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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Querido Diário

   Entre arrumações, dei com a minha "caixinha das recordações", aquela caixa que todos temos e onde guardámos recordações e mais recordações daquilo que já fomos e já vivémos. Desta vez não estou a falar da caixinha que temos cá dentro. É mesmo aquela caixa onde encontrámos cartas, caderninhos e livrinhos e toda a espécie de folhas carregadas de dedicatórias, t-shirts rabiscadas pelos nossos amigos, fotografias, prendinhas com história, pulseiras, logotipos do "grupinho" de amigas, barcos de papel, recortes do jornal para o qual escrevémos...e diários! Sim, eu escrevi um diário! Corrijo! Dois! E quando os tive nas mãos, não resisti a folheá-los. Acabei a ler "o mais recente", que acompanha os gloriosos dias da minha adolescência, entre o 9º e o 10º ano. E gloriosos é mesmo o termo. Não há dias melhores do que aqueles que partilhámos com os nossos amigos, que são sempre os melhores, porque são companheiros de tudo.  E se temos os nossos amigos por perto, todos os acontecimentos são aventuras e todas as tristezas rapidamente se transformam em sorrisos rasgados.

   Voltando ao diário...o que nós somos enquanto não crescemos! O que nós escrevemos, o que nós dizemos, o que nós pensamos, o que nós sentimos...Foi um riso constante, acompanhado por um abanar de cabeça que não significava mais do que "Como é que eu já fui assim?". E não deixa de ser engraçado reviver todos aquelas emoções, porque, naquela altura, foram emoções para mim, vividas de forma tão intensa que precisei de as exteriorizar em folhas de cheiro azuis, rosas e verdes. Bem vistas as coisas, quase poderia chamar àquilo "O diário das minhas paixões", afinal poucas são as páginas que não relatam um coração a bater apaixonado. Ou assim julgava eu. Naquela idade gloriosa, qualquer batida mais acelerada é tida como amor eterno, por isso, aquelas páginas estão repletas de amor! Aquele amor inocente, descomprometido, infantil, superficial, que não passa de um devaneio de criança crescida que sonha com pessoas de carne e osso e não com as caras bonitas da boysband do momento. É um amor que não nos marca, porque não é amor, porque vem e vai à velocidade da luz.

   Visto do presente, o meu passado foi bastante luminoso. E bastante apaixonado! As páginas do meu 9º ano estão repletas de "conheci o X e ele é tão giro!", "acho que estou apaixonada pelo Y, o que achas?" (respostas, em momentos de dúvidas, procurámos sempre respostas fora de nós), "o Z disse-me isto e isto e isto e mandou esta e aquela mensagem, será que gosta de mim?" (as novas tecnologias vieram ajudar muitos os relacionamentos mais tímidos)...e poderia ficar aqui o dia todo a transcrever aquelas palavras, que hoje me fazem rir, rir muito. Os namoricos, os amigos, as novas pessoas que entravam na minha vida à velocidade de uma por dia, os que partiram com a mesma velocidade, as palavras que saiam facilmente, fizeram daquele ano, um dos melhores da minha vida.

   A partir de determinada altura/página, percebe-se uma mudança. Talvez o início de um amadurecimento, de um crescimento natural e necessário. Coincidiu com a ida para o ensino secundário. Nova escola, novos amigos, novas vivências. Os amigos de ontem estavam lá na mesma, cúmplices. Mas estavam os novos também. E a partir daqui tudo ganha uma importância e uma amplitude diferente. A partir daqui, muito deixa de ser momentâneo e arrisca-se a marcar-nos. As paixões deixam de ser fáceis, o amor deixa de existir, porque é algo sério demais para nos comprometermos com ele, as palavras começam a ser medidas, as relações criam laços e as pessoas entram na nossa vida para ficarem por um bom pedaço de tempo, quem sabe até, infinito. Precisamos dos amigos mais do que nunca, jurámos nunca os abandonar  e acreditamos que nunca seremos abandonados por eles. Começamos a sentir o peso da perda, o significado das relações humanas e a importância que aqueles anos e aquelas pessoas com quem os partilhámos têm e terão para nós. O meu diário não durou mais do que o 1º período. A minha memória guardou o resto.

   Aquelas páginas azuis, rosa e verdes estão repletas de amores e desamores, de desilusões, de dúvidas, de certezas momentâneas, de tristezas...e de amizades e alegrias e sorrisos e inocência pura, mas feliz. Estão repletas de um Eu que fui e que me conduziu ao que hoje sou. De um Eu que cresceu e amadureceu a cada página, que mudou. Mas que não deixou de ser um Eu. E era um Eu feliz. Desprendido, descomprometido, que por vezes não sabia o que queria, mas que, a bem ou a mal, acabava por descobrir. Era um Eu em formação, apaixonado pela vida, pelos amigos, pelos momentos. Um Eu que se envolveu, que conheceu, que perdeu, que se apaixonou, que criou laços e foi feliz com eles, para depois sofrer e pensar que o mundo ia acabar. Não acabou. E aqui estou Eu, sem diário (mas com um blog!), sem palavras fáceis, sem muitos dos que enchem aquelas páginas, sem inocência e sem certezas momentâneas. Mas com um sorriso. Provavelmente o mesmo que me acompanhou ao longo de todos estes anos. Porque sempre fui de sorriso fácil e, se calhar, foi isso que marcou o meu lugar num mundo que já passou. Gosto de sorrir e isso, por muitos anos que passem, ninguém me pode tirar.