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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

O Portugal e as férias

Ao cuidado do Exmo Sr. Presidente da Républica Portuguesa

 

   Eu, que há 6 anos troquei as férias lusas pelas férias além fronteiras, escutei atentamente o seu pedido/sugestão e resolvi ser uma cidadã exemplar e digna da minha nacionalidade. Vai daí, há uns meses e depois de há cerca de um ano ter feito uma paragem por terras algarvias a caminho do sul de Espanha e ter pensado que era capaz de passar uns dias por ali, lancei a sugestão: e se este ano fossemos até ao Algarve, ali bem juntinho à fronteira, onde o mar é mais quentinho e amiguinho e o vento sopra em jeito de brisa e não de vendaval? Dito e feito.

   Posto isto, julgo-me no direito e dever de o informar acerca das minhas percepções/opiniões/juízos resultantes de uma semana em solo algarvio. E para que terminemos da melhor forma, permita-me que comece a minha exposição/catarse pelos aspectos menos positivos.

   Ora então em termos de pontuação negativa, os pontos vão apenas e só para os portugueses, enquanto povo com as suas taras e manias, independentes do contexto férias ou não férias. Quero com isto dizer que talvez o Sr. Presidente não possa fazer nada quanto ao facto de o português querer sempre mais do que o que pode, falar sempre mais e mais alto do que o que deve, comer sempre mais e mais do que o que deveria e esquecer-se vezes e vezes sem conta que a boa educação e os bons modos são coisa para ficar bem a qualquer um, mesmo em férias. Assim sendo, passar férias em Portugal continua a ser sinónimo de ouvir e conhecer a vida da Maria e do Manel e dos vizinhos da Maria e do Manel, que falam pelos cotovelos sem nunca se cansarem, na praia, na piscina ou no restaurante. Assim sendo, um ponto negativo grande para o ruído que as Marias e os Manéis fazem enquanto comem ou enquanto estendem os seus corpinhos ao sol.

   Agarrado às Marias e aos Manéis vêm os rebentos dos mesmos. E que rebentos! E que quantidade de rebentos! Eu, que até trabalho com crianças, nunca tinha visto tanta miudeza junta por metro quadrado. Ora correm, ora saltam, ora gritam, ora choram, ora andam em cima das mesas enquanto gritam em plenos pulmões "Eu sou o rei das mesas", tudo em constante desobediência aos pais, que não sabem (ou não querem saber) controlá-los. Tinhamos a criançada calma, tinhamos, claro! Aqueles que estavam agarrados às suas PSPs, DS, Magalhães e outros que tais. E sim, isto também é uma crítica. Sai uma dose de responsabilidade parental para todas as mesas, sff.

   E por falar em metro quadrado, era o que realmente cada um de nós tinha para estender a toalha na praia. Chegar ao mar, só por entre guarda-sóis e o mar arriscou-se a não ser suficiente para tantos "crocodilo". Isto na primeira semana de Julho, por isso, Sr. Presidente que me desculpe, mas férias em Portugal em pleno Agosto...a mim não me apanha.

   Como vê, estou até a ser fofinha e simpática, já que nas críticas me fico por aqui. Poderia tecer uma ou outra observação à gestão hoteleira ou ao aproveitamento de recursos, ou até mesmo ao preço de um pacotinho de pipocas, mas com certeza terá gente da sua confiança e mais sábia quanto a estes assuntos. Assim como assim, não me parece que nestes aspectos, as coisas mudem num futuro próximo. A crise, eu sei.

   Vamos lá então ser simpáticos? Começando já concluindo, regressar ao Algarve foi bom. Bom mais até! O tempo fez inveja a qualquer destino exótico, de dia e de noite. A temperatura da água do mar concorreu com as melhores. A limpeza da praia bate aos pontos aqui as do Norte. O hotel anunciava-se de 4 estrelitas e talvez perdesse meia, só pelas filas à hora das refeições, mas era capaz de a ganhar de novo assim que começamos a degustar os pratos que nos apresentavam. Férias em Portugal será sempre sinónimo de boa comida e, admire-se vindo de mim, boas sobremesas, que não escaparam nem um dia à minha boca. Às sobremesas juntamos aquela gelataria artesanal e temos reunidos os elementos necessárias para a chamada "engorda de férias". Ainda no hotel, uma salva de palmas para o quarto 1204, para a sua magnífica vista de mar e infinito e para as simpáticas instalações e dimensões.

   As gentes foram simpáticas mas pouco sorridentes, mas assim são as gentes portuguesas, com ou sem crise. Sem crise mas sem luxos andava uma das nossas estrelinhas nacionais, recém chegada da fria África do Sul, entre crianças e fotografias. Acolhedor foi chegar à praia, a uma loja ou lugar e 95% do que ouvimos ser falado em português de Portugal, com toda a variância linguística que isso implica. Acolhedor também é o cheiro que inunda o ar, um cheirinho a Portugal aquecido por um sol abrasador e refrescado por um mar infinitamente azul. Um cheirinho a um Portugal com tanto para dar ainda, que promete mas não cumpre, mas que mesmo assim não desilude.

   Concluindo, mais uma vez e agora para encerrar, se eu voltava a fazer férias em Portugal? Sim. Ali sim. Assim que nos abstraimos do menos positivo, aprendemos a apreciar o que realmente ali estamos a fazer: férias no nosso país. Por isso, Sr. Presidente, aconselhou e eu cumpri e não me desiludi. Mas se me permite a frontalidade e sem querer ser indelicada, continuo a preferir estender-me além fronteiras, onde nada é meu e ninguém me reconhece raízes. Mas isto agora talvez já seja uma característica minha.

   Despeço-me com os melhores cumprimentos a dando-lhe a certeza que voltarei a fazer férias no nosso país. E continuarei a sair dele, sentir saudades, voltar e descobrir que ainda tem coisas belas.