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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Porque a minha força é imortal

Porque a minha vontade tem o tamanho de uma lei da terra. Porque a minha força determina a passagem do tempo. Eu quero. Eu sou capaz de lançar um grito para dentro de mim, que arranca árvores pelas raízes, que explode veias em todos os corpos, que trespassa o mundo. Eu sou capaz de correr através desse grito, à sua velocidade, contra tudo o que se lança para deter-me, contra tudo o que se levanta no meu caminho, contra mim sempre. Porque a minha vontade me regenera, faz-me nascer, renascer. Porque a minha força é imortal. José Luís Peixoto

«Em teu ventre », José Luís Peixoto

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«Mãe, atravessas a vida e a morte como a verdade atravessa o tempo, como os nomes atravessam aquilo que nomeiam.» Numa perspetiva inteiramente nova, Em Teu Ventre apresenta o retrato de um dos episódios mais marcantes do século XX português: as aparições de Nossa Senhora a três crianças, entre maio e outubro de 1917. Através de uma narrativa que cruza a rigorosa dimensão histórica com a riqueza de personagens surpreendentes, esta é também uma reflexão acerca de Portugal e de alguns dos seus traços mais subtis e profundos. A partir das mães presentes nesta história, a questão da maternidade é apresentada em múltiplas dimensões, nomeadamente na constatação da importância única que estas ocupam na vida dos filhos. O sereno prodígio destas páginas, atravessado por inúmeros instantes de assombro e de milagre, confere a Em Teu Ventre um lugar que permanecerá na memória dos leitores por muito tempo.

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   Uma forma diferente de contarmos a história das aparições de Nossa Senhora aos Pastorinhos de Fátima. A escrita é totalmente José Luís Peixoto, não há que enganar e eu tenho de admitir que não sou a maior das fãs deste escritor. Reconheço-lhe o génio e a obra fantástica que tem, mas é daqueles casos crónicos em que eu leio e continuo a ler mas não me apaixono.

   Neste livro há, sobretudo e mais uma vez, uma ode às mães. A todas as mães, desde as divinas até às mais reais, como, provavelmente, a dos escritor. É um livro pequeno, a escrita é simples e é um dos maiores escritores portugueses, independentemente de me apaixonar ou não.

Mães

Todas as pessoas têm direito a descanso, menos as mães. Para cada tarefa, profissão ou encargo há direito a uma folga, menos para as mães. Se alguma mãe demonstrar a mínima fadiga de ser mãe, haverá logo uma besta, ignorante de limpar baba e parir, que se oferecerá para a pôr em causa. Não é mãe, não sabe ser mãe, não foi feita para ser mãe, dirá. Mas, se todas as pessoas têm direito a descanso, será que as mães não são pessoas? A culpa é nossa. Sim, a culpa é das mães. Deixámos que fossem os filhos a definir-nos.

"Em teu ventre", José Luís Peixoto

«Nenhum Olhar», José Luís Peixoto

  

«Numa aldeia do Alentejo, com um pano de fundo de uma severa pobreza, o autor vai tecendo histórias de homens e mulheres, endurecidos pela fome e pelo trabalho, de amor, ciúme e violência: o pastor taciturno que vê o seu mundo desmoronar-se quando o diabo lhe conta que a mulher o engana; o velho e sábio Gabriel, confidente e conselheiro; os gémeos siameses Elias e Moisés, cuja terna comunhão se degrada no momento em que um deles se apaixona; ou o próprio Diabo. As suas personagens são universais, assim como a sua esperança face à dificuldade.«... a partir da segunda ou terceira sequência ficamos seguros de que a inclinação é fatal: vamos embater num limite, num muro, num enigma, na origem do mundo e no desastre final...»
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   Como já devem ter reparado, e uma vez que esgotei os livros de Saramago, tenho-me dedicado a descobrir bons escritores portugueses, premiados precisamente com o Prémio José Saramago. Tenho andado entretida com José Luís Peixoto, Valter Hugo Mãe (A descoberta!) e João Tordo e já faço planos para em breve trazer Gonçalo M. Tavares para casa.

