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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Olhar

 
"Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura"
Fernando Pessoa
 

   Ao olhar para a janela de uma casa nunca sentiram curiosidade em saber o que se passa do outro lado? Não falo do intrometer na vida de terceiros, mas sim dos momentos em que vou perdida nas minhas viagens, de carro ou a pé, e gosto de olhar uma janela e imaginar o que ela esconde com aquela transparência que nada revela. Gosto de o fazer, principalmente, nos dias festivos. A noite da véspera de Natal é a minha preferida. Enquanto viajo para junto dos meus familiares gosto de olhar as janelas e imaginar as famílias juntas, os sorrisos, as histórias, os cheiros. Todos os outros dias, gosto de ver cortinas abertas de par em par e pequenos vultos de seres a viverem as suas vidas. Gosto de imaginar como serão as suas vidas, o que estarão a fazer, sobre o que falarão. E gosto de os imaginar felizes, a sorrirem.

   Talvez seja apenas uma veia de voyeur, afinal já dizia um professor meu na faculdade que "Um bom psicólogo será e terá de ser sempre um bom voyeur". Observar é, de facto, um  dos meus hobbies. Sou uma observadora por natureza desde miúda, altura em que as observações giravam sobretudo em torno de uma qualquer crítica. Actualmente observo para aprender, para entender e por satisfação. Numa conversa, prefiro observar quem escuta em vez de quem fala. Dá-me um gozo enorme perceber que o outro não está "nem aí" para o o que está a ser dito, ou que o que se diz tem um peso assustador na vida daquela pessoa. Gosto de ver as crianças a brincar, mesmo que já não saibam qual o verdadeiro significado da palavra. E gosto de ver as que não brincam e apenas veem brincar, como eu, mas sentindo-se num mundo que não é o seu e no qual não conseguem entrar. Gosto de olhar os adolescentes sedentos de vida e experiências, entusiasmados com mais um amor que parece ser sempre o perfeito, o primeiro e o último. Gosto de ver pais brincarem com os seus filhos, que são sempre os melhores do mundo, os pais e os filhos. Gosto de cruzar o olhar com os nossos adoráveis "velhinhos", que me enternecem sempre o coração e me rasgam um sorriso na cara, ao sentir tanta experiência e tantas vivências compactadas num só ser. E gosto de observar o amor partilhado, o verdadeiro, entre duas almas perfeitamente unidas por um qualquer laço que não se explica. E gosto de perder o olhar por esse mundo fora, desde o azul do céu, ao infinito do mar, passando pelos pormenores de uma construção, de um fenómeno, de um acontecimento.

   Gosto de olhar para ver. Para me deixar levar e me perder, para depois me encontrar, com o olhar ou num olhar. E assim, sou do tamanho de tudo o que vejo.