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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Não gostasse o povo português de falar sobre a vida alheia...

   O que me parece a mim é que temos na Assembleia da Républica um número significativo de cobardes que quando a questão não lhes agrada ou "pode dar para o torto" gostam de passar a batata quente para o povo numa de "vós decidis e se correr mal não reclamais porque foi o que vós descidistes".

   Sinceramente acho que é vergonhoso e uma clara forma de discriminação o simples facto de se colocar a hipótese de um referendo para determinar liberdades em questões como esta da adopção por casais homossexuais, do casamento homossexual ou até da interrupção voluntária da gravidez. Se pararmos um segundinho para pensar vamos perceber que o que nos estão a pedir, em todas estas situações, é para sermos nós a decidirmos sobre a vida privada de cada um, sobre questões pessoais de gente que nem sequer conhecemos. Não há liberdade nisto, não há democracia, não há cidadania, não há século XXI. Há pessoas primitivas que julgam que a melhor solução passa por acabar com a liberdade individual de cada um e passar a gestão da vida pessoal, intíma, sentimental, familiar...de cada um para o domínio geral, para o povo. "Eu só caso se o meu povo achar que eu posso casar". "Nós só vamos ser pais/mães se o meu povo achar que nós o podemos ser", "eu só vou poder decidir sobre o que fazer com o meu corpo e com a minha vida se o meu povo me der essa liberdade de decisão"...REsumindo: "Eu só vou poder viver uma vida plena, realizada e feliz se o país achar que eu o posso fazer".  

   Não, eu não me sinto feliz por o meu país me "dar ouvidos", porque o que o meu país quer é que eu decida, determine, sobre vidas privadas que não a minha. E o que eu gostava é que todos nós, que somos chamados a decidir, passassemos um dia pela experiência de ver a nossa vida em suspenso pela decisão de um povo. Quantos de nós iriam aguentar?  

O dia em que o melhor do mundo chorou

 

   Não ligo a futebol, como tal estas coisas de me pronunciar sobre o desempenho dos jogadores em campo passa-me completamente ao lado. Mas mesmo não gostando de futebol, há jogadores, ou antes pessoas que jogam futebol (porque é a pessoa que interessa) que não nos são indeferentes. Cristiano Ronaldo é uma dessas pessoas, não andasse ele sempre na boca do mundo. Todos nós temos uma opinião acerca do Cristiano Ronaldo, pessoa e jogador, ou os dois juntos. Todos nós julgamos conhecer o Cristiano Ronaldo, que ainda por cima é português como nós. E acima de tudo, todos nós já emitimos juízos sobre o Cristiano Ronaldo. Eu também já fiz tudo isto. Já andei entre o "azeiteiro", piroso, arrogante, nariz empinado, deve ter a mania, nem sabe falar, qualquer dia não aguenta tanto ouro, egocêntrico, vaidoso, exibicionista...a verdade é que isto não interessa para nada! Cristiano Ronaldo é, desde ontem, oficialmente, e pela segunda vez, o melhor do mundo. Se é merecido ou não, não comento, nem me interessa. Mas se há coisa que este prémio fez por Ronaldo foi humanizá-lo e torná-lo mais pessoa e menos jogador. Cristiano Ronaldo chorou o choro da vitória. E chorou de forma sentida e verdadeira. Talvez pela primeira vez, vi transparência em Ronaldo. Ou vi Ronaldo, apenas. E isso ficou-lhe melhor que o prémio. Porque o aproximou das pessoas. Porque mostrou que ele, que de facto tem a arrogância necessária para vencer num mundo competitivo como o nosso, é feito da raça dos ambiciosos que tropeçam mas não caiem, que se alimentam da inveja e do ódio dos outros, que vingam cada derrota com uma vitória ainda maior na prova seguinte e que um dia sonharam ser o melhor do mundo e já o são (e por duas vezes) e continuam a sonhar chegar mais longe apenas com o seu esforço, empenho e dedicação.  

 Não é que tenha passado a adorar o Cristiano Ronaldo, ou que vá sequer tornar-me fã do rapaz. Mas ontem tive de dar o braço a torçer. Não pelo prémio que recebeu, mas porque vi que ele é feito de carne e osso e lágrimas e é o melhor do mundo.

 

   Depois desta, aponto já duas personalidades que gostava de ver em lágrimas sinceras, num acto de humanização: José Mourinho e José Socrates :)

Same old drama...

