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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Regressar às rotinas...

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'Procurar uma resposta, mas as respostas são perguntas mortas. São as perguntas que nos fazem mexer. As certezas fazem-nos parar. As perguntas são a porta da rua. Quando nos interrogamos, quando duvidamos das nossas paredes, é porque estamos a passar pela porta. O facto de nos espantarmos com o que se passa à nossa volta é sinónimo de vida. Os cemitérios estão cheios de pessoas que se espantam com nada.'

(Afonso Cruz, Para onde vão os guarda-chuvas?)

 

Duas semanas de férias foi o tempo que tive para recuperar baterias, acalmar a alma e enchê-la de tudo aquilo que nos dá força para continuarmos diariamente em frente e a subir. Não sinto que esteja com a carga completa, mas conhecendo-me como me conheço vou em frente e a subir, ainda que alguns dias os sorrisos possam ser mais forçados e a garra precise de alguns empurrõezinhos.

A todos os que regressam ao trabalho amnhã, força para nós!

A todos os que iniciam as suas férias, aproveitem a vida!

Para todos os outros, e porque amanhã é segunda-feira, muita garra nisso!

Luta. Luto. E vida.

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Este fim-de-semana, enquanto sorriamos e aproveitávamos o melhor da vida entre mergulhos de mar e piscina, muitas vidas, demasiadas vidas, chegaram ao fim. O mesmo calor que nos fez felizes foi o calor que matou dezenas de seres humanos mesmo ali ao nosso lado (no meu caso, a pouco mais de 20km do local onde desfrutava da vida e amaldiçoava o facto de 2a feira estar à porta e ter de voltar à rotina). Acho que todos nós temos o direito de nos questionarmos como é que isto foi possível. Pode até ser muito fácil apontar o dedo e encontrar supostos culpados. Podemos e devemos perceber o que corr u mal para evitar algo semelhante no futuro. Mas o que não podemos com toda a certeza é recuperar as vidas que se perderam de forma tão estúpida e desumana. Falamos em terrorismo. Falamos do mal que o homem consegue fazer ao homem. Mas de repente o fogo vem e leva tudo. Tudo. Tudo o que temos. Tudo o que somos. Não há palavras que possam explicar o sofrimento que por estes dias se vive em Portugal. Não há gestos que apaguem as imagens que nos chegam. Não há dinheiro algum no mundo que minimize as feridas abertas. Não há milagre algum que traga aquelas pessoas das cinzas. Só nos resta transmitir toda a força do mundo a quem dela precisa. Só nos resta acreditar que algum deus, alguma fé, algo, conseguirá reconfortar corações ardidos. Só nos resta esperar que onde quer que estejam, estejam em paz e descanso. E, acima de tudo, por aqueles que partiram, só nos resta viver intensamente enquanto por cá estamos. Porque num instante pode tudo terminar. UM BEM HAJA PARA TODOS AQUELES QUE POR ESTES DIAS PRATICAM O BEM NO NOSSO PAÍS E FAZEM PEQUENOS MILAGRES QUE SALVAM VIDAS.

Aquilo por que vale a pena viver

Calculo que não tardarás a regressar à universidade em Tóquio - declarou Midorikawa num tom calmo. - À vida real. Aproveita-a ao máximo. Por muito superficial e que monótona que a vida possa ser, vale a pena tirar partido dela, garanto-te. Olha que não estou a ser irónico nem contraditório. Simplesmente, no meu caso, o que a vida tem de bom transformou-se num fardo, e não consigo aguentar mais. Se calhar, não nasci talhado para isso. E então, como os gatos que sabem que vão morrer, procurei refúgio num lugar escuro e sossegado, onde espero tranquilamente que chegue a minha hora. Nem sequer me queixo. Mas contigo é diferente. Tu deverás ser capaz de aguentar o peso desta vida. Utiliza o fio da lógica para guardar junto a ti, no teu corpo, o melhor que puderes, aquilo por que vale a pena viver.

Haruki Murakami, A Peregrinação do Rapaz sem Cor

Relativizar, para uma vida mais fácil de ser vivida

   No início do mês fomos a um concerto dos The Gift na Casa da Música (fantástico, como sempre, by the way!!!). Ao regressarmos ao carro fomos surpreendidos por um vidro partido. Toda a alegria e satisfação de uma noite bem passada a dois foi imediatamente esquecida e substituida pela surpresa, pelo desânimo e pela raiva, sobretudo por parte do meu Mr. Big, que lhe viu roubados o computador profissional, discos externos, pens e cadernos carregados de informação e trabalho. Ele insultou, disparatou, vociferou, amaldiçoou e centralizou toda a sua energia e pensamentos para aquele acontecimento negativo, sobrevalorizando-o, digo eu agora.

