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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Coisas que me fazem uma certa confusão...

... que o nosso sistema nacional de saúde não tenha dinheiro para desfibrilhadores nos hospitais e morra gente à custa disso;

...não tenha dinheiro para contratar mais profissionais de saúde e morra gente por causa disso;

...não tenha dinheiro para adquirir determinados instrumentos cirurgicos, ficando por isso algumas cirurgias por reallizar, e morra gente por causa disso;

... não tenha dinheiro para comprar um medicamento fundamental para o tratamento de certas doenças e morra gente por causa disso;

... não tenha dinheiro para melhor o nosso serviço de urgência dos hospitais e das ruas e morra gente por causa disso;

... não tenha dinheiro para tratamentos/terapias específicas (psicologia, terapia da fala, terapia ocupacional, entre outras) e haja gente a sofrer por causa disso;

MAS...

... que este mesmo sistema nacional de saúde, que não tem dinheiro para salvar vidas, tenha dinheiro para comparticipar cirurgias puramente egocêntrico-caprichosas-vaidosas para, por exemplo, colocação de banda gástrica a quem precisa é de aprender a fechar a boquinha e suar umas camisolas ou redução de gordurinhas localizadas (e são mesmo gordurinhas muito localizadinhas) que precisam é de trabalhinho e não de facas. 

   Esperemos que estas pessoas nunca precisem do dinheiro que o sistema nacional de saúde gastou a torná-las mais felizes sem se esforçarem para algum dos exemplos citados antes do MAS. 

Que país é este?

   Hoje, enquanto lanchava em plena praça da restauração do Norteshopping, reparei num senhor a remexer nos tabuleiros abandonados. Pelo que me apercebi de imediato, o senhor andava a recolher os pacotes de açucar que não tinham sido usados. Enquanto me preparava para comentar isto com o meu namorado e dar-lhe, confesso, um tom jocoso do tipo "que o português gosta de levar os pacotes de açucar para casa já sabia, agora andar à procura de pacotes açucar nas mesas livres é o cumulo do espírito português". Provavelmente era algo do género que me teria saído, não tivesse eu reparado então no mesmo senhor a pegar em 2 pacotes de açucar, colocá-los na saco plástica, e voltar-se para trás e pegar num mini croissant que tinha ficado esquecido num tabuleiro abandonado e colocá-lo de imediato no mesmo saco plástico...

   Foi como se tivesse sido atingida por uma pedra bem no coração. Não consigo pôr em palavras o quanto aquela situação me incomodou e mexeu comigo emocionalmente. Em muito porque inicialmente julguei mal a situação. Mas sobretudo porque situações destas têm de envergonhar o nosso país. Eu sei que há muita gente a remexer no lixo, todos nós já as vimos, mas quando o desespero (ou a fome) que nos atinge coloca um ser humano num shopping à pinha à procura de restos nos tabuleiros de alguém que se pode dar ao luxo de desperdiçar alimentos...sem palavras...

   Ficou um aperto no coração que magoa e envergonha.

 

E, por favor, não desperdicem comida!!! Ultimamente tornei-me realmente paranóica com esta questão. Mas há tanta gente a passar fome, tanta, que ver comida ir para o lixo, mais do que me irritar e perturbar e fazer saltar a tampa seja com quem for, dói-me imenso.

Das frustrações do dia-a-dia

   Por dificuldades financeiras muitas famílias veem-se obrigadas a alterar o seu estilo de vida, situação com a qual nem sempre é fácil lidarem e que nem toda a gente consegue concretizar da forma mais adequada e positiva. No nosso trabalho vamos conhecendo alguns destes casos de dificuldade nestes ajustes a uma nova forma de vida, casos nos quais as pessoas vivem de tal forma presos ao passado e àquilo que já tiveram e perderam que vivem num sofrimento diário constante e com uma rigidez de pensamento e resistência à mudança que nos causam alguma dificuldade de intervenção. Estamos perante pessoas que, não negando que a sua vida financeira mudou, cognitivamente rejeitam determinadas sugestões de alterações de hábitos, sendo igualmente frequente a inadequada gestão financeira e por isso a acumulação de dívidas. O sofrimento emocional destas pessoas é evidente, mas as barreiras psicológicas que os próprios colocam deixam-nos por vezes com sentimentos de impotência por não os conseguirmos ajudar devidamente.

