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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Luta. Luto. E vida.

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Este fim-de-semana, enquanto sorriamos e aproveitávamos o melhor da vida entre mergulhos de mar e piscina, muitas vidas, demasiadas vidas, chegaram ao fim. O mesmo calor que nos fez felizes foi o calor que matou dezenas de seres humanos mesmo ali ao nosso lado (no meu caso, a pouco mais de 20km do local onde desfrutava da vida e amaldiçoava o facto de 2a feira estar à porta e ter de voltar à rotina). Acho que todos nós temos o direito de nos questionarmos como é que isto foi possível. Pode até ser muito fácil apontar o dedo e encontrar supostos culpados. Podemos e devemos perceber o que corr u mal para evitar algo semelhante no futuro. Mas o que não podemos com toda a certeza é recuperar as vidas que se perderam de forma tão estúpida e desumana. Falamos em terrorismo. Falamos do mal que o homem consegue fazer ao homem. Mas de repente o fogo vem e leva tudo. Tudo. Tudo o que temos. Tudo o que somos. Não há palavras que possam explicar o sofrimento que por estes dias se vive em Portugal. Não há gestos que apaguem as imagens que nos chegam. Não há dinheiro algum no mundo que minimize as feridas abertas. Não há milagre algum que traga aquelas pessoas das cinzas. Só nos resta transmitir toda a força do mundo a quem dela precisa. Só nos resta acreditar que algum deus, alguma fé, algo, conseguirá reconfortar corações ardidos. Só nos resta esperar que onde quer que estejam, estejam em paz e descanso. E, acima de tudo, por aqueles que partiram, só nos resta viver intensamente enquanto por cá estamos. Porque num instante pode tudo terminar. UM BEM HAJA PARA TODOS AQUELES QUE POR ESTES DIAS PRATICAM O BEM NO NOSSO PAÍS E FAZEM PEQUENOS MILAGRES QUE SALVAM VIDAS.

E eles, com que sonharão?

   Mais uma morte que nos vem mostrar que isto de ser famoso, rico, mundialmente conhecido e ter o mundo aos nossos pés não é propriamente um ideal de felicidade.

   Não é preciso reflectirmos muito para nos darmos conta do assustador número de "famosos" que acabam a vida cedo demais. Ou acabam com a vida, que será a expressão mais correcta a aplicar. Abuso de substâncias, álcool, depressão, perturbação bipolar... as "desculpas" são sempre as mesmas e deixam-nos a pensar que a vida pode realmente dar-nos tudo, tudo, mas que para quem tem tudo e tudo a vida nem sempre é feita de sorrisos e gargalhadas, ainda que seja essa a nossa especialidade.

   A pressão e exposição a que estas pessoas estão sujeitas pode ser de uma violência brutal e humanamente intolerável. É certo que nem todos somos iguais e muitos desses "famosos" conseguirão gerir essa relação pressão-exposição de uma forma adaptativa e saudável. Mas para além do constante risco de se desviarem do caminho certo que a facilidade com que tudo lhes é acessível comporta, é preciso uma estrutura psicológica digna de prémio nobel para enfrentar uma vida de holofotes e olhos postos em nós. Eu, que tenho muitos dias em que as 7 ou 8 horas de trabalho em constante contacto humano e cheia de solicitações, chego ao final do dia saturada de tanta necessidade de estar em estado de alerta e só quero o sossego e o isolamento do meu lar, consigo facilmente perceber que não poder dar um passo sem que o mundo repare de que cor são os meus botões será provavelmente das formas mais desgastantes de viver. E se eu tenho dinheiro e me é fácil conseguir drogas e álcool, também me é ainda mais fácil usá-los como refúgio para aquilo que eu não posso ser ou para aquilo com que eu não sei lidar. E com a ajuda destas substâncias ou não, se eu tenho o mundo às costas, o mundo que me pede nada menos que a perfeição, é-me facílimo conhecer o monstro da depressão, porque a minha vida é anulada e muitas vezes substituida pela vida que vende, pela vida que os agentes querem, as revistas gostam e o público pede.

