam atenção e energia garantidos por parte dos pais. Meia hora de bom comportamento e sobriedade não rendem tanto. Temos de inverter as coisas e mostrar que os maus (comportamentos) perdem e os bons vencem.

"O grande livro dos medos e das birras", Mário Cordeiro

 

Porque às vezes parece mais fácil desgastarmo-nos a apontar o dedo a uma criança, repreendê-la, gritar com ela, pô-la de castigo... do que estarmos ali para aplaudir os seus bons comportamentos, as suas conquistas, as suas aprendizagens... 

Uma birra é sempre uma chamada de atenção, com ou sem fundamentos, com ou sem justificações, mais ou menos absurda, mas é uma chamada de atenção. Os bons comportamentos não são tão apelativos mas são importantíssimos, pelo que o reforço positivo é fundamental. Dediquem tempo bom às boas coisas das vossas crianças e verão que a Dona Birra acaba por vos visitar menos vezes. 

De menininha se aquece o coração

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 Parece que as mulheres nasceram para ser romanticamente sonhadoras e apaixonadas desde meninas. Todas as meninas que acompanho em consultas, e falo de meninas de menos de 10 anos, a dada altura chegam ao tema "há um rapaz de quem eu gosto"... e assim dá-se o mote para um rol de sonhos e devaneios e dramas e sorrisinhos tolos. Parece que nos está no sangue esta tendência para gostarmos de romances e amores mais ou menos impossíveis. Nos rapazinhos não falamos destas coisas; eles querem é saber de futebol e jogos de computador violentos; miúdas é preocupação que não têm. Mas as meninas... as meninas despertam os seus sentimentos muito cedo e sofrem com eles como gente crescida. Mas sobretudo sonham, sonham muito com os namoradinhos que poderão ter, como os poderão ter, sem se preocuparem muito com o tempo que os poderão ter ou com a possibilidade de os perderem. E acho que é nesta parte que é preferível sermos crianças apaixonadas: vivemos no agora, pensamos no concreto; o que poderá ser (ou não ser) amanhã é coisa que não nos preocupa. Há quem lhe chame inocência e é um facto que, muitas vezes, a inocência é das melhores armas de defesa pessoal. 

As crianças de hoje

O mundo, o dos adultos e das crianças, é exactamente igual: estupidamente igual. Há que brincar, cair, magoar, levantar, voltar a brincar, voltar a cair, voltar a magoar, voltar a levantar. E a ordem pode ser trocada mas é sempre a mesma. Há que doer para viver: e até doer dá sabor a viver. É de pequeno que se percebe o caminho. E no caminho há que levantar sozinho. E não existe não levantar sozinho: quando cais, só podes levantar-te sozinho. Por mais mãos que te puxem, por mais braços que te agarrem: quando te levantas, levantas-te sozinho. E as crianças de hoje não se sabem levantar - porque os pais as impedem de cair.

As crianças de hoje não sabem o que é viver. As crianças de hoje são crianças de aviário - crianças que nunca saíram do fraldário. As crianças de hoje não sabem o que é viver porque viver é correr riscos. E correr riscos não é subir mais um nível no último jogo da Playstation ou da Wii.

 

Pedro Chagas Freitas, "Eu sou Deus"

 

Crescer sem pai

Todos sabemos que as taxas de emigração dos portugueses têm crescido nos últimos anos. O aumento do desemprego leva muitos portugueses para longe de casa, com tudo que de bom e de mau isso acarreta. 

   A Sic transmitiu recentemente uma reportagem sobre os pais que emigram e deixam por cá família e, sobretudo, filhos. Ao contrário do que a reportagem dizia, estas não são crianças sem pai, expressão excessivamente forte. Estas são crianças com pais que são pais todos os dias, mas que foram obrigados a serem-no à distância, em defesa da família, da vida e da dignidade humana. Estas são crianças que vivem numa solidão permanente, que sabem melhor do que ninguém o significado da palavra saudade e que ,de certa forma, se vêem obrigadas a crescer um bocadinho mais depressa, por às vezes a saudade de um pai dói o suficiente para fazer mossa. 

   Estas são crianças que podem seguir dois caminhos: o da revolta e da não aceitação da situação, o que se traduzirá em comportamentos de exteriorização como défices de atenção, mau comportamento ou maus resultados escolares; ou da compreensão e aceitação, que as leva a utilizarem as mais diversas situações como um mecanismo de compensação para a ausência do pai, daí que surjam muitas vezes, por exemplo, excelentes resultados escolares. 