Os ex-milionários na miséria e os outros

   Destas reportagens que a sic emitiu sobre antigos jogadores de futebol que hoje estão na miséria vi apenas uma e bastou-me. Acredito que a intenção destas reportagens foi dupla: por um lado, apelar ao lado mais humano e de "ai coitadinho" dos portugueses, que comigo não funcionou, e segundo, e para mim principal, mostrar que nisto do ganhar muito dinheiro e se ser famoso o que é preciso é ter muito juizinho e uma vida regrada.

   O discurso do coitadinho comigo não colou precisamente porque o que faltou aqueles senhores foi juízo e sentido de realidade. Não posso sentir pena de quem ganhou milhares e mesmo sabendo que tinha uma "profissão de risco" com um prazo de validade muito curto, achou que era boa ideia levar uma vida de milionário sem pensar no amanhã, que logo se verá, afinal eu até sou mundialmente conhecido e alguma coisa se há-de arranjar. Pois é, meus senhores ex-milionários, a vida não é assim. Nós não somos super-heróis para sempre a não ser nos livros, e o dinheiro não caí das árvores nem se multiplica por milagre, muito menos estica até sempre quando achamos que por termos corrido atrás de uma bola durante uns anos e até sermos bons nisso, não vamos precisar de fazer mais nada o resto da vida.

   O ser humano não está formatado para lidar adaptativamente com a fartura. Quando estamos perante muito seja do que for, desorientamo-nos, confudimo-nos e agimos por impulso, no sentido de aproveitar ao máximo "aquela fartura". É isso que acontece com as mulheres que têm muita roupa (guilty me!) e que, por terem tanta e terem de fazer tantas opções, acabam por não saber o que vestir. É isso que acontece quando temos uma mesa cheia de pecados alimentares (olha o Natal, por exemplo) e acabamos por comer de tudo só por vício, só porque está ali e a comida é para ser comida. É isso que acontece quando temos muito que fazer e não sabemos para onde nos virar e acabamos por não fazer nada devidamente em condições. É isso que acontece quando temos muito amor para dar e, como é tanto e a vontade de o dar ainda mais, não o sabemos dosear. E é isso que acontece quando temos mais dinheiro do que seria expectável e simplesmente não sabemos onde e gastar, mas ele é tanto e permite-nos tanta coisa que o comum dos mortais não pode atingir que facilmente somos invadidos pela vontade de o gastar nisto, naquilo e em mais alguma coisa, que nos parece sempre a coisa ideal para gastar o nosso dinheiro.

   Não deve ser nada fácil ser-se "famoso" e ganhar muito dinheiro. Poderá até ser uma vida de sonho, mas é uma vida que implica um trabalho mental enorme, desgastante mesmo, e a fomentação de regras rígidas no que respeita à gestão da vida pessoal/pública e a despesas e economias. Se todos nós temos de pensar a longo-prazo e prever eventualidades futuras, quem tem profissões que se alimentam "do momento" ou "da fama" tem de tomar 1000 vezes mais precauções e nunca levantar completamente os pés da terra, ao ponto de julgar que o mundo vai pagar milhões pelo meu nome até ao fim dos tempos. Tudo tem o seu tempo e a fama tem normalmente um tempo bem mais curto que a vida.

   Se me querem vender o discurso do coitadinho, façam-no com alguém que ganhando muito ou pouco perdeu o emprego de forma injusta e inesperada e não porque atingiu o prazo de validade para aquela profissão. Se querem que eu me comova, façam-no com alguém que não tem rendimentos porque o dinheiro de uma vida regrada e controlada, mas interrompida, simplesmente acabou, porque ele não dura para sempre e viver, ainda que na miséria, não é de graça. Se querem mostrar que há miséria em Portugal usem os milhares e milhares de desempregados ou reformados que vivem com pouco ou nada e que sempre batalharam, dia após dia, para se manterem de pé.

   Se querem mostrar que efectivamente há muita gente que não tem juízo, famosos ou desconhecidos, então estiveram muito bem. Para que "os famosos" também serviam de exemplo para o que não se deve fazer na e desta vida.

Das coisas que me irritam

   São várias, mas hoje o que aqui me traz é uma coisa chamada "emergência alimentar" ou "cantina social".

   A nossa instituição está incluida neste programa de emergência alimentar, que basicamente consiste em proporcionar refeições a famílias carenciadas a um custo minímo, que muitas vezes é de zero cêntimos, 25 cêntimos, 50 cêntimos, um euro e poucas vezes mais do que isso, recebendo a instituição uma comparticipação da Segurança Social para ajudar a cobrir as despesas com a confeção das ditas refeições.

