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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Não foi escrito por mim, mas podia

   "O que sempre fez a diferença, para mim, foram as histórias. As crianças são uma tela em branco, retratos à espera de serem desenhados. Quando olhamos para elas, com as suas vidas apenas a começar, temos uma sensação de renovação e de uma vastidão de possibilidades infinitas.

   Os meus pacientes mais velhos, por outro lado, são como quadros sumptuosos e, céus, se têm histórias para contar. Nos meus melhores dias, consigo olhar para eles e ver até à sua infância. Penso nos seus pais (há muito mortos), nos sítios onde estiveram, nas coisas que viram. Para mim, é como olhar pelo outro lado de um telescópio, para o princípio."

David Dosa, in "Óscar - o dom extraordinário de um gato único"

Óscar - O companheiro das últimas horas

Mal posso esperar por abrir o livro, que está mesmo aqui ao meu lado, e conhecer este gatinho!

 

   À primeira vista, era uma história improvável: David Dosa, médico geriatra e professor na Universidade de Brown, nos Estados Unidos, tinha uma relação distante com os gatos, fruto de um trauma de infância. E Óscar não era um felino sociável. Desde que, com seis meses, foi adoptado para dar um ambiente mais familiar ao lar Steere House, em Rhode Island, onde Dosa trabalha, este gato malhado limitava-se a enroscar-se debaixo de cobertores velhos, fazer longas sonecas e passar fugazmente pela zona da recepção, onde estavam as suas taças com comida e água.

   Pensava-se que era um gato comum. Mas isso foi antes de o pessoal do terceiro piso, dedicado aos cuidados paliativos, lhe detectar um dom extraordinário: quando a saúde de um dos pacientes piorava, Óscar começava a visitá-lo no quarto com frequência. A certa altura, subia para a cama, aninhava-se aos pés do paciente e dali não saía. Em vigília, acompanhava-o nas últimas horas.

   Um gato que pressentia a morte? Para Dosa, um homem da ciência, aquela era uma possibilidade quase risível. Quando Mary Miranda, a figura maternal e a fonte de conhecimento da enfermaria, chamou a atenção do geriatra para o alegado dom de Óscar - que era então motivo de conversa não só entre o pessoal clínico mas também entre os residentes e seus familiares -, este não escondeu o cepticismo. "Não me entenda mal, Mary. Adoro a ideia de um animal se vir sentar junto de mim quando eu morrer. É enternecedor", disse-lhe.

   As suspeitas da enfermeira desafiavam qualquer lógica científica, e durante meio ano Dosa esqueceu o assunto, até que recebeu um novo telefonema: Ellen, outra paciente da Steere House, tinha falecido. E, como noutras ocasiões, Óscar montara vigília na cama da paciente durante as últimas horas da sua vida. "Embora ninguém entre o pessoal médico, incluindo eu, achasse que ela estava sequer doente, muito menos perto da morte, aquele gato sentiu qualquer coisa. Ainda que a minha fé na ciência e a minha própria vaidade me ajudassem a rejeitar a ideia de que um felino qualquer podia saber mais do que nós, médicos e enfermeiras, sabíamos, senti-me estranhamente eufórico com a ideia de poder estar completamente enganado", escreve Dosa em "Óscar - O Dom Extraordinário de Um Gato Único", editado em Portugal pela Caderno.

Seria coincidência que Óscar estivesse presente na morte de cada paciente? O episódio despertou a inquietação do médico, que se lembrou de uma citação de Einstein: "A coincidência é a forma que Deus tem de permanecer anónimo." Fascinado por um bom mistério, o geriatra decidiu fazer o trabalho de qualquer cientista: investigar o estranho comportamento do gato. Durante meses, falou com familiares de vítimas e reviu vários dos casos relatados pelo pessoal clínico. Confirmou não só que Óscar era o único dos seis gatos da unidade a aninhar-se na cama de pacientes em estado terminal mas sobretudo que os familiares encontravam conforto naquela presença.

    Convencido, Dosa descreveu a habilidade do gato num artigo no prestigiado jornal científico "The New England Journal of Medicine", em 2007, e depois neste livro. Segundo o médico, Óscar, hoje com cinco anos, previu - e acompanhou - até agora mais de meia centena de mortes. A explicação para o estranho dom? Dosa não tem certezas, mas avança uma hipótese biológica: é possível que, tendo os animais um olfacto mais refinado que os humanos, Óscar sinta o cheiro de um composto químico que se liberta antes da morte, as acetonas. A explicação, admite, é plausível, mas também redutora. Mais do que um mero marcador da presença das acetonas, "Óscar encarna a empatia e o companheirismo", escreve o médico no posfácio da obra. "O trabalho dele é fazer companhia nas horas finais."

