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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

«Gisberta»

   A 22 de Fevereiro de 2006, o transsexual brasileiro Gisberto Salce Júnior, 46 anos - conhecido por Gisberta ou Gis - morreu na sequência de várias agressões e o seu corpo foi encontrado submerso no fosso de um prédio inacabado, no Campo 24 de Agosto, Porto, depois de um dos jovens ter contado o sucedido a um professor. Sabe-se que Gisberta foi vítima de agressões violentas por parte de 14 jovens durante 3 noites consecutivas, tendo estas terminado quando os jovesn atiraram Gisberta para o poço. Um perito médico-legal concluiu que o transsexual morreu vítima de afogamento e que as lesões que lhe foram alegadamente infligidas pelos menores não eram fatais.
   A 22 de Fevereiro de 2014, Rita Ribeiro vestiu a pele da mãe de Gisberta e ofereceu a uma plateia emocionada a dor, revolta, raiva e profunda tristeza de uma mãe que perdeu "o seu menino lá no país estrangeiro". Durante uma hora e exactamente 8 anos depois pudemos sentir uma pequena amostra do que poderá ter sido a dor daquela mãe e nós, assim como Rita Ribeiro, revoltamo-nos ao perceber que foi no nosso país que um dos mais vergonhosos exemplos de discriminação aconteceu. No final, uma Rita Ribeiro emocionadíssima e uma plateia que saiu da sala de lágrimas nos olhos e carregada daqueles silêncios que nos deixam a pensar.
  

«Lar Doce Lar», no Teatro Sá da Bandeira

 

   Ontem à noite fomos ao teatro. A escolha desta vez recaiu sobre a peça "Lar doce lar", com o Joaquim Monchique e a Maria Rueff. E que bela escolha! Fui unicamente motivada pelo facto de ser uma peça com estes dois actores, de cujo trabalho nem sou seguidora mas que aprecio, e pelo facto de já andar há algum tem "na estrada" e ter sempre salas esgotadas. Depois de ver a peça, compreendo o porquê.
   A peça passa-se numa residência sénior para "séniores de qualidade", onde duas idosas dividem um quarto mas disputam a mudança para um quarto individual. A partir daqui temos toda uma série de cenas muito engraçadas que retratam muitas vezes na perfeição esta coisa de se ser velho rico a viver num lar de luxo, com algumas personagens "mais jovens" à mistura, mas sempre protagonizadas por estes dois actores.
   Não desfazendo a prestação da Maria Rueff, que tem imenso jeito para a comédia, o Joaquim Monchique está perfeito neste papel de velha rica. Quem lida diariamente com idosos reconhece tantos e tantos trejeitos que eles têm e que o Monchique conseguiu absorver na perfeição. Quanto ao resto e resumindo, são duas horas de gargalhadas garantidas. Por isso, se vivem no Porto (até 14 de Abril) ou em algum local por onde a peça eventualmente ainda passe e se querem esquecer este cinzentão da vida e dar umas boas gargalhadas, não hesitem em ir ver. Vale cada cêntimo do bilhete.  

A Estalajadeira, no TNSJ

   A peça gira em torno de Mirandolina, a estalajadeira que nos faz ver como os homens se apaixonam, utilizando para isso e ela própria o teatro e a ficção. Mirandolina finge, conscientemente, com todos, revelando a própria ficção ao público, para que, no fim, este pense nos estrategemas aprendidos e no tanto que uma mulher pode fazer quando se determina a conquistar o coração de um homem, ainda que apenas e só, por capricho. 

   Uma peça do original de Carlo Godini, traduzida e adaptada por Jorge Silva Melo, com Catarina Wallenstein no papel de Estalajadeira (que bela actriz de palco), Américo Silva, António Simão, Elmano Sancho, Rúben Gomes, Maria João Falcão, Maria João Ponho, João Delgado e Tiago Nogueira.

Dueto para Um, a peça

 

 

"É que Deus não existe, sabe, Dr. Feldmann, mas eu sei aonde foram buscar essa ideia: foram buscá-la à música. É uma espécie de céu. É não-terrena. Eleva-o para fora da vida em direcção a outro lugar."

 

   "Sentada numa cadeira de rodas, mais pela imprevisibilidade de resposta do sistema nervoso central do que por real perda de autonomia, ela é essencialmente a mesma intérprete histriónica, a mesma força persuasiva ainda que sem canal. Enquanto paciente, a sua resitência à terapia é assinalável. Em primeiro lugar, porque mesmo tendo a noção de tudo o que a doença rasura, Stephanie recusa a uscultação de qualquer inquietação ou sofrimento, que aos seus olhos confirmariam a sua condição de vítima; em segundo lugar, porque o preconceito de que faz prova em relação aos psiquiatras em geral descredibiliza o seu interlocutor, remetendo-a a uma cúpula de sarcasmo e não-cooperação; em terceiro e último lugar, porque sendo da sua natureza dar espectáculo, Stephanie chega com um discurso pragmático, até optimista, rigorosamente ensaiado e executado nos moldes que concebe eficazes. (...)

   Feldman tem a função difícil de obstaculizar a tentação da solista, de não permitir que tenda, a respeito de si mesma, a uma interpretação definitiva que exclua um conjunto de "sentimentos perfeitamente normais", aqueles que mais resiste a enunciar."

 

   Simplesmente, adorei!