   Atualmente, prestamos este tipo de apoio a centenas de famílias do grande porto e o número continua a crescer. Como podem calcular, chegam-nos pessoas que já foram de todos os estratos sociais mas que hoje vivem nos limiares da probreza, muitas vezes envergonhada ao ponto de não quererem ser vistos a recolher as suas refeições num dos nossos centros, pedindo para marcarmos pontos de encontro em locais onde não serão reconhecidas. Um pequeno retrato do país que temos...mas não é isto que hoje me interessa.

   Claro que no meio de muita boa gente desesperada há aqueles que não poderemos chamar de nada mais do que "pobres e mal agradecidos". Estes senhores e senhoras são aqueles que recebem o nosso apoio, a maior parte totalmente gratuito, e que diariamente reclamam da qualidade e quantidade da comida. Mas ainda há mais! Aos fins-de-semana e feriados, como muitos dos nossos centros estão fechados, nós, instituição, entregamos as refeições nas casas das famílias, tal e qual como fazemos com os nossos utentes de apoio domiciliário. Pois estas criaturas (desculpem, mas merecem) conseguem reclamar semanalmente da hora a que as refeições são entregues! Minha gente, vocês comem de graça (ou quase), comem exatamente a mesma comida que todos os nossos utentes "normais" comem e pela qual pagam um preço bastante superior, têm direito exatamente às mesmas quantidades (que chegam a ser ridiculamente exageradas), aos fins-de-semana e feriados nem sequer precisam de se deslocar para receberem uma refeição completa e mesmo assim conseguem ter coragem de reclamar por tudo e por nada!!! Saberão por acaso que, por vocês estarem a ser ajudados por este programa estão outras pessoas em lista de espera e quem sabe a passar fome?

   Felizmente eu não mando neste país e nestas coisas, caso contrário, era uma queixinha destas e eram imediatamente excluidos do programa, acompanhados por aqueles que recebem o RSI e o gastam nos pequenos almoços no café e nas unhas de gel...mas isso contas para outro rosário.

   Há gente que realmente não merece ser ajudada. E o que me parece é que essa gente não precisa de ser ajudada. Nunca deve sequer ter sentido verdadeiras necessidades, caso contrário até um pão lhes saberia a caviar, quanto mais dois pães, sopa, refeição e fruta...

Portugal: ontem, hoje e amanhã #2

«Assim se finara um regime político, um sonho ou demência, toneladas e toneladas de granito arrancadas às entranhas da terra para construir um país em tudo uniforme e ordenado, em tudo planeado e mandado, excepto na impensável premonição de que o povo fugiria das aldeias e dos campos, viria povoar os subúrbios das grandes cidades, encostado a um mar que não compreendia, fechado em torres de cimento com todos os outros desterrados de um Portugal vazado. Um Portugal de aldeias mortas, de comerciantes falidos, de agricultores sentados à berma das estradas construídas com os dinheiros da Europa, vendo passar os grandes camiões TIR que traziam de Espanha e dessa Europa as frutas e os legumes criados em estufas maiores do que quaisquer hortas deles, em direcção aos centros comerciais onde, em breve, eles próprios aprenderiam o novo e insípido sabor dos melões e das cebolas, dos reinventados "frangos do campo" ou dos porcos sem gordura nem pecado, embalados em vácuo. E onde se resignavam a passear aos domingos, com filhos e noras e netos, tentando não se perder no meio dessa turba deslizante, entre montras e restaurantes e néons, num dédalo baptizado com nomes de avenidas e ruas, nomes de países ou heróis da Pátria, como se assim os velhos cuja aldeia agora era um centro comercial dos subúrbios não dessem pela diferença ou até, dando por ela, a apreciassem. Ou tudo se tivesse tornado tão longínquo que já não fazia diferença.»