   A escolha deste livro foi um pouco aleatória: veio-me parar às mãos enquanto olhava os livros de J. L. Peixoto e como se trata do livro vencedor do prémio Saramago nem procurei mais nenhum...tenho de admitir que ainda estou a descobrir e a entrar no universo Peixoto, por isso as minhas opiniões sobre os seus livros são ainda muito cautelosas e ainda não posso reconhecer-lhe uma escrita-padrão que me faça afirmar "gosto/não gosto disto". Não considero que tenha uma escrita e, consequentemente, uma leitura tão leve e intuitiva como outros escritores portugueses, mas trata-se, sem dúvida, de uma grande escrita produzida por quem só pode ser um grande autor. Quando leio livros assim dou por mim constantemente a questionar-me "mas que cabeça se iria lembrar de escrever isto?". Ainda bem que existem cabeças assim, que nos fazem viajar através de palavras...

   Opinião sobre o livro? Não entra para a minha lista de livros preferidos, mas tem momentos de escrita sublime e, só por isso, vale a pena ser lido.

Sofrimento

«Penso: talvez o sofrimento seja lançado às multidões em punhados e talvez o grosso caia em cima de uns e pouco ou nada em cima de outros. Ainda que o peso do meu peito seja custoso, qual é o peso de um abismo?, ainda que me sinta um cego a crescer sem olhos para um precipício, tenho que me levantar desta cama. Tenho de levantar estes braços que não são meus, tenho de levantar estas pernas que não são minhas, mas de um rochedo, e ir tratar das ovelhas. A minha cadela. O campo. O sobreiro grande. Que sombra estará agora debaixo do sobreiro grande? Ainda que caminhe pela noite ao meio da tarde, ainda que no pico do sol seja o mais negro da noite e dentro da noite seja noite também,  por tudo ser noite aos meus olhos, tenho de me levantar desta cama. Mesmo que seja para sofrer sofrer, tenho de ir ao encontro daquilo que serei, por ter sido isto e não poder fugir, não poder fugir de me tornar alguma coisa.»

"Nenhum Olhar", José Luís Peixoto 

Escuta, amor

«Por isto e por mais do que isto, tu estás aí e eu, aqui, também estou aí. Existimos no mesmo sítio sem esforço. Aquilo que somos mistura-se. Os nossos corpos só podem ser vistos pelos nossos olhos. Os outros olham para os nossos corpos com a mesma falta de verdade com que os espelhos nos reflectem. Tu és aquilo que sei sobre a ternura. Tu és tudo aquilo que sei. Mesmo quando não estavas lá, mesmo quando eu não estava lá, aprendíamos o suficiente para o instante em que nos encontrámos. 
Aquilo que existe dentro de mim e dentro de ti, existe também à nossa volta quando estamos juntos. E agora estamos sempre juntos. O meu rosto e o teu rosto, fotografados imperfeitamente, são moldados pelas noites metafóricas e pelas manhãs metafóricas. Talvez outras pessoas chamem entendimento a essa certeza, mas eu e tu não sabemos se existem outras pessoas no mundo. Eu e tu declarámos o fim de todas as fronteiras e inseparámo-nos. Agora, somos uma única rocha, uma única montanha, somos uma gota que cai eternamente do céu, somos um fruto, somos uma casa, um mundo completo. Existem guerras dentro do nosso corpo, existem séculos e dinastias, existe toda uma história que pode ser contada sob múltiplas perspectivas, analisada e narrada em volumes de bibliotecas infinitas. Existem expedições arqueológicas dentro do nosso corpo, procuram e encontram restos de civilizações antigas, pirâmides de faraós, cidades inteiras cobertas pela lava de vulcões extintos. Existem aviões que levantam voo e aterram nos aeroportos interiores do nosso corpo, populações que emigram, êxodos de multidões famintas. E existem momentos despercebidos, uma criança que nasce, um velho que morre. Dentro de nós, existe tudo aquilo que existe em simultâneo em todas as partes. 
Questiono os gestos mais simples, escrever este texto, tentar dizer aquilo que foge às palavras e que, no entanto, precisa delas para existir com a forma de palavras. Mas eu questiono, pergunto-me, será que são necessárias as palavras? Eu sei que entendes o que não sei dizer. Repito: eu sei que entendes o que não sei dizer. Essa certeza é feita de vento. Eu e tu somos esse vento. Não apenas um pedaço do vento dentro do vento, somos o vento todo.     