   Saimos de casa animados, divertimo-nos imenso durante o concerto, acabamos a noite (ou começamos o dia seguinte!) na esquadra e a fazer telefonemas para linhas de atendimento de bancos e afins para cancelar acessos a contas e senhas. Regressamos a casa. Deitamo-nos na cama. Dormimos pouco. Acordamos e seguimos com a nossa vida, ele bem mais devagar. Hoje, menos de 1 mês depois, já não falamos disso.

   Há uns dias centenas de pessoas foram assistir a um concerto da Ariana Grande na Arena de Manchester. Divertiram-se imenso, cantaram, dançaram, aproveitaram o melhor da vida. No final foram surpreendidos por um bombista suícida. Muitas pessoas não regressaram a casa nessa noite. Muitas pessoas acordaram no dia seguinte numa cama de hospital e ainda não puderam seguir com as suas vidas.

   22 pessoas nunca mais regressarão às suas casas...

  

   A vida pode ser mesmo isto: num momento estamos aos saltos e aos berros num concerto e no momento seguinte estamos de rastos ou nem sequer estamos. Como se não bastasse uma vida que consegue ser tão surpreendentemente fantástica de ser vivida como devastadora e cruel, ainda temos criaturas que vivem para matar, e da forma mais cruel possível. Nós perdemos um vidro e uma data de material importante. Eles perderam a vida. Posto assim, só temos que nos envergonhar por qualquer desanimo ou insatisfação com a vida que nos partiu um vidro. Podia ter sido tão pior.

   Pensar no poderia ter sido, mais do que amaldiçoar o que foi, é um exercício que devemos ser capazes de fazer sempre que algo nos corre menos bem. É um daqueles exercícios que me obrigo a fazer sempre e no qual me sinto orgulhosamente bem treinada. Naquela noite do vidro partido, fartei-me de repetir para uma pessoa que eu sei que não me ouvia, "deixa para lá, podia ter sido pior, estamos aqui, estamos bem, os nossos estão bem, deixa para lá, já passou...". Provavelmente ele já não me podia ouvir, mas a realidade era aquela! Podia realmente ter sido pior. Podia ter sido pior. É isto que temos de ser capazes de pensar. Porque podiamos simplesmente já cá não estar para pensar no que podia ter sido...

   A vida é tão curta, tão cheia de ratoeiras, tão cheia de provações e gente má, para quê tornar tudo ainda mais pesado? Estamos cá para viver, não para atirar as mãos ao céu e lamentar. Estamos cá para viver. Enquanto nos deixarem.

 

(Que todas as vítimas da maldade humana possam um dia encontrar o descanso e a paz merecidas. E que quem por cá fica saiba viver uma vida que merece ser vivida.)

Não deixes...

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Não deixes que termine o dia sem teres crescido um pouco, sem teres sido feliz, sem teres aumentado os teus sonhos. Não te deixes vencer pelo desalento. Não permitas que alguém retire o direito de te expressares, que é quase um dever. Não abandones as ânsias de fazer da tua vida algo extraordinário. Não deixes de acreditar que as palavras e a poesia podem mudar o mundo. Aconteça o que acontecer a nossa essência ficará intacta. Somos seres cheios de paixão. A vida é deserto e oásis. Derruba-nos, ensina-nos, converte-nos em protagonistas de nossa própria história. Ainda que o vento sopre contra, a poderosa obra continua: tu podes tocar uma estrofe. Não deixes nunca de sonhar, porque os sonhos tornam o homem livre. Walt Whitman

O bem que Salvador Sobral fez ao país

Não vou escrever sobre o Salvador Sobral ou a sua música, afinal gostos não se discutem, música cada um ouve a que gosta e acima de tudo, já chega de posts e mais posts sobre o rapaz e aquilo que ele canta.

Portugal ganhou pela primeira vez o Festival Eurovisão da Canção. Isto é que interessa. Não interessa se foi o Salvador, a Luísa, o Zeca Afonso ou o Quim Barreiros. Foi Portugal quem venceu o Festival Eurovisão da Canção. É a importância deste reconhecimento internacional que importa para um país como o nosso, que apesar de já ter descoberto mundos, vive há demasiados anos na sombra e na pequenez do "só de nós ninguém quer saber".

Portugal tem mostrado ao mundo que existe e que sabe o que faz. Não nos faltam exemplos: temos um nobel da literatura, temos o melhor jogador de futebol (e de futebol de salão) do mundo, fomos campeões da Europa, temos a cidade eleita o melhor destino europeu, temos das melhores praias do mundo, temos cérebros fantásticos a produzir conhecimento, temos Emmys... independentemente dos gostos pessoais ou do fato de considerarmos justo ou não cada título que temos conquistado, o que estes prémios e reconhecimentos nos têm de ensinar é que nós, portugueses, sabemos fazer e sabemos fazer muito bem. O Presidente da República felicitou Salvador Sobral dizendo que "quando somos muito bons, somos os melhores", e eu acrescento que quando somos muito bons e acreditamos no que valemos, fazemos diferente, e somos os melhores. E é só isto que interessa: nós, que não estamos (ou não estavamos!) habituados a ganhar, sabemos ser os melhores.

