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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Da vida de cada dia...


Abrando aqui quase todos os dias, neste café, à espera de alguém que depois levo para casa e assim fica o dia dividido em dois, do lado de cá a separação e a solidão (a solidão boa, deus me livre da outra, que quando me tenta visitar eu espanco com palavras bonitas do norte) e o trabalho antes do lado de lá, o regresso aos meus, a reunião. Gosto de vir a este centro de lojas, gosto de passar pelas... pessoas e de vê-las passar por mim, gosto de me encostar aos vidros dos elevadores e de entender os corpos num esforço de adequação ao espaço e os olhares num esforço de adequação ao silêncio, chego e peço sempre um café comprido com adoçante e um copo de água e abro o portátil e arranco a música nos ouvidos e, quando não tenho tempo para trabalhar mais um bocadinho, escrevo coisas assim. Tenho andando com a literatura à cintura, como uma daquelas bolsinhas sempre fora de moda, tenho andando mais calado do que falante, mais com os dedos em suspenso sobre o teclado do que caindo sobre ele, tenho lido tanto, ouvido tanto, olhando tanto para as pessoas que passam para as cidades delas, para os momentos delas, tenho conhecido tanta gente sem livros e de rebarbadora e de cana de pesca e de chave de parafusos na mão a quem falo sempre de livros, elas perguntam o que é que eu faço e se eu digo que sou advogado sou consultado, se digo que sou escritor sou olhado de lado, uns sorriem, outros continuam como se eu não tivesse dito nada, e eu vou falando do que está dentro do livros e depois à noite aproximo-me da mancha do meu filho, que é o bastante para o reter, e penso que sempre que ele escreve, e é quase nunca, escreve melhor do que eu e então pergunto pela literatura que eu quero para ajudar a levantar aquelas rebarbadoras, aquelas canas de pesca, aquelas chaves de parafuso, porque eu sei que há livros para nada mas tenho a certeza de que há livros que são tudo e sei, hoje sei, cada vez mais sei, que tenho de comunicar a literatura para dentro daqueles olhos duros e daqueles corpos doridos, fazê-los parar e escrever no ar para eles, pegar nas frases que já estão feitas e os confortam e tirar-lhes um verbo, aplicar-lhes uma luz, um cheiro, um botão, um barulho que os faça acordar durante alguns segundos e depois voltar à função e levar na boca, para o café, para este café, umas horas mais tarde, a inquietação que eu lhes dei, como eu trago tudo deles para aqui, que nunca nenhum me provocou o tédio que me provocam as pessoas importantes todos os dias. Estamos perto, estamos perto, filho.

 Pedro Guilherme Moreira, 2013


(roubado da sua página no facebook)

Agosto e as modas

 

   Em termos de moda/vestuário/compras, Agosto é (também aqui!) um mês em que tudo vai a meio-gás. São os restos dos saldos que nunca mais largam as lojas mas dos quais já estamos fartas e são as novas coleções que vão chegando, com peças mais frescas ainda para dias quentes e que por isso "se calhar já não vale a pena investir" e peças para outono das quais ainda fugimos, já que as saudades de dias cinzentos e frios ainda não são nenhumas. E depois, em Agosto começamos a fazer a lista de peças a comprar para a nova estação, já que há básicos que precisam de ser renovados, ou tendências que precisam de chegar ao nosso armário. De maneira que até nisto da roupa, Agosto é um mês bem chatinho, embora ideal para poupar, especialmente depois de uma época de saldos (tal como se previa, umas quantas peças adquiridas por mim nos saldos vão voltando à loja depois de as experimentar em casa, com calma...). A mim, já não me apetece comprar nada para o verão (ok, muitas vezes o que se passa é que tenho de pôr o meu lado sério a trabalhar precisamente naquela máxima do "o verão está a acabar, não vou gastar dinheiro nisto") e ainda não me apetece nada, mas nada mesmo, trazer para casa roupas mais quentes (ok, se calhar apetece-me muito comprar umas calças clássicas pretas, da nova coleção da Zara, mas isso não conta, right? São um clássico intemporal, absolutamente indispnesáveis!), chegando-me mesmo a aborrecer entrar nas lojas e deparar-me com aquele cenário de restos de saldos vs confusão de padrões e peças de nova estação".