   Toda a criança deveria ter um pai e uma mãe por perto. As crianças que têm pai apenas uma vez por ano não podem ser crianças como as outras, porque haverá sempre uma parte do amor em falta, por muitos telefonemas que se façam e por muito que as novas tecnologias serviam para encurtar distâncias. Encurtam-se as distâncias, aumentam-se os sentimentos. 

   Sendo eu uma "pai-dependente" e alguém que guarda as mais diversas recordações do meu crescimento junto do meu pai (e mãe, mas neste questão, são maioritariamente os pais que emigram), não consigo sequer imaginar o que teria sido a minha infância e adolescência sem o meu pai. Provavelmente adaptaria-me à situação, afinal adaptarem-se é das coisas que as crianças melhor fazem, mas quantas memórias não teria sequer formado? Quanto não teria ficado por viver? Quantas brincadeiras por brincar, quantas aprendizagens por aprender, quantos castigos por receber? 

   Imaginem estas crianças que hoje crescem sem pai. Imaginem-nas daqui a 10, 20, 30 anos. Imaginem-nas a recordarem o passado. E agora imaginem quanta coisa elas não vão encontrar no passado, quantas recordações elas não vão formar, quanta vida elas estão a perder...

   Sei que esta é uma situação inevitável. Sei que muitos destes pais que partem são verdadeiros heróis. Sei que eles sofrerão tanto ou mais do que quem fica. Mas também sei que temos de pensar nas crianças, muito mais do que nas taxas de emigração. Depois do Pedro Abrunhosa querer voltar para os braços da sua mãe, há que pensar quantas crianças não dariam tudo para terem os (a)braços dos seus pais de volta...

Que febre é esta das pulseiras de elásticos?

 

  Que invasão de pulseirinhas multicolores feitas de material de escritório (parafraseando RAP numa das suas Mixóridas de temáticas) é esta? Diz que é anova loucura entra a canalhada, do mais pequeno ao mais graúdo, que as fazem incansavelmente e com as mais estranhas misturas de cores, primeiro para as oferecerem a pais, familiares e amigos e que agora até já as vendem, qual primeira experiência nesse complicado mundo dos negócios. Para qualquer pulso que se olhe, lá estão elas e na nossa instituição já se tornou quase um elemento do fardamento, tamanha é a quantidade de colaboradoras que as usam, ofertadas pelos seus filhotes.

   Nada contra isto, atenção! Acho até uma certa piada e gosto sempre de todo o tipo de actividades ou febres que afastam os miúdos dos tabletes e dos computadores. Lembro-me que na minha adolescência também existiu uma febre do género, também de pulseirinhas feitas por nós com uns fios de borracha igualmente coloridos. Na altura devo ter ficado com os dedos em ferida de tantas fazer, mas como todas as febres, chegou, venceu e passou. Tal como acontecerá a esta. mas enquanto durar, sempre nos vai colorindo os pulsos e os dias! Força criançada!

Meninos da rua

 

  Da varanda cá de casa vejo crianças a brincarem na rua ao final do dia. Às sextas-feiras e fim-de-semana a brincadeira entra pela noite dentro e é giro vê-los regressar a casa com a maior das tristezas por terem de deixar os amiguinhos de rua e as brincadeiras escolhidas, como se hoje fosse tudo o que têm e é mesmo tudo p que têm, porque ser criança passa depressa e há tanta coisa que temos de fazer mesmo, mesmo hoje e agora.

   Do que eu mais gosto é de ouvir os sons das crianças a brincarem na rua. Mais do que espreitá-las, gosto de as ouvir gritar umas com as outras, de as ouvir gritar de excitação e alegria pura e plena, porque quando somos crianças essa é a única alegria que conhecemos e que sabemos expressar. Gosto de as ouvir, porque actualmente as crianças já não gritam na rua (esquecendo as birras de supermercado, que não interessam a ninguém), simplesmente porque hoje não deixamos as nossas crianças brincarem na rua. As crianças de hoje não têm asas, porque os adultos a s cortam mal nascem (e eu consigo percebê-los) e por isso, já não chegam a casa com os joelhos esmurrados, já não pôem uma bola a rolar em qualquer lugar e arranjam balizas com pedras ou latas ou que quer que seja, já não fazem bolinhos de terra e ervas (o que eu gostava disto!), já não ouvimos pais aos gritos nas janelas a chamá-las para o jantar ou para a cama...