   As vidas destes famosos parecem-nos sempre perfeitas. Mas quando perdemos a conta aos casos de vidas que acabam em suicído devemos parar para pensar que se calhar estas pessoas sonham com vidas...como as nossas.

   Que descansem em paz.

A todos os/as cuidadores/as

«Hoje em dia, quando me perguntam quanto tempo vou continuar a cuidar da minha mãe, responde sempre, "Pelo menos mais um dia!"»

"Viver com Alzheimer". Dr. José Luis Molinuevo

 

   Porque cuidar é isto; viver um dia de cada vez. Ou deixar a vida correr e arrastar-se dia após dia, hora após hora, minuto após minuto...sem nunca saber o  que esperar do instante seguinte. No fundo, esta é a vida de todos nós, mas quem cuida de alguém doente vive com a certeza inabalável de que qualquer minuto pode ser o último e que o que conta é o que se faz agora, para o bem de quem de nós precisa.

   Porque cuidar é difícil, muito difícil. E cuidar com amor e do amor é ainda mais.

   Um bem-haja a todos aqueles que cuidam de alguém, com amor.   

A fragilidade da vida

A partir de experiências que habitualmente têm que ver com doenças graves, começa a alimentar-se um medo associado à percepção de que a vida é finita; de que a vida, tal como a interpretamos enquanto seres humanos, acaba. (...) Enquanto somos jovens não temos muita consciência dessa limitação, porém, conforme os anos vão passando, começamos a discerni-la de maneira nítida. (...) começarmos a perceber, consciente ou inconscientemente,q que a vida é frágil, que aquilo que temos neste momento podemor deixar de ter amanhã, que a capacidade de nos relacionarmos com o mundo pode mudar. (...)

A mente refugia-se num sistema confortável que nos faz sentir eternos, que nos faz esquecer os aspectos relacionados com a morte e a fragilidade da nossa existência. Isto tranquiliza-nos e faz-nos pensar que temos tempo para fazer tudo aquilo que queremos fazer. Mas o que a realidade nos diz, por seu lado, é algo radicalmente diferente: se estamos convictos e queremos fazer algo na vida, temos de o fazer já, porque a única coisa que temos é o presente. Tudo o resto são abstracções. 

"Viver com Alzheimer". Dr. José Luis Molinuevo

Há dores que nunca se curam

   E uma delas é, sem dúvida, a dor da perda de um filho. 

   Apesar de, profissionalmente, lidar principalmente com a dor da perda dos pais, já velhinhos, as situações em que o inverso acontece, em que os nossos idosos veem partir algum dos seus filhos, são complicadíssimas, tamanha é a dor experimentada. 

   Se é certo que todos temos de morrer, o esperado é que a lei da vida prevaleça e que os mais velhos partam primeiro. O que se espera desta passagem, é ver os filhos enterrarem os pais, mas a vida tem destas armadilhas e de vez em quando troca-nos as voltas e faz-nos passar por provações quase desumanas. Ouvir um pai que enterra um filho dizer "porquê? A vida não é assim, não pode ser assim, eu é que deveria ter partido primeiro", especialmente quando esses pais são já pessoas de idade, deixa-nos com uma sensação de impotência tremenda e com a clara sensação de que, diga eu o que disser, nada, mas mesmo nada, vai atenuar aquela dor ou explicar aquela situação. O "a vida é mesmo assim" aqui não se aplica. Não se pode aplicar. E há dores tão, mas tão duras, que não podemos deixar de questionar se afinal esta vida vale mesmo a pena. 

   Um abraço forte, forte, para todos os pais que viram os seus filhos partirem, deixando-lhes uma ferida aberta que nunca será curada. 

Histórias com gente dentro

   Parece que hoje em dia é prática comum enviar doentes terminais para casa. Pessoalmente não acho a melhor das soluções. Não só porque pelo estado em que as pessoas se encontram poderá exigir determinados cuidados mais ou menos urgentes que em casa não se poderão prestar de forma tão eficiente, porque parece que nada é suficiente para aliviar o sofrimento da pessoa e porque para quem cuida da pessoa o sofrimento parece ser mil vezes superior, pela sensação de impotência e de que não estão a ajudar em nada os seus familiares. 