Escuta,     

ouve.     

Amor.     

Amor.  »

"Abraço", José Luís Peixoto

Os problemas

«Agora, de novo, a vida parou. Os problemas, os chamados problemas, as recompensas, as ambições, as obrigações pararam. As obrigações têm de esperar porque agora, de novo tudo tem de esperar. E já me tinha esquecido da forma como tudo pode parar assim, de repente, sem aviso de como fica apenas um nevoeiro sobre os objectos.E deixa de haver outros assuntos para pensar e, menos ainda, outros assuntos para escrever.»

"Abraço", José Luís Peixoto 

Esses tempos idos, dos primeiros dias de escola

«E começavam as manhãs em que as letras surgiam uma a muma, as vogais , as cantigas das vogais cantadas em coro. Cada uma das consoantes desenhada vinte vezes numa linha. As consoantes picotadas em papel de lustro. A letra "B". A letra "C". A letra "D". E o livro de leitura, o Papu em todos os textos: o "B"arco do Papu, o "C"ão do Papu, o "D"ado do Papu. Um "b" e um "a", "bá", um "r", "bar"; um "c" e um "o", "có": "barcó". E, a essa velocidade, o nosso mundo. Á janela, um frasco de iogurte, vidro lavado, com um algodão embebido em gotas de água, a proteger um feijão espigado. E nós, todos os dias, todos os dias, a irmos vigiar o feijão. Entre esse, o dia em que a menina mais bem-comportada foi ter com a professora e disse: "Minha senhora, o feijão começou a germinar.". Importante e solene.»

«Abraço», José Luís Peixoto

«Dentro do Segredo», José Luís Peixoto

 

Desde o interior da ditadura mais repressiva do mundo, desde um país coberto por absoluto isolamento, Dentro do Segredo. Em abril de 2012, José Luís Peixoto foi um espectador privilegiado nas exuberantes comemorações do centenário do nascimento de Kim Il-sung, em Pyongyang, na Coreia do Norte.
Também nessa ocasião, participou na viagem mais extensa e longa que o governo norte-coreano autorizou nos últimos anos, tendo passado por todos os pontos simbólicos do país e do regime, mas também por algumas cidades e lugares que não recebiam visitantes estrangeiros há mais de sessenta anos.
A surpreendente estreia de José Luís Peixoto na literatura de viagens leva-nos através de um olhar inédito e fascinante ao quotidiano da sociedade mais fechada do mundo. Repleto de episódios memoráveis, num tom pessoal que chega a transcender o próprio género, Dentro do Segredo é um relato sobre o outro que, ao mesmo tempo, inevitavelmente, revela muito sobre nós próprios.

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   Gosto sempre de saber um pouco mais sobre tudo aquilo que nos faz questionar até onde pode ir o ser humano, para o bem e para o mal. Conhecer um pouco melhor as vivências de um dos países mais fechados e secretos do mundo pelas palavras do José Luís Peixoto é não só uma experiência de conhecimento como de muito boa literatura. Não é como ler um qualquer artigo de jornal, que nos parecem sempre excessivamente teóricos e frios, distantes. Neste livro temos o relato de quem por lá passou por que sim, porque quis e não porque teve de ser, e talvez aí resida uma das grandes diferenças e aquele cheirinho que torna este livro muito apetecível.