Fonte: Revista Única do Expresso de 27 de Março de 2010

The real Oscar

Querido Diário

   Entre arrumações, dei com a minha "caixinha das recordações", aquela caixa que todos temos e onde guardámos recordações e mais recordações daquilo que já fomos e já vivémos. Desta vez não estou a falar da caixinha que temos cá dentro. É mesmo aquela caixa onde encontrámos cartas, caderninhos e livrinhos e toda a espécie de folhas carregadas de dedicatórias, t-shirts rabiscadas pelos nossos amigos, fotografias, prendinhas com história, pulseiras, logotipos do "grupinho" de amigas, barcos de papel, recortes do jornal para o qual escrevémos...e diários! Sim, eu escrevi um diário! Corrijo! Dois! E quando os tive nas mãos, não resisti a folheá-los. Acabei a ler "o mais recente", que acompanha os gloriosos dias da minha adolescência, entre o 9º e o 10º ano. E gloriosos é mesmo o termo. Não há dias melhores do que aqueles que partilhámos com os nossos amigos, que são sempre os melhores, porque são companheiros de tudo.  E se temos os nossos amigos por perto, todos os acontecimentos são aventuras e todas as tristezas rapidamente se transformam em sorrisos rasgados.

   Voltando ao diário...o que nós somos enquanto não crescemos! O que nós escrevemos, o que nós dizemos, o que nós pensamos, o que nós sentimos...Foi um riso constante, acompanhado por um abanar de cabeça que não significava mais do que "Como é que eu já fui assim?". E não deixa de ser engraçado reviver todos aquelas emoções, porque, naquela altura, foram emoções para mim, vividas de forma tão intensa que precisei de as exteriorizar em folhas de cheiro azuis, rosas e verdes. Bem vistas as coisas, quase poderia chamar àquilo "O diário das minhas paixões", afinal poucas são as páginas que não relatam um coração a bater apaixonado. Ou assim julgava eu. Naquela idade gloriosa, qualquer batida mais acelerada é tida como amor eterno, por isso, aquelas páginas estão repletas de amor! Aquele amor inocente, descomprometido, infantil, superficial, que não passa de um devaneio de criança crescida que sonha com pessoas de carne e osso e não com as caras bonitas da boysband do momento. É um amor que não nos marca, porque não é amor, porque vem e vai à velocidade da luz.

   Visto do presente, o meu passado foi bastante luminoso. E bastante apaixonado! As páginas do meu 9º ano estão repletas de "conheci o X e ele é tão giro!", "acho que estou apaixonada pelo Y, o que achas?" (respostas, em momentos de dúvidas, procurámos sempre respostas fora de nós), "o Z disse-me isto e isto e isto e mandou esta e aquela mensagem, será que gosta de mim?" (as novas tecnologias vieram ajudar muitos os relacionamentos mais tímidos)...e poderia ficar aqui o dia todo a transcrever aquelas palavras, que hoje me fazem rir, rir muito. Os namoricos, os amigos, as novas pessoas que entravam na minha vida à velocidade de uma por dia, os que partiram com a mesma velocidade, as palavras que saiam facilmente, fizeram daquele ano, um dos melhores da minha vida.

   A partir de determinada altura/página, percebe-se uma mudança. Talvez o início de um amadurecimento, de um crescimento natural e necessário. Coincidiu com a ida para o ensino secundário. Nova escola, novos amigos, novas vivências. Os amigos de ontem estavam lá na mesma, cúmplices. Mas estavam os novos também. E a partir daqui tudo ganha uma importância e uma amplitude diferente. A partir daqui, muito deixa de ser momentâneo e arrisca-se a marcar-nos. As paixões deixam de ser fáceis, o amor deixa de existir, porque é algo sério demais para nos comprometermos com ele, as palavras começam a ser medidas, as relações criam laços e as pessoas entram na nossa vida para ficarem por um bom pedaço de tempo, quem sabe até, infinito. Precisamos dos amigos mais do que nunca, jurámos nunca os abandonar  e acreditamos que nunca seremos abandonados por eles. Começamos a sentir o peso da perda, o significado das relações humanas e a importância que aqueles anos e aquelas pessoas com quem os partilhámos têm e terão para nós. O meu diário não durou mais do que o 1º período. A minha memória guardou o resto.

