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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

As sapatilhas

 Percebemos que já criamos uma imagem de marca quando entramos no nosso local de trabalho e somos rodeadas por um bando de crianças aos berros e aos saltos a gritar ao mundo: "Eeeeehhhhh, hoje vem de sapatilhas!!! Hoje vem de sapatilhas!!!". E esta frase foi ouvido várias vezes nesse dia. 

 

   Não, não me rendi às sapatilhas. Simplesmente trabalhei 11 horas seguidas, que incluiam levar 50 miúdos ao Bowling e a almoçar ao Mc Donald´s, tudo isto num shopping cheio de gente e em transportes públicos. Diga-se que nem as sapatilhas me salvaram de um estado de completo K.O à noite.  Já mentalmente a exaustão era muito pior. Valeu pelos imensos sorrisos daquelas crianças durante todo o dia. 

Mas por que raio...

...é que as pessoas pensam que eu gosto de interpretar todos os desenhos que as crianças pintam ou fazem, tenho de o fazer e que isso deve ser feito?

   "Já viu isto? Um dinossauro verde em cima de uma rocha cinzenta. Dá muito que pensar. Tirando isto, só temos crianças felizes" (entenda-se "só temos florzinhas, passarinhos e casinhas).

   Dá, realmente dá. Dá para pensar que as crianças, principalmente o rapazito em questão, gostam de dinossauros verdes em cima de rochas cinzentas, o que me parece até bem próximo da realidade, e que as meninas gostam muito de desenhar flores, pássaros e casinhas coloridas, ou não fossem elas meninas e crianças.

   Portanto, se é para desenhar, deixem-nas desenhar e nada de dar significado distorcido àquilo que elas desenham sem qualquer significado.

   Interpretação de desenho infantil sim, mas em contexto de avaliação cuidadosa e integrada.

Mortos por dentros

   O trauma infantil é a principal causa de morte nas crianças até aos 14 anos.

   Os responsáveis pedem uma maior atenção por parte dos médicos no despiste de casos de maus tratos infantis. Como se isso fosse fácil. Muitos dos agressores são verdadeiros mestres da arte do disfarce, encobrindo os seus actos, disfarçando-os, ameaçando (ainda mais) as vítimas. E as vítimas são crianças que sofrem e calam. Que chegam aos hospitais de pernas e braços partidos, com traumatismos cranianos e mortos por dentro. E os médicos não percebem o que difícil de perceber. E 17% dessas crianças voltam ao hospital, pelos mesmos motivos. Com novas feridas. E ainda mais mortos por dentro.

   As pernas partidas curam-se. Os traumatismos podem ter danos mais ou menos reversíveis. E por dentro? Algum dia as feridas internas se curarão? Como explicar a uma criança destas que a infância é tudo aquilo que ela não teve e que tudo o que ela não viveu não é a infância?

1 de Abril

 

   Nunca percebi porque motivo temos um dia totalmente dedicado à mentira. Num mundo cada vez mais de aparências, marcamos um dia no qual podemos mentir, enganar, pregar partidas e tudo o que mais nos apeteça. É tudo (será?) brincadeirinha, eu sei, mas já não podia ouvir "AH Ah, hoje é dia das mentiras!". O resultado disto é que, desconfiada como sou durante todos outros dias do ano, acabo por não acreditar em nada do que me diziam hoje.

   Hoje senti curiosidade em saber a história do 1 de Abril. A conclusão a que cheguei é que passei a perceber ainda menos este dia. Ao que parece, não existe consenso quanto à origem desta data, o que me leva a pensar que, se calhar, a própria existência deste dia é mentira...

   História à parte, porquê um dia das mentiras? Porquê inventar mentiras hoje, quando tantos e tantos são especialistas em mentira intencional? Mentir e ser alvo de mentiras já faz parte da nossa vida. Todos nós ja mentimos (e não vale a pena mentir e dizer que não) e todos nós já fomos enganados. A mentira acompanha-nos. Desde aquelas mentirinhas inocentes que encobrem atrasos, faltas ou má disposição, até às grandes mentiras, que nos agridem o coração e nos roubam uma pequenina parte de nós aos poucos.

   As crianças mentem de forma pura. Mais correcto será dizer que inventam histórias para explicar o que não sabem ou que não querem que se saiba. Confabulam de maneira impressionante e muitas das vezes conseguem convencer-nos até, mas basta uma dúvida nossa, uma pergunta, e todo o enredo já mudou. O problema são as mentiras "dos crescidos". Essas sim histórias dignas de best seller que, palavra a palavra, nos envolvem numa teia confusa mas muitas vezes convincente. Junto com a mentira vem a dúvida e aqui não sei dizer qual delas é a pior. A dúvida espalha-se com a força do mais mortífero vírus, atacando tudo o que é sentimento e contaminando qualquer relação. Uma vez instalada nunca mais nos larga, mesmo que se minta e se diga "Eu confio".

   A mentira, em toda a ascenção da palavra, destrói e corrói. Porquê dedicar-lhe um dia? Porque não um dia em que a verdade e nada mais que a verdade podia ser dita? Já diz o provérbio "prefiro que me entristeças com a verdade, do que me alegres com a mentira". No final, todos deveriamos ser como o Pinóquio e ter uma consciência com forma de grilo ou outro animal qualquer que nos assobiasse de cada vez que erramos, com palavras ou acções. A parte do nariz que cresce ficaria só para os doutorados em mentira. Para todos, um "grilo falante" já chegava. E já agora, esquecer o dia das mentiras. Porque deixar de mentir...hum...impossível de todo. Mas que seres somos nós, que nos apelidamos de humanos, mas não conseguimos deixar de ser selvagens tantas vezes?

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