  Será Agosto um perfeito mês sem Zara?

"Vivi, confesso que vivi..."

   Hoje conheci a Sra. C., que começou esta semana a frequentar um dos nossos centros de dia. Esta poderia ser apenas mais uma utente, já vem até ao centro de dia para evitar passar tanto tempo sozinha em casa. Até aqui tudo normal. Tudo normal até nos sentarmos a conversar com a Sra. C. e nem darmos pelas horas passar (sim, horas!).

   Assim que me sentei e me apresentei e trocamos as primeiras palavras, pressenti que aquela não ia ser mais uma daquelas conversas típicas da velhice que passam sempre pela doença, pela solidão e pela tristeza por tanto sofrimento. A Sra. C., dona de uns lindos olhos azuis mar, foi confrontada há pouco mais de 2 meses com um diagnóstico de cancro do pulmão num estado avançadíssimo, daqueles que não deixam muito espaço à esperança. Ainda assim, a Sra. C. não desmoralizou. Foi à luta, está na luta, e aceitou realizar algumas sessões de quimioterapia a título quase experimental, não porque acredite no milagre da cura, mas porque talvez se consiga "trancar" o cancro, porque ela gostava de viver mais alguns anos, "na minha casa, com as minhas coisas e a minha vida". Não há tristeza na sua voz, não há o "ai meu deus, porquê me tinha de acontecer isto a mim", não há o medo de partir. Há a vontade de continuar a viver, porque gosta de viver, de cá andar. E de dançar. Adora dançar. E as suas palavras parecem que nos envolvem ali numa dança quase perfeita, guiados por alguém que já viveu tanto e que agora, nisto que podem ser os seus últimos momentos, nos diz, mais que uma vez: "mas eu vivi, vivi muito. E vivi exatamente a vida que queria, tive tudo o que de bom a vida me podia dar e também coisas muito más que me ensinaram a viver e continuar sempre a lutar". E os seus olhos transmitem precisamente este estado de plenitude com a vida, que nem sempre foi boa, mas que soube sempre transformar numa vida cheia. Não foi uma boa vida, não foi uma vida fácil, mas foi uma vida que soube levar de tal forma que nunca, por uma só vez, lamentou o que quer que fosse.

   À despedida, e para que não ficassem dúvidas: "a minha maior asneira foi ter fumado desde os 15 anos até há 2 anos atrás. Agora estou a pagar por isso. Mas acredite que vivi uma vida cheia de vida. Foi a vida que sempre desejei". À saída, a promessa de voltarmos a conversar na próxima semana, mas desta vez "só lhe vou contar sobre as minhas malandrices".

   Há pessoas fantásticas neste mundo e eu tenho tido a oportunidade de conhecer tantos exemplos, que cada vez percebo melhor o porquê de ter a profissão que tenho.

Meu querido mês de Agosto ?!?

   Nunca gostei muito do mês de Agosto. No tempo das férias escolares, era o mês que mais custava a passar, já que a esta altura já estava cansada das férias e Agosto arrastava-se lentamente, com mais de metade do país de férias e a meio gás. Mais tarde, o sentimento manteve-se e assim que pude comear a escolher as minhas férias decidi que Agosto seria a trabalhar, enquanto se cura a ressaca de umas férias em Julho que passaram depressa demais e se aguarda pacientemente umas férias de Setembro que nunca mais chegam. Agosto não passa, arrasta-se, dia após dia, enorme. Mas acima de tudo, Agosto cheira a fim de verão, porque tudo o que é "de verão" prolonga-se apenas até ao fim do mês. Como dizem os meus velhinhos "primeiro de agosto, primeiro de inverno" e a verdade é que eu tenho sempre essa sensação. Se até aqui ansiamos pelo verão, a partir daqui começamos a pensar no outono. Agosto é o ponto de viragem. Até aqui tudo era expetativa e alegria pelos dias quentes, grandes e de sol. A partir daqui é aquela sensação de que o verão é sempre bem mais curto que os dias cinzentos e que os dias, esses sim, são realmente mais curtos, anúncio do que não tarda nada está aí e nos obriga a guardar a frescura dos dias quentes.
   Desculpem lá o desabafo. É só a depressão de 1 de Agosto. Lá para Setembro isto passa...

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