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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

La reentré

 

   1 de Setembro. Dizem que estamos na reentré. Dizem todos os anos. Não sei bem porquê, afinal a única coisa que parece realmente (re)começar é mesmo a ano lectivo e esse, para muitos de nós, já não nos diz nada (a mim dirá algo, já que o meu calendário laboral se rege pelo calendário lectivo). Tirando isto, não vejo que mais possa recomeçar. Se calhar, o que queremos é acreditar, durante os meses quentes de Verão, que alguma coisa vai mudar em Setembro, alguma coisa que não só a estação e a roupa que usámos. E se calhar até vamos acreditando, umas vezes mais do que outras, mas vamos acreditando. E depois chega Setembro, apelam à reentré, e afinal, nada mudou. No mundo, no país, nas pessoas e, principalmente, em nós.

   Estou, verdadeiramente, a precisar de uma reentré, que não chegou com o 1 de Setembro e que já tarda em chegar. Por isso, já chega de reentrés ilusórias e de iupis iupis agora é que vai ser. Agora, como antes, está tudo na mesma. Até um dia, que não tem de ser de Setembro.

Os bons livros ou os bons leitores, segundo Lobo Antunes

 

  A cabeça de um escritor é um sítio inabitável, cheio de sombras negras que se devoram umas às outras, remorsos, fantasmas, dores, insignificâncias em que não reparamos e ele repara, sensações, luzes, criaturas sem nexo. Usam o papel para ordenar este caos, vertebrar o desespero, dar ao ilógico uma coerência lógica e mostrar o nosso retrato autêntico em cacos de espelho, fundos de poço trémulos, superfícies convexas em que temos de emagrecer por nossa conta. Não se pode estender a mão a quem lê, tem de se caminhar sozinho num nevoeiro aparente em que, a pouco e pouco, as coisas se arrumam nos seus lugares. Em nenhum bom livro há personagens e história: quando muito aparência de personagens e história, usadas para tornar mais clara a vertigem do que somos. Tudo se passa no interior do interior e portanto não devia haver cursos de escrita criativa (um paradoxo nos termos) mas de leitura criativa.

(...)   

   Um livro é mais uma orelha que uma voz onde, no fim de contas, é o bom leitor quem conversa. O livro escuta. As páginas são ouvidos pacientes que nos guiam através da liberdade do silêncio, onde as nossas frases se reflectem e regressam com um sentido novo. O bom leitor só recebe na medida em que dá e a qualidade da obra depende desta troca constante, do fluxo e refluxo das emoções partilhadas. Temos de ser um agente activo do livro, fazê-lo nosso até que se torne, como queria Rilke de quem não sou admirador, excepto em raras passagens das Elegias, sangue, olhar e gesto.

(...)

   Uma editora comercialmente bem sucedida é má, ou então tem de fazer compromissos. (...) O argumento temos de pôr as pessoas a ler é idiota: o que temos é de ensinar as pessoas a ler. Até Lenine compreendia isto, ao afirmar que a arte não tem de descer ao povo, é o povo que tem de subir à arte. Claro que não é apenas um problema português, é um problema universal. Pasmo com as listas dos tops:

ficção, dizem elas, quando a ficção não existe a não ser nas obras rasteiras. Se me dissessem que escrevia ficção sentia-me insultado: ficção que tolice, é o mundo inteiro que a gente mete entre as capas de um livro.

   Vende menos? Decerto, mas há-de vender sempre. Se tivermos lado a lado, à nossa frente, Camões e o jornal, a tendência imediata é pegar no jornal, mas o jornal desaparece amanhã e Camões fica. 

(...) Pergunta:

­Como vão os livros da biblioteca?

Resposta:

Pingam

e ainda bem que pingam. Se vendessem às grosas é que eu ficava alarmado. Os bons livros são para pingar eternidade fora.

(...)

    Respeito demasiado o meu trabalho para o deixar à venda numa loja dos trezentos.

 

António Lobo Antunes, publicada na revista Visão

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