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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Saúde mental, hoje e sempre

 

Porque às vezes não somos capazes de lidar com tudo o que é a vida sozinhos, vamos de uma vez por todas quebrar barreiras, preconceitos e vergonhas e procurar ajuda. Porque um peso partilhado é muito mais fácil de aguentar e porque nós, psis e outros, achamos que a nossa vida só está completa com os bocadinhos das vidas dos outros que estes não conseguem suportar.

Os problemas

«Agora, de novo, a vida parou. Os problemas, os chamados problemas, as recompensas, as ambições, as obrigações pararam. As obrigações têm de esperar porque agora, de novo tudo tem de esperar. E já me tinha esquecido da forma como tudo pode parar assim, de repente, sem aviso de como fica apenas um nevoeiro sobre os objectos.E deixa de haver outros assuntos para pensar e, menos ainda, outros assuntos para escrever.»

"Abraço", José Luís Peixoto 

Os meus pecados

« (...) Levantei-me devagar. Aproximei-me do corredor, baixei o joelho, fingi que me benzi. Caminhei na direcção do altar, lembrava-me das explicações da Irmã Lúcia na catequese. Tinha 8 anos, andava na terceira classe e não sabia ao certo quais eram os meus pecados.»

José Luís Peixoto, "Abraço"

 

   Nos meus idos anos de menina bonita e bem comportadinha fiz todo o percurso "catequesial" que uma criança/adolescente pode fazer. Desde o baptismo, à primeira e segunda comunhão (a melhor parte, dado os vestidinhos de princesa), passando pelo crisma e todas as festividades intermédias. Sendo verdadeiramente sincera, nunca gostei muito daquilo. Não tanto pelo que todos aqueles rituais significavam (mas também), mas principalmente porque nunca me identifiquei muito com o meu grupo de catequese, que foi praticamente o mesmo durante aquela carrada de anos. Por incrível que pareça e pela única vez em toda a minha vida, eu era a "mais velha do grupo" (como entrei para a escola com 5 anos, fui para a catequese apenas quando fiz os 6 anos e por isso estava na segunda classe enquanto os outros ainda estavam todos a aprender o  a-e-i-o-u) e achava sempre que eram todos um bocadinho mais infantis que eu (manias de menina mais velha, é o que é). Ainda assim, participava em todas as actividades, passeios e "retiros", que implicavam sempre fins-de-semana longe dos pais com direito a muita estupidez de criança e noites sem dormir e a dada altura achei que a melhor forma de estar semanalmente na missa ao Domingo de manhã era integrando o coro, o que fiz durante 2 ou 3 anos, embora não tenha voz nem para chamar um gato. Certo é que assim que me vi crismada resolvi arrumar o assunto catequese/religião e disse um sincero e satisfeito adeus àquela malta, com a qual não mantive qualquer contacto, tal era a ligação que (nunca) estabeleci com eles.

  Ora no meio de tanta festividade "catequesial" havia o dia em que tinhamos de ajoelhar e rezar, que é como quem diz, o dia em que tinhamos de confessar os nossos pecados e pedir a remissão dos mesmos com uma lista mais ou menos longa de orações que eu nunca rezei. Tal como tudo o resto, também não gostava destas tardes, nas quais tinhamos de ficar em silêncio sentados na igreja enquanto esperavamos a nossa vez e viamos os colegas nas suas confissões enquanto ouviamos os sussurros dos padres e tentavamos adivinhar o que diriam. Até que chegava a nossa vez. Nunca percebi porque é que o padre estava sentado e nós tinhamos de ficar ajoelhados ainda antes de se saber se erámos exímios pecadores ou mentirosos. E eu lá ia ter com o Sr. Padre, muito contente quando me calhava o padre velhinho com voz rouca e não tanto quando era com o Padre Martins, o "chefe" da igreja e ainda para mais amigo da minha família. E, uma vez ajoelhada, a coisa passava-se muito rapidamente já que eu nunca tinha nada para lhes dizer. Primeiro porque não sabia muito bem o que entrava na categoria de pecado e o que era uma asneira saudável, segundo porque nunca achei que alguma vez tivesse feito algo que merecesse o rótulo de pecado (nessa altura ainda não devorava bolachas maria) e terceiro e principal ponto, porque nunca fui pessoa (criança, adolescente, jovem ou adulta) de me abrir ou desabafar ou muito menos confessar com alguém que, mesmo sendo um mensageiro do Senhor, não conhecia de nenhum lado. De maneira que nada tinha para dizer, o Sr. Padre muito menos para me recomendar e lá regressava eu ao meu lugar com uma encomenda de avé-marias e pais nossos que tinha de rezar de joelhos (os joelhos, sempre os joelhos) mas que nunca cumpria (dificilmente me terão alguma vez visto rezar numa missa).

   Porquê isto agora? Porque li o texto do JLP e as palavras dele fizeram todo o sentido para mim. É que eu nunca soube ao certo quais eram os meus pecados...já os meus erros fui reconhecendo ao longo da vida mas sempre achei que não era ajoelhando que os poderia resolver/remediar.

Domingo...

Acordar em boa companhia, quando nos apetece e sem despertador.
Pedalar 9,5km junto ao rio, com vista para o Porto.
Almoçar um assadinho da mãe.
A primeira festa de Outono em Serralves com o meu afilhado.
Lanchar com a família.
Acabar o dia com um bom livro que está quase no final.
É tão fácil sentirmo-nos completos.