   Dia 7 de Fevereiro, mais um jantar de empiriquitados para comemoração do 50o aniversário da nossa instituição,  desta feita no palácio da bolsa. 

   A questão é a mesma de sempre: o que vestir? Duas incursões ao shopping em busca do look ideal deixaram-me completamente frustrada... ninguém merece tanta festa! 

«O mundo segundo Bob, James Bowen

 

Quando James Bowen encontrou um gato alaranjado nas escadas do prédio onde vive, não fazia ideia do quanto a sua vida iria mudar.James e o gato Bob têm vivido uma experiência excecional. No seu livro anterior intitulado A minha história com Bob, acompanhámos os primeiros passos de uma amizade improvável e que veio a revelar-se determinante na recuperação de James. Agora é altura de reaprender a viver no mundo real. É raro o dia em que Bob não oferece momentos de inteligência, coragem e humor, chamando a atenção do seu amigo James para a importância da amizade, lealdade e de quão importante é ser feliz. James revela-nos como sente que Bob tem sido o seu protetor em momentos difíceis, como quando esteve doente ou foi ameaçado de morte.  Neste segundo livro, James Bowen oferece-nos um relato emotivo, evocando momentos de alegria intercalados com episódios de tristeza e demonstrando que num mundo tão hostil continua a haver espaço para a esperança.

 

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   Um livro que não faz de todo o meu género literário. Li o primeiro livro do Bob o ano passado também por esta altura e oferecido pela mesma pessoa que este ano me ofereceu a "continuação". Quem me conhece sabe que eu adoro gatos e que raramente resisto a uma bela história de ou com gatos. Foi o que aconteceu com o primeiro livro do Bob que, apesar de tudo, não era um grande livro com uma grande história de gatos. Este segundo é um bocadinho "mais do mesmo" e uma clara tentativa de fazer "render o peixe", ou neste caso "de fazer render o gato". Ainda assim é um gato a personagem principal e à partida estamos perante factos reais, o que acaba por compensar a leitura.

   Um livro apenas para quem gosta de gatos e consegue, de vez em quando, abrir um espacinho para histórias simples e escritas por gente que não percebe muito disto.  

O mundo está louco...

   Ondas gigantes que arrastam gentes e terras.

   Gente destemida que acha piada a isso e se postra em frente ao mar à espera não sei se da melhor foto se da morte mais estúpida. 

   Granizo do tamanho de bolas de ping pong que partem vidros e amassam carros.

   Temperaturas que oscilam entre os 50 graus negativos nos EUA e os 50 graus (positivos!) no Brasiu.

   Tempestades de neve.

   Mortes de lendas do futebol português que arrasam um povo e o leva às lágrimas e à invasão despropositada de um cemitério. 

   Meios de comunicação social que transmitem uma única notícia nos seus noticiários durante 2 dias, ridicularizando um acontecimento tão sério como a perda de uma vida.

   ...

   2014 começa de uma forma algo estranha e preocupante...

“Um comprimido que não se vende na farmácia – o afecto."

Para quem, como eu, tem a possibilidade de fazer diariamente um trabalho semelhante a este, que é tão, mas tão, doloroso mas enriquecedor, este artigo fará todo o sentido:

 

«Está com 73 anos. Só com duas muletas consegue andar de um lado para o outro. “Enquanto eu puder, entretenho-me com ele.” Está confinado à casa há uma meia dúzia de anos. A mulher dorme na cama ao lado. De três em três horas, acorda, mexe-o. Já nem precisa de despertador.

(...)

A ouvi-la está um par de enfermeiros do Magalhães Lemos, o hospital psiquiátrico da região norte. Integram a equipa de apoio domiciliário encarregada de visitar uns 400 doentes que já não conseguem vir ao serviço ou que se recusam a fazê-lo. De segunda a sexta saem dois carros, cada um com dois técnicos: dois enfermeiros, um enfermeiro e um assistente social ou um enfermeiro e um psiquiatra.

(...)

Sobra-lhes empatia. Não lhes compete pôr sondas, trocar pensos, dar banhos. Isso é tarefa dos cuidados primários. Estão incumbidos de ensinar quem cuida a cuidar e a cuidar-se, não vá o stress, a ansiedade, o desgaste levar à depressão ou ao colapso, gerar negligência, mau trato ou abandono.

