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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Histórias com gente dentro #21

No mesmo dia, em menos de uma hora, o tudo e o nada. E a revolta.

 

Realidade número 1:

  

   Sra. E., 76 anos, sofreu AVC, não anda, não fala. Vive sozinha. Perdão. Vive com 3 prestadoras de cuidados e o Max, o cão fiel, e conta ainda com o nosso serviço de apoio domiciliário para higiene pessoal e um fisioterapeuta que até ao fim-de-semana trabalha, numa moradia de 2 andares, com uma área absurda para alguém nas suas condições (sendo que a casa foi adquirida pela filha já depois de a sra se encontrar nestas condições), com elevador, cadeiras elevatórias, rampas, e, preparem-se, um jardim fantástico de fazer inveja a qualquer um com uma piscina coberta ao fundo, para a sra. poder fazer alguma fisioterapia.

 

Realidade número 2, ou se preferirem, o mundo real:

 

   Sra. C., 77 anos, deu uma queda e nunca mais andou. Está acamada, algaliada, não anda, mas fala e está completamente consciente de tudo o que rodeia. Vive sozinha. Perdão. Está completamente sozinha, porque as baratas que por lá passeiam não contam. À Sra. C. fazemos-lhe a higiene pessoal, limpamos a casa, lavamos a roupa, desinfestamos as baratas, levamos o pequeno-almoço, o almoço, o lanche. Deixamos-lhe o jantar às 16h30, a sopa (que comerá fria), num tabuleiro, na cama, juntamente com água e fruta e bolachas e gelatina e um iogurte, que ela come deitada, na posição em que estará desde as 16h30 desse dia às 8h30 do dia seguinte. A Sra. C. não tem ninguém a partir das 16h30, porque os nossos serviços terminam a essa hora. A televisão fica ligada 24 horas por dia porque não tem comando, a persiana nunca é totalmente aberta ou fechada porque é um crime fazer a noite chegar às 16h30, luz só a do tecto e que difícil seria dormir de luz de tecto acesa. A Sra. C. está completamente sozinha sempre que nós não estamos lá. E a Sra. C. está sozinha porque não sabe do filho. Porque mais nenhum familiar quer saber dela. E porque a Segurança Social cortou-lhe o pagamento de um prestador de cuidados.

   Neste momento a Sra. C. está sozinha naquele quarto, provavelmente cheia de fome pois não acredito que consiga dosear a forma como come o que lhe é deixado. Com toda a certeza estará a perguntar-se o que anda a fazer por cá e o que é isso a que chamam viver, porque, com certeza, viver não é aquilo que ele anda por cá a fazer neste momento.

Lições de hipermercado

 

   Pois que lá estava eu, na fila daquele hipermercado do elefante porque há que aproveitar as promoções que por lá se fazem, em sofrimento desumano ao fim de mais de 12 horas nuns saltos quando a minha companheira de fila "traseira" profere as palavras que eu tão bem percebi: "ai, já não aguento os pés". E eu olho com aquele ar solidário de mulher vaidosa para a minha companheira de fila "traseira". Eis que a coisa se dá: com a maior das naturalidades, descalça as botas, coloca-as no carrinho, puxa as meias para cima et voilá, aguarda o resto do tempo na fila descalça!

   Eh pá, há mesmo pessoas fantásticas. O que eu gostava de ser assim resolvida e prática.  

Não é fácil deitar a cabeça na almofada

É quando as luzes se apagam e o silêncio chega que todos eles me vêm à cabeça uma e outra vez. E é nestes momentos que eu questiono que m**** de mundo é este que atira os nossos velhinhos para um abandono total e ainda lhes chama a isso viver...há dias assim...pesados...