   Nestes casos, é comum alguns familiares desabafarem um envergonhado e temido "mas porquê que deus nao se lembra dela e não o leva?", seguido de sentimentos de remorso incríveis e mil e um pedidos de desculpa por tamanho egoísmo.  E é aqui que nós,  que somos profissionais, mas acima de tudo que somos seres humanos capazes de avaliar aquela situação de forma isenta e sem emoções à mistura, devemos ter a coragem e a dignidade de lhes dizermos e explicarmos que colocar essa questão ou fazer esse pedido não é nunca um manifestação de egoísmo,  mas acima de tudo e sempre um dos maiores sinais de amor e respeito pela dignidade humana. Porque quem ama os seus só pode preferir vê-los partir mas sabê-los em paz, do que tê-lospor perto numa condição de sofrimento e dor que poderá ser tudo menos viver. 

Histórias com gente dentro

 

   A frieza, distanciamento e ausência de sentimentos com que algumas famílias (que nem merecem esse nome) tratam os seus (que acabam por ser mais nossos) idosos é das coisas que mais me revolta no meu trabalho diário, embora já não seja a que mais me perturba ou choca. Quase diariamente me deparo com exemplos vergonhosos que me fazem questionar até onde o ser humano é capaz de ir na sua indeferença. A solidão em que muitos idosos são deixados é uma das coisas que mais confusão me faz, por um lado porque me põe a pensar no meu dia de amanhã e na possibilidade de também eu acabar só e depois porque sei que é talvez aquilo que mais sofrimento causa a um idoso e que, isso sim, os mata aos poucos. Quando a solidão roça os limites do abandono (porque há alguma que é quase obrigatória, quando não existe mesmo retaguarda familiar), esse morrer aos poucos acaba por passar também para nós.

   Esta semana passei por uma situação que posso quase rotular de experiência sobrenatural, pois nunca pensei que neste mundo tal fosse capaz de acontecer. Ao chegarmos a um dos nossos idosos, acamado há alguns anos, para lhe administrarmos o almoço, encontramos o senhor morto. Depois do choque inicial e perfeitamente natural, toca a fazer o mais difícil: avisar a família. Quando pegamos num telefone para dizer a uma filha: "lamento imenso estar-lhe a dar esta notícia, mas o seu pai faleceu", esperamos todas as reações, menos esta "ah, mas eu agora não posso ir aí, e o meu irmão também está a trabalhar só consegue passar aí em casa lá para meio da tarde; tratem vocês do assunto".

   Onde fica a emoção, a dor de ter perdido um pai, que morreu sozinho numa casa abandonada de vida e afectos?

   Onde fica o nosso coração, o nosso lado humano, os nossos sentimentos?

   São coisas que ainda me deixam sem palavras e assustada relativamente a esta estranha forma de vida que a humanidade do nosso tempo demonstra.

Da morte

«Com a morte, também o amor devia acabar, acto contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de quaçquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir. Pensamos, existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humihante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade. E não é compreensível que assim aconteça. Com a morte, tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. Esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder. Foi como se me dissessem, senhor silva, vamos levar-lhe os braços e as pernas, vamos levar-lhe os olhos e perderá a voz, talvez lhe deixemos os pulmões, mas temos de levar o coração, e lamentamos muito, mas não lhe será permitida qualquer felicidade de agora em diante (...)»