Salvador Sobral cantou que talvez pudesse amar pelos dois. Eu cá acho que cada conquista de um Português é um forma de amor, não pelos dois, mas por todos nós, portugueses, os melhores em tanto.  

Silêncios contemplativos

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Marta era dada a silêncios contemplativos, a momentos nos quais nada cá fora parecia corresponder ao que ela, lá dentro, nutria, apaixonada; durante esse tempo limitava-se a olhar para um sítio imediatamente atrás das coisas que fixava com a retina e deixava que o interior e o exterior, com o tempo, voltassem a harmonizar-se na mesma frequência disposicional.

(Autismo, Valério Romão)

Liberdade

 

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  Nós, que crescemos e vivemos num tempo livre e muitas vezes até sem regras, esquecemo-nos demasiadas vezes do quão importante é essa coisa chamada liberdade, em qualquer uma das suas vertentes. Da liberdade de expressão à liberdade de pensamento e acção, importa não esquecer os sortudos que somos por podermos escolher a vida que queremos viver, a história que queremos contar. Mais do que homenagear ou lembrar quem lutou pela nossa liberdade, foquemo-nos em fazer essa luta valer a pena, todos os dias, para cada um de nós. Viver uma vida plena e que faça jus à nossa essência é a melhor forma de o fazermos. Aproveitar esta passagem por cá para espalhar coisas boas e fazer o bem, porque também somos livres no amor e na pegada afetiva que deixamos no mundo. A liberdade dos sentimentos e dos afetos é talvez dos maiores tesouros que possuimos, por isso, de que estamos à espera para amar a liberdade com amor, pela vida, pelos nossos, pelos outros e, acima de tudo, por nós?

   Que na vossa vida haja sempre liberdade para serem felizes!

Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância.

(Simone de Beauvoir)

 

Kicking some asses (ou não e de como isso é ainda melhor)

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(Não se deixem enganar pela forma como este post vai começar. É uma profunda reflexão sobre a vida. Prometo!) Uma das coisas que sempre me agradou nas aulas de Body Combat foi a possibilidade de, mais do que noutras aulas, exorcisarmos as nossas frustrações e raivas acumuladas naqueles socos e pontapés esquizofrénicos, é certo, mas muito reconfortantes. Na última aula, a professora gritou o clássico "imagina a cara daquela pessoa que mais vos chateia à vossa frente e dá-lhe com força". Eu sou pessoa que gosta de treinar pra valer e por isso imaginei com muita força a cara que estava ali à minha frente e... não consegui parar de sorrir quando percebi a resposta. Nada. Nenhuma. Continuei a ver apenas e só as costas da colega que treinava à minha frente. E foi ali, e é aqui que se isto se torna a profunda e séria reflexão sobre a vida, numa aula de Body Combat, ao som de "Work it out " dos Netsky (bom som, by the way), a dar murros esquizofrénicos com muito power, que eu percebi que neste momento não há nada nem ninguém que me ponha fora de mim, que me roube o sorriso, ou que me faça ter vontade de espancar alguém e ainda o atirar de um penhasco abaixo. Pode parecer banal, mas já perceberam a importância real e o peso de nos sentirmos genuinamente bem com a nossa vida? Quantas vezes o conseguimos? Quantas pessoas o conseguem? Durante quanto tempo conseguimos viver nesta plenitude? Não devemos aproveitar ao máximo cada momento em que nos sentimos cheios de nós e de vida? Eu sei que tudo muda num repente. Eu sei que amanhã é incerto. Eu sei que isto não é um estado permanente. Mas parar 1segundo que seja para perceber que neste momento a vida que vivemos nos enche a alma e o coração e que, mesmo nos dias mais cinzentos-pérola, conseguimos gerir os problemas e as emoções de forma a não deixarmos que isso afete o nosso bem-estar e o nosso sorriso dá-nos esperança de que afinal isto de viver pode realmente ter coisas muito boas. Conclusão: não encontrei cara para os meus socos, mas "soquei" na mesma com muita garra e determinação, assim só para afastar possíveis ladrões de vidas (e ficar com uns braços e uns abdominais ainda mais fortes!).

De cada dia, para todas as noites

Normalmente, a sua mente era como uma praia apinhada de gente - durante todo o dia, andava a correr de um lado para o outro, deixando pegadas, construindo pequenos montes e castelos, anotando ideias e diagramas com os dedos na areia, mas, quando a maré da noite subia, ela fechava os olhos e permitia que cada onda de rítmica respiração lavasse a acumulação do seu dia e, em pouco tempo, a praia ficava limpa e vazia, e ela conseguia adormecer.

«Anna e o Homem - Andorinha», Gavriel Savit