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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Sociedade preconceituosa a nossa

   Uma notícia da passada semana informava-nos que os rapazes são as principais vítimas de bullying homofóbico nas escolas, segundo um estudo nacional realizado entre 2010 e 2013. 

   "Os dados de vitimação por bullying homofóbico são mais expressivos nos rapazes do que nas raparigas, o que se explica, em parte, pela maior pressão social relativamente a pessoas do sexo masculino do que feminino, no que toca aos papéis sociais a desempenhar, mais rígidos no homem do que na mulher”, explicam os investigadores. 

   Estes dados não me surpreendem. Quem andar neste mundo minimamente atento à realidade facilmente percebe que no que toca à discriminação sexual, ela é muito mais agressiva quando dirigida a pessoas de sexo masculino. O que este estudo vem mostrar é que estas coisas, estes preconceitos, se constroem logo muito cedo e as nossas crianças parece que já nascem a saber apontar o dedo acusador e/ou de gozo. E isto vai pela vida fora e a sociedade vai continuando a incomodar-se muito mais com a homossexualidade masculina que a feminina. É muito mais fácil apontar o dedo a "àqueles bichas, maricas ou gays" do que comentar "aquelas duas ou aquelas fufas". A sociedade incomoda-se com tudo o que parece dar um lado feminino ao homem. Porque homem que é homem não chora, não dá beijinhos a outros homens, não abraça outros homens, não veste cor-de-rosa, não põe cremes na cara. E homem que gosta de homem é quase bicho e é impensável para esta sociedade ver gestos de carinho ou amor entre os dois. Já nas mulheres isto é muito mais pacífico, embora não passe despercebido, mas as mulheres homossexuais não estão sujeitas sequer a metade da pressão a que os homens homossexuais estão. 

   É a pequenez da mentalidade desta sociedade a roçar mais uma vez o ridículo. Até quando? 

«Gisberta»

   A 22 de Fevereiro de 2006, o transsexual brasileiro Gisberto Salce Júnior, 46 anos - conhecido por Gisberta ou Gis - morreu na sequência de várias agressões e o seu corpo foi encontrado submerso no fosso de um prédio inacabado, no Campo 24 de Agosto, Porto, depois de um dos jovens ter contado o sucedido a um professor. Sabe-se que Gisberta foi vítima de agressões violentas por parte de 14 jovens durante 3 noites consecutivas, tendo estas terminado quando os jovesn atiraram Gisberta para o poço. Um perito médico-legal concluiu que o transsexual morreu vítima de afogamento e que as lesões que lhe foram alegadamente infligidas pelos menores não eram fatais.
   A 22 de Fevereiro de 2014, Rita Ribeiro vestiu a pele da mãe de Gisberta e ofereceu a uma plateia emocionada a dor, revolta, raiva e profunda tristeza de uma mãe que perdeu "o seu menino lá no país estrangeiro". Durante uma hora e exactamente 8 anos depois pudemos sentir uma pequena amostra do que poderá ter sido a dor daquela mãe e nós, assim como Rita Ribeiro, revoltamo-nos ao perceber que foi no nosso país que um dos mais vergonhosos exemplos de discriminação aconteceu. No final, uma Rita Ribeiro emocionadíssima e uma plateia que saiu da sala de lágrimas nos olhos e carregada daqueles silêncios que nos deixam a pensar.
  

Não gostasse o povo português de falar sobre a vida alheia...

   O que me parece a mim é que temos na Assembleia da Républica um número significativo de cobardes que quando a questão não lhes agrada ou "pode dar para o torto" gostam de passar a batata quente para o povo numa de "vós decidis e se correr mal não reclamais porque foi o que vós descidistes".

   Sinceramente acho que é vergonhoso e uma clara forma de discriminação o simples facto de se colocar a hipótese de um referendo para determinar liberdades em questões como esta da adopção por casais homossexuais, do casamento homossexual ou até da interrupção voluntária da gravidez. Se pararmos um segundinho para pensar vamos perceber que o que nos estão a pedir, em todas estas situações, é para sermos nós a decidirmos sobre a vida privada de cada um, sobre questões pessoais de gente que nem sequer conhecemos. Não há liberdade nisto, não há democracia, não há cidadania, não há século XXI. Há pessoas primitivas que julgam que a melhor solução passa por acabar com a liberdade individual de cada um e passar a gestão da vida pessoal, intíma, sentimental, familiar...de cada um para o domínio geral, para o povo. "Eu só caso se o meu povo achar que eu posso casar". "Nós só vamos ser pais/mães se o meu povo achar que nós o podemos ser", "eu só vou poder decidir sobre o que fazer com o meu corpo e com a minha vida se o meu povo me der essa liberdade de decisão"...REsumindo: "Eu só vou poder viver uma vida plena, realizada e feliz se o país achar que eu o posso fazer".  

   Não, eu não me sinto feliz por o meu país me "dar ouvidos", porque o que o meu país quer é que eu decida, determine, sobre vidas privadas que não a minha. E o que eu gostava é que todos nós, que somos chamados a decidir, passassemos um dia pela experiência de ver a nossa vida em suspenso pela decisão de um povo. Quantos de nós iriam aguentar?