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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

É já este Domingo

   Que vou fazer a minha primeira corrida. Ou pelo menos é o que se diz... 

   Tal como havia dito, depois de 2013 ter sido o ano da força, que é como quem diz, dedicado ao ganho de massa muscular, 2014 será o ano da resistência física,  que para mim significa nada mais nada menos do que começar a correr.

   E se eu me tenho andado a preparar para isto? Ora bem, pois claro...que não.  Mantenho os meus treinos 3 vezes por semana, mas até à data fiz zero treinos de corrida, o quesignifica que Domingo vou assim mesmo à maluca,  atirada para os 7km, que é coisa de principiante, que é o que eu ainda nem sequer sou. De maneira que estabeleci um mínimo de 5km que para quem nunca correu na vida é quase a maratona de Nova Iorque! 

   Quem sabe se não lhe ganho o gosto? 

Que necessidade é esta?

  Nunca se questionaram acerca do porquê de vivermos ligados permanentemente a redes sociais? O porquê de sentirmos tanta necessidade de expormos a nossa vida pessoal / privada em blogs, facebooks, instagrams, twitters e o mais que nos valha? É como se já não soubessemos viver no anonimato, como se tudo o que nos acontece, o que comemos, o que vestimos, o que compramos, o que sentimos, mereça ser do conhecimento do mundo, porque não chega ser do apenas do nosso conhecimento...é como se a nossa vida só fizesse sentido quando começa a fazer parte da vida dos outros. E paralelo a isto, existe ainda aquela necessidade de seguirmos a vida dos outros, de sabermos o que lhes acontece, o que comem, o que vestem, o que compram, o que sentem...como se também a nossa vida só fizesse sentido quando conhecemos a vida do outro.

   Analisando de um ponto de vista psicológico, tudo isto me parece algo preocupante e doentio. Trata-se de uma necessidade de mostrar, de nos mostrar-mos, que não é humanamente natural, que é coisa dos tempos modernos e tecnológicos e que se pode tornar num vírus perigoso. Como se já não soubessmos viver no anonimato, para nós, na nossa vida, no nosso mundo e apenas para nós, apenas na nossa vida e apenas e só no nosso mundo.

   Se nos desligarmos da rede e pararmos um bocadinho para pensar nisto se calhar vamos perceber que uma vida de exposição ao mundo não será a melhor das formas de viver. E ainda assim continuamos a gostar desta estranha forma de vida (tão certo como eu ter sentido a necessidade de escrever isto aqui)...

Histórias com gente dentro

   Há pessoas/casos que nos levam completamente à loucura, ao ponto de a dada altura já só conseguirmos rir da situação, tal é o nosso ponto de saturação e incapacidade para fazer algo mais de diferente que ainda não tenha sido tentado.

   A Sra. C. e o marido são um desses casos. Casal infeliz há vários anos, tantos quantos os que deixou de ser um verdadeiro casal, são o exemplo claro da incapacidade de adaptação a um novo estilo de vida, mais regrado e financeiramente contido. O Sr. R. perde-se em contas e acumula dívidas que suspeito tenta afogar em álcool e a Sra. C. esconde por detrás de uma depressão fingida e estupidamente teatralizadam que não é mais do que uma tentativa de chamada de atenção de alguém que já tudo teve e pouco resta e que continua estoicamente presa ao passado que já lá vai e que não pode ser em nada igual ao presente.

   E nós lá andamos no meio dos dois, que ora discutem, ora choram, ora se insultam. E nós lá continuamos no meio dos dois, a oferecer-lhes aquilo que eles não querem, porque o que eles querem mesmo já não pode ser e se dizer-lhes ito é fácil, fazê-los compreender isto é uma tarefa que de tão longa que já vai se começa a tornar um pesadelo para nós e um claro "caso perdido". Porque pior do que não saber como ajudar alguém e encontrarmos quem não queira (mesmo!) ser ajudado...

Histórias com gente dentro (ou o sermos tudo na vida de alguém)

   Se há coisa que o nosso projecto de voluntariado da instituição veio mostrar é que a solidão é provavelmente a maior doença dos nossos tempos e é uma doença que afecta um número assustador de pessoas que não têm ninguém e que se estende até nós que, diariamente, lidamos com a solidão dos outros,  que passa a ser também um bocadinho nossa. 

   Quando temos de dizer coisas como "coma a sopa toda, porque agora só cá vimos dar-lhe de comer amanhã" ou "deixe pôr a fralda direitinha porque est tem de aguentar até amanhã" ou ainda "agora não abra a porta a ninguém,  porque ja cá não vem mais ninguém que a senhora conheça", estamos, ainda que sem querer, a arrancar pedacinhos da nossa alma e a relembrar a alguém que está neste mundo invariavelmente só.  Fazemo-lo inconscientemente,  sim, mas estamos a materializar em palavras um sofrimento incomensurável,  desumano e nunca completamente perceptível para nós que, egoista mas também humanamente, queremos "despachar o serviço a horas" para podermos finalmente regressar aos nossos lares ou onde quer que seja, pois sabemos que, seja a que hora for, temos alguém à nossa espera. 

   Nós temos alguém à nossa espera. Eles esperam por nós a cada minuto que passa, pois sabem que aquela porta só se abre 3 ou 4 vezes ao dia, se tanto, para nos deixar entrar e, ainda que com tempo contado, somos nós e apenas nós que lhes preenchemos os dias. E são eles, com a sua solidão,  que nos preenchem o coração e alma com aquelas coisas da realidade que nos fazem crescer e nos tornam...humanos...

A espera...sempre à espera

«Depois deste tempo todo ainda espero por ti! Espero e esperarei até que me digam algo de ti! Este tempo todo imagino-te crescendo, tornando-te um homem, e eu aqui parada no tempo, à tua espera! Nunca deixarei de te esperar!!! De uma forma ou de outra, os dias sucedem-se, muitos já partiram, outros nasceram e cresceram enquanto estiveste fora... outros vão nascer em breve, sabias? Há tanta coisa para te dizer, tantas promessas a cumprir que não vão chegar o resto dos meus dias para os realizar... Volta, estamos aqui todos à tua espera... tal como naquele fatídico dia 4/03/1998. (...) Tenho tentado tudo para suportar a tua ausência... tudo mesmo! (...) Sabes, já nem rezo, olho para o vazio e mentalmente pergunto por ti?! Já nem sei quem sou, ou no que me tornei!!! Um fardo para uns... uma lunática para outros! Dizem que sou forte?! Quando eu sou tão frágil. (...) Vês, filho, o que tenho para te dizer não chega uma carta... Como faço para comunicar contigo? A tua irmã está à distancia de um telefonema, basta-me saber que está bem! Contigo faria igual, só quero que sejam felizes! É pedir muito, filho?
Quando puderes juras que me respondes? Eu continuo aqui à espera...»

 

Palavras escritas pela mãe de Rui Pedro, desaparecido há 16 anos.

(N)A cabeça

« (...) a cabeça é muito frágil e, embora não dê para abrir e ver, ela tem coisas dentro, que são coisas que se dizem ou que se veem, e nós devemos ter cuidado com o que nunca mais possamos tirar lá.»
Valter Hugo Mãe, "O nosso reino"