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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Amor

  

«Se hoje, a alguma mulher - ou homem, vá - fosse proposto um amor assim, feito de um amontoado de dias sempre iguais, de hábitos, rituais, incompreensíveis manias estabelecidas, feito de tantos e tantos silêncios, de olhares mudos, mãos que às vezes se tocam disfarçadamente sobre a mesa quando ninguém mais estava a ver, feito de tantos e tantos trabalhos esforçados, canseiras, cansaços, desilusões e embaraços, quem, que mulher, que homem, chamaria a isso amor? Quem de n´so, hoje, quereria viver um romance assim, fechados numa aldeia fechada para o mundo, entre ovelhas, porcos, galinhas, Invernos gélidos e Verões de um calor impiedoso, toda uma vida sem tréguas nem disfarce, nem sequer um aparelho de televisão que trouxesse a essa vida uma dose miníma de ilusão e mentira? Quem de nós conseguiria amar sem ilusão, amar sem televisão?

   Mas eles amaram-se. Assim mesmo, sem saída nem regresso. Sem nunca partir, para nunca terem de regressar. Eu sei que parece absurdo, que é inexplicável: mas foram felizes. Tão felizes que me dói ainda pensar que ela morreu e, com ela, morreu esse amor que ambos viveram como ninguém mais. Depois deles não conheci ninguém mais que se amasse assim, ninguém mais qye tivesse cinseguido tornar tão simples o que sabemos ser tão complicado. Ah se eu soubesse o segredo deles, o da minha avó Filomena e do meu avo Tomaz, também eu poderia ter sido feliz! Mas também sei que vivemos apenas para o que nos acontece, não o que sonhámos. Somos resultado das circunstâncias: onde estamos, quando estamos, com quem estamos. E, hoje, temos demasiadas circunstâncias para que tudo se torne simples ou evidente por si mesmo. Muitas vezes podemos escolher e a escolha é-nos quase sempre fatal.

   Talvez eles não tenham podido escolher. Talvez as suas circunstâncias fossem aquelas e apenas aquelas e não houvesse mais escolha. Talvez. Mas, mesmo assim, é preciso saber reconhecê-las e vivê-las. É preciso saber reconhecer a possibilidade de ser feliz quando ela surge: esse foi o seu mérito e por isso foram tão felizes.»

"Madrugada Suja", Miguel Sousa Tavares

Meninos da rua

 

  Da varanda cá de casa vejo crianças a brincarem na rua ao final do dia. Às sextas-feiras e fim-de-semana a brincadeira entra pela noite dentro e é giro vê-los regressar a casa com a maior das tristezas por terem de deixar os amiguinhos de rua e as brincadeiras escolhidas, como se hoje fosse tudo o que têm e é mesmo tudo p que têm, porque ser criança passa depressa e há tanta coisa que temos de fazer mesmo, mesmo hoje e agora.

   Do que eu mais gosto é de ouvir os sons das crianças a brincarem na rua. Mais do que espreitá-las, gosto de as ouvir gritar umas com as outras, de as ouvir gritar de excitação e alegria pura e plena, porque quando somos crianças essa é a única alegria que conhecemos e que sabemos expressar. Gosto de as ouvir, porque actualmente as crianças já não gritam na rua (esquecendo as birras de supermercado, que não interessam a ninguém), simplesmente porque hoje não deixamos as nossas crianças brincarem na rua. As crianças de hoje não têm asas, porque os adultos a s cortam mal nascem (e eu consigo percebê-los) e por isso, já não chegam a casa com os joelhos esmurrados, já não pôem uma bola a rolar em qualquer lugar e arranjam balizas com pedras ou latas ou que quer que seja, já não fazem bolinhos de terra e ervas (o que eu gostava disto!), já não ouvimos pais aos gritos nas janelas a chamá-las para o jantar ou para a cama...

   Ser criança hoje em dia não deve ser fácil. Ou, pelo menos, não deve ser tão giro e bom como era há uns anos atrás. Acho mesmo que hoje em dia as crianças não sabem ser crianças porque os adultos não as ensinam a sê-lo. Ou não as deixam sê-lo. Ou então são só os tempos que mudaram - para pior - e hoje não podemos mostrar às nossas crianças que ser criança é o melhor que a vida tem e que a vida é muito mais gira fora de portas, longe de computadores, facebooks precoces, playstations, animais interactivos que não saem da televisão e jogos de futebol telecomandados.

   É por isso que eu gosto tanto de ouvir as crianças brincarem na rua aqui ao lado. Ouço-lhes a felicidade e isso basta para me fazer sentir um bocadinho melhor ao final do dia, porque afinal ainda há neste mundo actual, cheio de ratoeiras e coisas más, um espacinho onde as crianças podem e sabem ser crianças a valer.

É o mundo que se deixa ver

 

  «Nós não esperamos. Esperam-nos coisas e pessoas; novidade e aventuras. A morte espera por nós. Nós sabemos que ela lá está mas é uma perda de tempo passar a vida à espera dela.

   Estando atentos e abertos, raparamos mais nas peqeunas maravilhas e desgraças que nos rodeiam: as caras das pessoas, o que dizem, como reagem, os insectos, os passarinhos, os restos de azulejos, as plantas que conseguem nascer nas falhas de cimento.

   Quando nos tornamos espectadores, levanta-se um espectáculo à nossa frente. Em vez de intervir, de apressar, de tentar resolver, é melhor deixarmo-nos ir com a corrente.

   As coisas importantes são aquelas de que vamos ter saudades quando deixarmos de as ter. As mais simples são as mais importantes: poder andar, poder ler o dia inteiro, ter companhia, haver quem goste de nós.

   (...)

   Em vez de nos queixarmos do que vemos e repetrimos o que preferiamos ver, podemos usar os olhos para olhar, para ver o muito ou o pouco que ali está. É o mundo que se deixa ver. Está à mostra. Não tem escolha. A escolha é nossa.

   (...)

   O luxo é estar cá e passar-se tudo como se não existíssemos. É possível tentar alterar o mundo e deixar uma pequena marca, que pouco durará. Mas gasta muita energia. Vivemos num mundo onde há muita coisa que já está feita. O que falta fazer, comparando com o que já se fez, é importante mas pouco.»

"Como é linda a puta da vida", MEC 

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