Esses tempos idos, dos primeiros dias de escola

«E começavam as manhãs em que as letras surgiam uma a muma, as vogais , as cantigas das vogais cantadas em coro. Cada uma das consoantes desenhada vinte vezes numa linha. As consoantes picotadas em papel de lustro. A letra "B". A letra "C". A letra "D". E o livro de leitura, o Papu em todos os textos: o "B"arco do Papu, o "C"ão do Papu, o "D"ado do Papu. Um "b" e um "a", "bá", um "r", "bar"; um "c" e um "o", "có": "barcó". E, a essa velocidade, o nosso mundo. Á janela, um frasco de iogurte, vidro lavado, com um algodão embebido em gotas de água, a proteger um feijão espigado. E nós, todos os dias, todos os dias, a irmos vigiar o feijão. Entre esse, o dia em que a menina mais bem-comportada foi ter com a professora e disse: "Minha senhora, o feijão começou a germinar.". Importante e solene.»

«Abraço», José Luís Peixoto

Histórias com gente dentro

 

   A frieza, distanciamento e ausência de sentimentos com que algumas famílias (que nem merecem esse nome) tratam os seus (que acabam por ser mais nossos) idosos é das coisas que mais me revolta no meu trabalho diário, embora já não seja a que mais me perturba ou choca. Quase diariamente me deparo com exemplos vergonhosos que me fazem questionar até onde o ser humano é capaz de ir na sua indeferença. A solidão em que muitos idosos são deixados é uma das coisas que mais confusão me faz, por um lado porque me põe a pensar no meu dia de amanhã e na possibilidade de também eu acabar só e depois porque sei que é talvez aquilo que mais sofrimento causa a um idoso e que, isso sim, os mata aos poucos. Quando a solidão roça os limites do abandono (porque há alguma que é quase obrigatória, quando não existe mesmo retaguarda familiar), esse morrer aos poucos acaba por passar também para nós.

   Esta semana passei por uma situação que posso quase rotular de experiência sobrenatural, pois nunca pensei que neste mundo tal fosse capaz de acontecer. Ao chegarmos a um dos nossos idosos, acamado há alguns anos, para lhe administrarmos o almoço, encontramos o senhor morto. Depois do choque inicial e perfeitamente natural, toca a fazer o mais difícil: avisar a família. Quando pegamos num telefone para dizer a uma filha: "lamento imenso estar-lhe a dar esta notícia, mas o seu pai faleceu", esperamos todas as reações, menos esta "ah, mas eu agora não posso ir aí, e o meu irmão também está a trabalhar só consegue passar aí em casa lá para meio da tarde; tratem vocês do assunto".

   Onde fica a emoção, a dor de ter perdido um pai, que morreu sozinho numa casa abandonada de vida e afectos?

   Onde fica o nosso coração, o nosso lado humano, os nossos sentimentos?

   São coisas que ainda me deixam sem palavras e assustada relativamente a esta estranha forma de vida que a humanidade do nosso tempo demonstra.

Sentir

"Gosto tanto de a sentir cá", disse-me hoje a Sra. C., que é invisual e vive sozinha e que visito regularmente. 

Provavelmente, foi das coisas mais bonitas que me disseram até hoje evolhem que eu tenho um belo repertório de miminhos que os meus velhinhos me dão. Esta frase, aparentemente tão simples, deixou-me a pensar nas infinitas vezes que passamos pela vida e pelas pessoas, ou deixamos que elas passem por nós, sem verdadeiramente sentirmos. Na correria diária e mascarados de pessoas extremamente ocupadas e cansadas e mal dispostas, deixamos que tudo passe a um ritmo alucinante, momentos e pessoas, e esquecemo-nos que o mais importante desta coisa complicada mas fascinante a que chamamos vida é sermos capazes de sentir. E com as pessoas esta importância duplica. Mais importante que vermos que alguém está bem, de ouvirmos a sua voz, é sentirmos essa pessoa, ainda que tudo o resto seja escuridã, silêncio e nada. 

Quando sentimos sabemos que as coisas são reais, por isso é que é tão difícil fazê-lo ou arranjar tempo para fazê-lo. Ou coragem. Que isto de sentir a vida em vez de só vivê-la tem tanto de bom como de menos bom e é por isso que é tão bom. 

Vamos sentir cada pequeno nada da vida, sim? 

"Quem acolhe os idosos, acolhe a vida"

  “Quando a vida se torna frágil, nos anos da velhice, não perde o seu valor e a sua dignidade: cada um de nós, em qualquer etapa da existência, é querido, é amado por Deus, cada um é importante e necessário."

(cfr Homilia pelo início do Ministério Petrino, 24 de abril de 2005, Papa Bento XVI)

 

 Hoje é dia do Idoso. Mas não é, nem de hoje, que eu me lembro deles ou sinto vontade de lhes prestar uma merecida homenagem. Para mim, os idosos são o melhor do mundo, porque são aquelas pessoas que já viveram tanto e quase tudo e que, por isso, são uma fonte inesgotável de lições, conhecimentos e experiências de vida. Um idoso é uma pessoa tão cheia de tudo que quem tem a sorte de conviver com eles diariamente, ainda que em trabalho, estará, provavelmente, a passar por uma das experiências mais completas e mais gratificantes da sua vida. Se, para uns, não há nada como um sorriso na cara de uma criança, para mim, não há nada, absolutamente nada, como um sorriso na cara de um velhinho, principalmente quando a maior parte das vezes tudo o que temos de fazer para o conseguir é sorrir-lhes, tocar-lhes e dirigir-lhes um simples "olá, como está?".

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