"A máquina de fazer espanhóis", Valter Hugo Mãe 

   Li este parte do livro no mesmo dia em que fui ao funeral de uma tia minha, que faleceu aos 81 anos, vítima de doença. Fez-me ainda mais sentido do que o imenso sentido que este excerto tem só por si e sem qualquer contextualização. Não tanto pelo significado que esta morte teve para mim, já que tenho aquela forma "diferente" de encarar a morte fruto de quem lida com ela diariamente, principalmente quando se trata de uma morte que já há muito se sabia ser inevitável, mas sobretudo porque ao morrer a minha tia deixa viúvo o marido, de 84 anos, que perdeu assim o sentido da vida. Casados há mais de 50 anos e sem filhos, tinham-se um ao outro, na saúde e na doença, até ao fim das suas vidas (ou pelo menos da vida de um deles). Apesar da idade eram um casal muito ativo até aos últimos dias e completamente saudáveis do ponto de vista cognitivo. Acontece que o meu tio era totalmente dependente da minha tia, daquela dependência doentia e perigosa agora que ela já não está connosco. Acredito que neste momento não existam palavras capazes de conter todo o sofrimento por que ele está a passar e compreendo perfeitamente as suas palavras quando desesperado diz "agora estou sozinho". Para quem vive mais de 50 anos ao lado de uma mesma pessoa, num amor que só pode ser puro e verdadeiro, nada mais existe agora que a solidão, aquela solidão que nenhum familiar poderá preencher e que o vai matando um pouquinho mais a cada dia. E, de fato, por muito que se lamente, acredito que, desde aquele dia em diante, não voltará a sentir qualquer felicidade. Afinal é disto que é feita a vida e as grandes histórias de amor.

Demasiadas lições de vida

   Não sei o que se passa na sociedade portuguesa mas, ultimamente, multiplicam-se os testemunhos de pessoas ditas "famosas/conhecidas" da nossa praça sobre momentos mais ou menos sérios por que passaram tentando, desta forma, passar grandes lições de vida. Assim de repente lembro-me que há dias levamos com o Gianni (e que bem que nos soube ver tal imagem nas televisões portuguesas) em tudo quanto era canal televisivo a falar da sua luta contra o cancro, hoje há hora de jantar tivemos um qualquer senhor que terá tido um grave acidente ao qual fez o que não era suposto, ou seja sobreviveu e ainda escreveu um livro (que novidade!) a discursar num canal, enquanto a concorrência nos dava a conhecer uma Sara Norte muito arrependida e renascida das cinzas, cheia de boas intenções e lições para dar.

   Pessoalmente, nada contra. O que me parece é que esta necessidade de mostrar que "eu estive lá em baixo, dei a volta e hoje sou feliz, tu também consegues" começa a virar tendência e das que cansam. Se calhar sou só eu e o meu mau feitio que não temos paciência para tanto "vou-te mostrar como conseguir um final feliz" e que achamos que já chega desse discurso de só aprender a dar valor À vida, em toda a sua totalidade, quando se passa por alguma experiência que nos coloca a possibilidade de tudo isto acabar. Acredito que quando ultrapassamos uma situação complicada até poderemos aprender a valorizar mais determinadas coisas, situações ou pessoas, mas acho estranho que tanta gente só se aperceba que a vida e isto de viver e andar por cá é a maior das bençãos e o maior dos milagres que alguma vez nos poderiam conceder. Antes da doença, da perda, da asneira da grossa, do dilúvio, da dor, da perda...isto, viver e respirar e poder fazer o que realmente nos apetece, não tem preço e não vem nos livros. Nunca nenhum livro, por mais inspirado e inspirador que seja, nos vai ensinar a viver mais, ou melhor, ou de forma mais intensa e plena. Isso está cá dentro, connosco, desde o dia 0 neste mundo. Todos vimos preparados com o chip do "viver intensamente esta vida, porque ela é tudo o que temos", acontece que alguns de nós se perdem pelo caminho e se esquecem disto e do que é viver, até ao dia em que vêem a vida fugir-lhes por entre os dedos. E é quando a conseguem agarrar de novo que sentem esta necessidade de gritar ao mundo "eu estou vivo. Obrigada!"

   Porque não agradecer todos os dias?

Quando o cérebro nos rouba um ente querido

«Só quando cheguei a casa notei que não vertera uma lágrima. Apenas os meus complxos de culpa me impediam de reconhecer o óbvio: o que sentia não era tristeza, mas alívio. Isto pode parecer - e é-o - difícil de admitir, mas é o que sucede a quem tem pais com doenças psíquicas prolongadas. Os onze anos, em que assitira a uma mente brilhante deteriorando-se, haviam-me conduzido ao desespero. Não esquecera que ela tinha tentado domesticar-me, que em ocasiões em que eu estava frágil me ferira, que fora demasiado dogmática para me aceitar como sou, mas os nossos conflitos nunca me impediram de a admirar e, quem sabe, de a amar.»

"A Morte", Maria Filomena Mónica