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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Oram digam lá se não é azar

   Aqui a Na quer MUITO um gatinho. Muito assim Muito, de quase fazer promessa para o poder ter. A mummy não deixa. Em parte porque quando o último espécime felino nos deixou chorei baba e ranho durante uma semana e tive um processo de luto que durou mais de 2 meses (sim, ainda estamos a falar do gato). Posto isto, as tropas cá da zona fizeram um pacto anti-gato, com claúsulas de exclusão: se aparecer um, não o vamos abandonar.

   Passando ao cerne da questão que aqui me traz hoje, em jeito de desabafo: estava eu a arranjar-me, atrasada como sempre, base para aqui, corretor de olheiras para ali, eyeliner...quando ouço o quê? Miiiaaauuu, miiiaaaauuu...ao que se junta o seguinte comentário vindo da rua "olha ali um gatinho bébe no passeio". Eu, cat addicted, corri para a janela, vejo as responsáveis pelo comentário agachadas no MEU passeio, preparo-me para resgatar um pobre animal abandonado, quando vejo o quê? A minha vizinha a correr para o animal, a pegar (carinhosamente) nele e a levá-lo para casa. É ou não é azar? Mas há mais! O dito era pretinho, como todos os gatos que tive até hoje, e já foram muitos. É ou não é MUITO azar?

   E agora aqui estou eu, deprimida, revoltada e com vontade de dar uma de "vizinha cusca e simpática" e ir já aqui ao lado perguntar pelo bichinho que podia ser meu. Vale-me saber que a minha vizinha adora animais quase tanto como eu.

relações

foto de Olhares.com

 

"Uma relação entre duas pessoas é composta, maioritariamente, por coisas invisíveis: memórias, experiências partilhadas, esperanças e medos. Quando uma pessoa desaparece a outra fica sozinha, como que agarrada a um cordel sem um papagaio na ponta. As memórias podem fazer muito para nos sustentar, mas as coisas invisíveis que compunham a relação estão perdidas e as questões pendentes são esquecidas: discussões mal resolvidas, palavras de amor nunca pronunciadas, coisas que ficaram por dizer. Tornam-se como uma farpa cravada na pele - invísivel mas dolorosa. Até estas questões virem ao de cima, lidar com a perda é impossível."

in óscar, o dom extraordinário de um gato único

Os caminhos da fé

   Se a visita do Papa Bento XVI me incomodou ou me fez algum tipo de urticária? Nada, nada. Ok, gostava de ter usufruido da proclamação do "feriado nacional" no dia 13 de Maio, mas não lhe digo vai e não voltes. Eu que até sou uma menina de bem, com direito a todas as festividades católicas que mandam a tradição entre baptizado e crisma, mais por vontade dos pais do que por chamamento dos céus. Fé tenho-a. Mais em mim do que num Deus todo poderoso. Não condeno quem a tem. Respeito-a como respeito qualquer crença humana. Condeno sim a ritualização dessa fé, a intransigência de uma religião, o fanatismo do devoto, o sacrífico em troca de um bem terreno. Condeno a luxúria desmedida de quem diz "Coitadinho do pobre que tanto precisa de vós (mas não de nós)", a adoração de imagens, as dimensões das igrejas nem sempre necessárias (tipo aquela bolacha a que chamam a Nova Igreja de Fátima e na qual ninguém entra), as promessas que têm de ser pagas não importa de que jeito ou em que condições. E condeno a religião que condena, que aponta o dedo, que apoio o castigo dos pecadores e que define o que é e não pecado.

   Fui acompanhando a visita do Papa a Portugal (inevitavelmente, já que pouco mais se passou no nosso país nos últimos 4 dias). Questiono-me de onde terão vindo os euritos que financiaram todo este aparato (terá sido coincidência o aviso do aumento do iva em pleno 13 de Maio?). Questiono-me se era necessário tudo isto (não a visita, que foi importante para o português devoto) e se era mesmo fundamental os crentes portuenses terem roubado as flores e afins do altar após a missa. Tivemos momentos bonitos. Ninguém ficará indiferente à moldura humana que encheu o Santuário de Fátima. Para aqueles que lá foram foi uma experiência divina. Foram movidos pela fé e aquilo em que acreditamos torna-nos mais fortes. Os que foram a pé venceram uma batalha pessoal. Os que deram não sei quantas voltas à Capelinha das Aparições de rastos e com o sofrimento estampado na cara e ainda foram entrevistados durante o acto deixam-me desconfortável com aqueles que podem ser os caminhos da fé.

   Eu já fui a Fátima, inúmeras vezes. Já entrei na Capelinha e na Igreja, já pus velinhas a arder por mim e pelos meus, embora nunca tenha percebido muito bem o sentido de comprar umas quantas velas, atirá-las ao fogo e vê-las desaparecer depressa demais com a promessa de desejos realizados. Não me lembro de ter rezado em Fátima. Em Fátima ou em qualquer outro lado. Lembro-me de ter falado com algo ou alguém superior a mim. Talvez não tenha feito pedidos, talvez tenha apenas desabafado. Nem por isso deixa de ser fé. É a minha e são os meus caminhos. Provavelmente num momento de desespero não me voltaria para a religião. Não por descrença, mas por questionamento e por excessiva valorização do potencial humano. Se eu acredito? Coloco a hipótese. Não rejeito nem adoro. Estou ali no meio, entre a curiosidade de quem quer descobrir para poder acreditar e a abertura a demasiada perspectivas/concepções como potencialmente válidas.

  Não existem religiões perfeitas, crentes perfeitos ou caminhos de fé perfeitos. Não existem respostas para todas as perguntas, nem soluções para todos os males. Existe a individualidade e a liberdade de nos podermos comover com um Santuário pleno de cânticos de fé, com uma Igreja imponente cujo ambiente transpira autotranscendência, com as palavras do Papa Bento XVI ou com a sabedoria do Dalai Lama.

   É Fé. Palavra pequena com dimensões enormes. Mais importante que o caminho, é o caminhante. E o ser humano é tão grande, tão divino, que pode albergar em si um conhecimento e umas crenças tão infinitas como a sua própria Fé.