   Aquelas páginas azuis, rosa e verdes estão repletas de amores e desamores, de desilusões, de dúvidas, de certezas momentâneas, de tristezas...e de amizades e alegrias e sorrisos e inocência pura, mas feliz. Estão repletas de um Eu que fui e que me conduziu ao que hoje sou. De um Eu que cresceu e amadureceu a cada página, que mudou. Mas que não deixou de ser um Eu. E era um Eu feliz. Desprendido, descomprometido, que por vezes não sabia o que queria, mas que, a bem ou a mal, acabava por descobrir. Era um Eu em formação, apaixonado pela vida, pelos amigos, pelos momentos. Um Eu que se envolveu, que conheceu, que perdeu, que se apaixonou, que criou laços e foi feliz com eles, para depois sofrer e pensar que o mundo ia acabar. Não acabou. E aqui estou Eu, sem diário (mas com um blog!), sem palavras fáceis, sem muitos dos que enchem aquelas páginas, sem inocência e sem certezas momentâneas. Mas com um sorriso. Provavelmente o mesmo que me acompanhou ao longo de todos estes anos. Porque sempre fui de sorriso fácil e, se calhar, foi isso que marcou o meu lugar num mundo que já passou. Gosto de sorrir e isso, por muitos anos que passem, ninguém me pode tirar.

Porco pequenino?

Eu: - Vamos então ler o que diz aqui.

S.(7 anos): - Por-co.

Eu: - Não é para adivinhares. Assim vou tapar os desenhos. Vamos lá. Que letra é esta?

S. : - L e um E, LE e um I, LEI e um T e um A, TA e um O, AO, TAO.

Eu: - Então tudo junto...

S. : - Por-co.

Eu: - Não. Um L e um E? ... e por aí fora.

S. : Por-co.

Eu, ao fim de 5 ou 6 tentativas e perante tal preguiça mental, destapo as imagens: - S., isto não é um porco, está bem? É um porco pequenino, bébe ainda, não quero que adivinhes...vamos lá ler. L e um E...etc, etc, tudo junto dá...

S.: - Porquinho!

Foi um elogio, certo?

J.(9 anos): Está muito gira hoje....ouviu? Está muito gira hoje.

V.(8 anos) : Está, está...parece uma zebra!

   Isto vindo do mesmo pestinha que já me chamou Barbie...foi um elogio, certo? As zebras são fofinhas e giras e até parecem em filmes de animação...elogio, certo? Nem sequer estava "zebra"! Riscas sim, mas azuis e brancas, bem navy...

   E eis que foi o primeiro nome que aquelas pestinhas me chamaram. Ainda acredito que foi um elogio.  

Monotonia (que mata e mói)

Jennifer Aniston

   A monotonia cansa-me. Corrói-me. Mata-me aos poucos por dentro. Porque gera habituação, e tudo o que fazemos por hábito e como um hábito tira-nos a espontaneidade e a alegria do momento.

   A monotonia perturba-me. Em tudo. Não consigo fazer uma mesma coisa todos os dias, ouvir as mesmas palavras todos os dias, dizer as mesmas coisas vezes e vezes sem conta. Não consigo ouvir sempre as mesmas músicas, ler sempre o mesmo género de livros ou sentir o mesmo sabor trago após trago. Não consigo usar a mesma roupa dois dias seguidos (nem sequer duas vezes na mesma semana, ou até duas vezes em duas semanas! Ok, doentio!), frequentar sempre os mesmos sítios ou ver sempre as mesmas cores. O wallpaper do meu portátil e do meu telemóvel muda com uma frequência quase semanal, a decoração do meu quarto é mudada sempre que me começa a aborrecer (a parede do meu quarto vai mesmo mudar de cor muito em breve) e até a roupa é alvo de mudança de gavetas ou ordem. Não gosto de molduras sempre com a mesma fotografia e, por isso, a minha moldura digital é a minha melhor amiga. Não gosto de acontecimentos programados, de acções step-by-step, de saber o que veio imediatamente antes e o que virá, incondicionalmente, a seguir. Não gosto daquelas mensagens de "feliz qualquer coisa..." que enviamos para a lista de contactos inteira. Não gosto de fazer sempre o mesmo percurso nas minhas caminhadas. As que fazem bem à saúde a as da vida. Não gosto de linhas rectas. Na vida. Gosto de cruzamentos, curvas e contra-curvas. De não saber o que e quem estará ao virar da esquina.

   A monotonia rouba-nos o sorriso, o brilho no olhar, as borboletas na barriga, o tremor nas pernas. Não dá para viver sem isto. Quem consegue não sentir a ânsia da aproximação, o desejo de algo que nem sabemos bem o que é, o não saber quando vai começar e como vai terminar? A vida precisa de montanhas russas, de voltas que a virem "de pernas para o ar". A ela e a nós. Que nos façam questionar, perceber, imaginar, lutar, mudar. Evoluir. Que nos façam viver. Porque viver é mesmo isto: imprevisibilidade e nunca, nunca, uma rotina esteriotipada pela inimiga monotonia.