   Ser criança hoje em dia não deve ser fácil. Ou, pelo menos, não deve ser tão giro e bom como era há uns anos atrás. Acho mesmo que hoje em dia as crianças não sabem ser crianças porque os adultos não as ensinam a sê-lo. Ou não as deixam sê-lo. Ou então são só os tempos que mudaram - para pior - e hoje não podemos mostrar às nossas crianças que ser criança é o melhor que a vida tem e que a vida é muito mais gira fora de portas, longe de computadores, facebooks precoces, playstations, animais interactivos que não saem da televisão e jogos de futebol telecomandados.

   É por isso que eu gosto tanto de ouvir as crianças brincarem na rua aqui ao lado. Ouço-lhes a felicidade e isso basta para me fazer sentir um bocadinho melhor ao final do dia, porque afinal ainda há neste mundo actual, cheio de ratoeiras e coisas más, um espacinho onde as crianças podem e sabem ser crianças a valer.

Regras, limites e estilos parentais


   Foi este o tema das sessões de formação parental deste mês. Apesar da pouca adesão por parte dos pais, o que para mim é um claro sinal do desinteresse dos pais pelos filhos, posso concluir que a generalidade dos pais sente uma dificuldade enorme em educar os filhos, no verdadeiro sentido da palavra, principalmente no que respeita à transmissão das regras de conduta. Generalizando, estavam todos na mesma onda: "mas como é que eu faço isso, se o meu filho nunca me obedece?".

   Infelizmente, não existem fórmulas mágicas nem livros de instruções que ensinem os pais a educar os filhos. De facto, poderá ser muito mais fácil falar do que fazer, ler do que viver, ainda assim, eu ainda acredito que há crianças que são muito fáceis de educar, basicamente porque têm pais competentes e capazes de o fazer. Nestas sessões tive poucos exemplares destes tipos de pais...talvez um por sessão, mas certo é que me deu um gozo enorme pôr esses pais a falarem e a partilharem as suas experiências tão diferentes das dos restantes pais, mas que provam que isto de ser bom pai/boa mãe é uma tarefa complicada mas absolutamente possível.

   Estava à espera de encontrar muitos mais "quando for mãe vai perceber do que estamos a falar", mas a esse comentário só tenho uma resposta possível: não sou mãe, é um facto, mas já conversei com muitos pais e já vi muita coisa e, acima de tudo, sou filha de uns pais que fizeram um bom trabalho na tarefa de me educarem e conheço muitos outros exemplos de pais que fizeram também um muito bom trabalho na educação dos seus filhos.E não digo que isso tenha dado um trabalhão, porque quando as coisas são feitas com o coração e com dedicação não custam nada.

   Eu ainda acredito em pais dedicados e em crianças educadas. Quanto aos outros casos, há muita falta de competências parentais, muita falta de tempo, muita falta de dedicação, muita tecnologia, muita informação não filtrada e muita gente, adultos e crianças, a precisarem de ajuda e orientação. E não é vergonha nenhuma pedi-los!

Histórias com gente dentro

   A B. tem 7 anos e nunca teve uma boneca.

   "Olha, tenho um uxo, dois uxos, tês uxos e um bebé". Tudo isto lhe foi recentemente dado e por isso não larga o dito bebé. Mas uma boneca nunca teve. Para mim, uma menina que nunca teve uma boneca na mão está a ser vitíma de um qualquer tipo de violência ou negligência.

   A mãe da B., que foi mãe adolescente, resolveu ir para a Inglaterra na passada segunda-feira e não disse nada à família. Deixou a guarda da menina entregue à avó, levou a filha ao infantário e apanhou um avião, grávida de 6 meses, gravidez de risco, pai desconhecido. Não se despediu da filha, não explicou o que se ia passar, limitou-se a um "até logo", que na verdade significa "até qualquer dia, sei lá quando". A B., de 7 anos, soube por mim, uma perfeita desconhecida, que a mãe achou que o melhor era ir embora sem dar cavaco. Expliquei-lhe como pude e ela pareceu perceber que a mãe foi trabalhar para um sítio muito longe, tão longe que teve de ir de avião e agora precisa de ganhar muito muito dinheiro para poder vir no avião visitar a menina e trazer muitas prendinhas. E porque o dinheiro custa muito a ganhar vai estar muitos dias sem vir a casa...na verdade, ninguém sabe quantos dias, mas a B. continua a acreditar que a mamã vai voltar com o mano e muitas prendinhas.

   Talvez, então, traga a boneca que a B., com 7 anos, nunca teve.

   Apetece-me mudar isto.