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Já repararam que há locais que têm um cheiro, um perfume mesmo, muito característico e muito "de lá"? Assim de repente, recordo-me da Massimo Dutti, da Quebramar, da Zara Home, daNatura, dos acessos ao MarShopping pelo parque subterrâneo...conseguem lembrar-se de mais?
Passo a transcrever a notícia:
O Pingo Doce vai deixar de aceitar o pagamento com cartões de crédito e multibanco em compras abaixo de 20 euros, uma medida que não agrada à DECO.
O fim do pagamento com cartões começa a vigorar a partir do dia 1 de setembro e vai permitir à Jerónimo Martins, dona da rede de supermercados, «uma poupança anual de mais de cinco milhões de euros», segundo uma nota da empresa, que é citada pelo jornal «Público», na sua edição desta terça-feira, e que já começou a ser distribuída aos clientes.
«A partir do próximo dia 1 de setembro, inclusive, ao pagar as suas compras em dinheiro até 20 euros está a ajudar-nos a concretizar mais oportunidades de poupança para si», justifica a empresa, no mesmo folheto.
Depois de terem vendido mais de meio supermercado ao preço da chuva, apresentam-nos medidas como esta. Cada um poupa como pode e é por estas e por outras que o temos como o homem mais rico de Portugal. Eu cá não gosto da medida. Não que vá muito ao PD, mas sou daquelas que nunca traz mais de 10€ na carteira, de maneira que o cartão é o meu melhor amigo.
Mais de 8h do meu dia são passadas a ouvir pessoas. Não é o simples ouvir,que todos fazemos diariamente, milhares de vezes. Eu "sou obrigada" pela minha profissão a uma escuta activa, muito atenta, profunda e, acima de tudo, empática. Diariamente, repetidas vezes, tenho de ser capaz de me colocar na pele de umas quantas pessoas, absorver os seus sentimentos, as suas percepções, as suas cognições, as suas mágoas, as suas dores e as suas alegrias. E, quer queira, quer não, carrego-as comigo, estão todas cá dentro, adormecidas para poderem dar lugar a outras, mas sempre lá. Sempre. Talvez seja isto o melhor e o pior da minha profissão: a dada altura, carrego inúmeras vidas dentro de mim.
Sempre soube viver com isso, bem antes de ser psicóloga. Aliás, talvez sempre tenha sentido que o meu destino passava mesmo por aí, por ter cá dentro tanto de tanta gente. Mas há dias complicados, dias demasiado cheios de vidas e histórias de vida. Dias que chegam ao fim com um peso imenso e a sensação de que, hoje, não somos capaz de nos abrirmos para mais uma palavra sequer. Esses dias são difíceis de (di)gerir, pois são aqueles dias que pedem apenas uma coisa: o silêncio. Há dias tão cheios de palavras, que a dada altura não sou capaz de ouvir nem mais uma. E nesses dias apetece-me o isolamento, a solidão de uma leitura, o silêncio da noite.
De forma a sobreviver a ests dias pesados, procuro refugiar-me diariamente, por 5 minutos que sejam. Procuro e preciso, diariamente, do meu tempo, do meu espaço, dos meus momentos cheios de nada. Preciso deles todos os dias ao final do dia e preciso deles ao fim-de-semana para recarregar baterias para mais uma semana plena de vidas. É por isso que não aprecio jantares com muita gente durante a semana, assim como não lido bem com fins-de-semana carregados de gentes e convívios de amigos ou familiares. Demasiadas pessoas, demasiadas solicitações, demasiadas palavras, demasiados sons...então quando há criançada envolvida, a coisa corre sempre muito mal para o meu lado. Poderá haver quem me chame anti-social, bichinho do mato, antipática, ou o mais que o valha e que se lembrem. Estejam à vontade, porque não é isso que me tira o sono. Acima de tudo, gosto de ser eu e ser eu é ser transparente. "Fazer sala" não é para mim e em tudo o que estou gosto de estar em pleno e bem. Caso contrário não sou uma boa companhia. E é preciso estarmos bem para estarmos lá para os outros, sejam eles família, amigos ou utentes.
No fundo, eu não peço nada de transcendente. Cada maluco tem as suas manias, é certo. Mas cada um também sabe o que o faz sentir bem. E a mim sabe-me bem estar lá para os outros, todos os outros, mas só quando estou bem comigo mesma. Para isso só preciso do meu espaço, do meu silêncio, do meu momento, só isso, uma vez por dia. Em todo o resto do tempo, sou sempre de alguém.