Estado: Outono

 
   O casaco mais quente já nos sabe bem, assim como umas meias e um cobertor a mais na cama. Já agora pensar em guardar as sandálias parece-me decisão para muito breve, especialmente para mim, rainha dos pés gelados.
   É que uma pessoa já não estava habituada a estes frescos e assim só com os primeiros dias já perdi a conta às vezes que disse: "estou cheia de frio". E a verdade é que estou mesmo. Já começo a regressar a casa a pensar no banhinho quente e no pijaminha, ao mesmo tempo que a cama chama por mim e pelo gato cada vez mais cedo.
   Estamos oficialmente em modo Outono, com uma possível rápida passagem para modos mais frescos.

Assim só para nos irmos habituando...

 

   Acabei de receber um email das chefias a informar que o meu horário de descanso, vulgo hora de almoço, passa de 1h para 1h30m. Maravilha! E agora o senão: essa meia horita não é assim uma oferta pelos nossos belos serviços; toca a colocar esses 30 minutos no horário de saída e voilá, já saimos meia hora mais tarde!

   Não é coisa para me incomodar, até porque praticamente todos os dias saio meia hora depois do meu horário e quando ando aqui por perto sempre posso vir almoçar a casa e não comer sempre comida aquecida. Mas uma coisa é "sair fora do meu horário" outra é ter de lá ficar essa meia hora, que, em alguns dias e em alguns locais, se limita a ficar fechada em gabinete a preencher papéis e relatórios, já que os utentes já estão todos em casa e a maioria do pessoal já saiu (sim, somos quase funcionários públicos). Assim como assim, sempre terei de deixar de dizer "nunca saio a horas" e já não tenho desculpa para passar tantas horas agarrada ao pc em casa a fazer o que devia ter sido feito em horário de trabalho.

Amor estúpido e louco (mas não é isso o amor?)

   Já muito havia lido sobre este filme; já li críticas muito positivas e outros menos simpáticas e, por isso mesmo, estava ansiosa por o ver. Não estava à espera de uma comédia, embora me tenha rido em alguns momentos, mas confesso que estava à espera de algo assinm mais profundo, sem roçar o lamechas, porque isso não é actividade cinematográfica para mim. Mas depois de o ver e pensando um bocadinho sobre ele tenho de admitir que gostei deste filme precisamente porque a mensagem está lá sem serem preciso aqueles momentos de "ai ai que bonito...ai ai que isto é tão verdade". É que o amor tem destas coisas e nunca se sabe até onde ele é capaz de nos levar, para o bem e para o mal. E a verdade é que ele é mesmo isso: estúpido e louco. 

Histórias com gente dentro #20

 

   Num dos nossos centros sociais temos uma utente de 100 anos com quem conversei apenas uma vez, há mais de 3 meses atrás, por ocasião de uma substituição de um colega. Poderia falar aqui do estado excelente da senhora, do seu invejável nível cultural e das conversas interessantes que podemos ter com ela. Hoje só vos quero contar que não só ela se lembrou de mim, da minha idade e de que tinha o cabelo mais comprido e estava vestida de azul (isso não sei!), como se recorda que me esteve a falar durante muito tempo sobre o verdadeiro Palácio de Cristal.

   Hoje disse-me:

 

"Depois venha um bocadinho ao pé de mim que tenho uma surpresa para si."

 

   E não é que a senhora andou a chatear o neto para lhe arranjar fotografias do Palácio de Cristal, lá dos anos 20, "naquele aparelho que ele tem, que tem uma espécie de televisão e ele faz assim com os dedos numas coisas que parecem umas letras e aparece lá tudo", e trouxe três para me oferecer?

  Tenho ou não tenho os velhinhos mais fofinhos do mundo?

A noite passada fomos até Paris

 
   Não me posso assumir fã de Woody Allen. Os seus filmes deixam-me sempre a pensar qual o propósito daquela história, embora também não me deixem no vazio, mas nunca são arrebatadores.
   O que neste lhe falta em tudo isso, ganha no "pano de fundo". A nossa Paris, mais bela que nunca, com ou sem chuva. Sempre perfeita.
   Ficamos mesmo com vontade de fazer já a mala e procurar um Ryanar qualquer baratinho. Antes que nos cortem o subsídio de férias!