"Madrugada suja", Miguel Sousa Tavares

Portugal: ontem, hoje e amanhã

«Fora a época dourada dos grandes dinheiros europeus, em que bastava apresentar um projecto e Bruxelas financiava. Faltava uma piscina municipal no concelho? Bruxelas financiava. Um centro de dia para a terceira idade? Bruxelas financiava. Um centro de saúde com médico e enfermeira disponíveis 24horas por dia e para atender não mais do que uma dúzia de doentes ou supostos doentes ao longo de um mês de prontidão? Bruxelas financiava. Aquecimento em todas as salas de aula de todas as escolas, pavilhão gimnodesportivo, criação de novas disciplinas escolares como a "área de projecto", onde os alunos gastavam um ano a fazer trabalhos sobre "as novas culinárias étnicas"? Bruxelas financiava. Uma auto-estrada ao pé de casa para "aproximar o litoral do interior"? Bruxelas financiava. E Bruxelas financiava também submarinos alemães de última geração, destinados a combater as fragatas soviéticas no Atlântico Norte e tornados inutéis pela queda do Muro de Berlim, gatafunhos supostamente paleolíticos descobertos numas rochas de uma aldeia do Douro, aviões F-16 para inexistentes combates aéreos, plantações de frutos tropicais, cursos de formação profissional de cinema, bordados de linho e criação de mirtilos em estufa, abate de barcos de pesca ou inquéritos de opinião sobre as vantagens da democracia. Bruxelas financiava tudo. Os governos projectavam, construiam, mostravam, ganhavam eleições. A banca intermediava, comissionava, cobrava, prosperava. O PIB crescia, os imigrantes afluíam e não havia credores à vista: só os parvos desconfiavam de tanto "desenvolvimento".»

"Madrugada suja", Miguel Sousa Tavares

E a crise onde está?

 

 Sempre tive uma certa dificuldade em perceber a crise neste país, especialmente quando estamos só um bocadinho atentas aos padrões de consumo dos portugueses. Resumidamente, o que se vende em Portugal é aquilo que é caro e, de preferência, de marca. Senão vejamos: o meu Mr.Big foi comprar um telemóvel mas tudo o que tinham em stock eram iphones e galaxys com valores a rondar os 400, 500 ou mesmo 600 euros. E porquê que os têm em stock? Desenganem-se porque é mesmo por serem esses os modelos que mais se vendem (e lá estava a cliente ao lado a levar um iphone para casa, enquanto nos cruzamos com mais uns 3 ou 4 no corredor). Se pensarmos na roupae particularmente na Zara, é fácil perceber o mesmo padrão: aquelas peças chave mas que normalmente têm um preço pouco atractivo esgotam rapidamente. E poderiamos pegar aqui em mais exemplos que nos mostram claramente que a maior crise continua a ser a de valores.

   E alguns até poderão apontar o dedo:"dizes isso mas ainda ontem foste gastar dinheiro para a Zara". Verdade. Adoro comprar roupa, outra grande verdade. Mas outra grande verdade é que tenho muito amor ao meu dinheirinho que tanto me custa ganhar. E é precisamente por custar a ganhar e por ser realmente inferior ao que seria justo que de vez em quando gosto de me mimar com trapinhos. Porque é o meu trabalho e o meu esforço que me permitem estes pequenos mimos, que estão longe de ser luxos. 

Podemos chamar esperança a isto...

   Ouvimos todos os dias que "isto está mau". Mas se falarmos com alguém da faixa dos 80 anos percebemos que isto hoje não é nada comparado com as dificuldades pelas quais muitas pessoas já passaram há muitos anos atrás, quando eram crianças, jovens ou adultos. E ouvindo com atenção, concluimos que isto da crise não é nada comparado com as muitas dificuldades que já se viveram no passado no nosso país e que não eram apenas uma crise mas uma vida e uma forma de viver ou sobreviver. A única, aliás. E para além de toda a tristeza e todas as dificuldades, o que sempre retenho desses diálogos/relatos é que as pessoas lutaram todos os dias, adaptaram-se, ultrapassaram e agora ainda estão cá para nos contar a sua história. Uma lição e, acima de tudo, a coragem que nos falta, a todos nós portugueses, para mantermos a esperança de que amanhã as coisas podem mesmo ser menos más.

A crise de um génio

 A crise segundo Einsten:
«Não pretendemos que as coisas mudem, se fazemos sempre o mesmo. A crise é a melhor benção que pode ocorrer com as pessoas e países, porque a crise traz progressos. A criatividade nasce da angústia, como o dia nasce da noite escura. É na crise que nascem as invenções, os descobrimentos e as grandes estratégias. Quem supera a crise, supera-se a si mesmo sem ficar “superado”. Quem atribui à crise os seus fracassos e penúrias, violenta o seu próprio talento e respeita mais os problemas do que as soluções. A verdadeira crise, é a crise da incompetência. O inconveniente das pessoas e dos países é a esperança de encontrar as saídas e soluções fáceis.

  Sem crise não há desafios, sem desafios, a vida é uma rotina, uma lenta agonia. Sem crise não há mérito. É na crise que se aflora o melhor de cada um. Falar de crise é promovê-la, e calar-se sobre ela é exaltar o conformismo. Em vez disso, trabalhemos duro. Acabemos de uma vez com a única crise ameaçadora, que é a tragédia de não querer lutar para superá-la.»