(...)

O cuidador faz parte do plano terapêutico. Assume-se que sem ele nada se pode fazer. É chamado a uma consulta específica. A sós, num pequeno gabinete, um enfermeiro explica-lhe o que é a doença, como progride, como lidar com ela.

Pequenos passos podem evitar grandes stresses. Tirar os tapetes da casa, trocar os chinelos pelas pantufas, fechar bem as embalagens de detergente, exemplificara a psiquiatra Rosa Encarnação. A visita domiciliária reforça essas lições e acrescenta outras, conforme a doença evolui. Não gosta de água? Talvez goste de gelatina. Comer um prato de gelatina é quase como beber um copo de água. A gelatina tem proteínas. Se as proteínas não estiverem repostas, vai ferir-se mais.

(...)

Não é por acaso que a equipa de apoio domiciliário é multidisciplinar, elucidara Rosa Encarnação. É preciso olhar para várias áreas, porque estes doentes já não se servem das palavras, exprimem-se através de alterações do sono, agitação, agressividade e isso tem de ser compreendido.  

(...)

Há muitas famílias desavindas e, no meio delas, idosos incapazes de se amanharem sozinhos. A equipa do Magalhães Lemos, por vezes, assume o papel de árbitro. Uns queixam-se: “A minha irmã não faz nada, fica tudo para mim.” E a equipa tem de chamar a outra parte, de lembrar que “seria bom partilhar” tarefas.

Acontece, no princípio, alguém até querer assumir a empreitada por inteiro. “A pessoa não está a ver o filme todo”, nota Rosa Encarnação. A sobrecarga pode ser esmagadora. “Temos de dar tempo às pessoas para perceberem que não aguentam. Para ficarem bem consigo, algumas têm de tentar.”»

 

O artigo completo aqui: http://www.publico.pt/n1618424

Quando tudo se torna rotina...

   Chego a ser uma pessoa estupidamente organizada, às vezes a roçar o neurótico, o que me leva a muitas sequenciar tarefas de modo a não escapar nada e cumprir tudo devidamente. Este é um dos meus lados. Mas depois há o outro, completamente oposto, que é o lado que não sabe lidar com tudo o que se transforma em rotina. Coisas como o simples facto de acordar todos os dias à mesma hora ou ter um dia fixo da semana para estar em cada um dos nossos centros sociais há quase dois anos, ou saber que imediatamente após terminar as refeições tenho de lavar os dentes para retirar toda uma refeição que ficou presa no aparelho, cansam-me absurdamente e retiram-me muitas vezes alguma energia e vontade de fazer.
   A verdade é que as rotinas, sendo necessárias na nossa vida, são também inimigas de uma vida plena e satisfatória, porque nos cansam e porque retiram a novidade à vida e já todos sabemos que o imprevisível é, provavelmente o melhor da vida.
   Há momentos em que sentimos que vivemos num círculo. Apesar da novidade de cada dia, no seu fundamental, parece que todos os dias são iguais. Profissionalmente, sinto-me entrar nessa fase. Embora cada dia seja diferente e nunca saiba como vou encontrar os "meus meninos", quando acordo sei o que tenho para fazer nesse dia (até porque cada um dos meus dias é semi programado com uma semana de antecedência, de acordo com o que não consigo fazer nessa semana e que tenho de adiar para a semana seguinte), os sítios por onde vou passar para chegar onde tenho de chegar nesse dia, sei que vou ver as mesmas caras de sempre (ou quase as mesmas, já que a morte também é uma coisa com a qual sei que convivo quase diariamente), sei que vou ouvir alguma história repetida...continuando a adorar o que faço e onde faço, ao fim de quase 3 anos, tenho dias em que anseio pelo final do dia, dias em que não me sinto capaz de dar aos meus velhinhos aquilo que eles precisam, dias em que regresso a casa com a sensação de que poderia ter feito muito mais, porque sou capaz de mais e eles merecem mais.
   Acredito que se trate apenas de uma fase (até porque o trabalho promete aumentar já a partir deste mês e especialmente durante todo este ano, já que 2014 é o ano em que a nossa instituição comemora 50 anos, com uma série de iniciativas e actividades ao longo destes 12 meses), mas que é uma fase que assusta e que nos deixa psicologicamente desgastados, lá isso é.