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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Pela primeira vez na manicure, 28 anos depois

 

  Nunca fiz a manicure fora de casa. Primeiro porque não tenho paciência para cabeleireiros e afins e, segundo, porque acho completamente desnecessário gastar dinheiro a fazer algo que posso fazer em casa, de forma bem mais económica.

   Gosto de andar sempre com as unhas arranjadas e quase sempre pintadas e se há coisa queme incomoda nestas coisas das unhas é que o verniz dure tão pouco tempo nas minhas mãos (pouco mais de 5 dias, a partir daí já tem aquele aspecto de "ah, já arranjavas as unhas"). Nunca me senti tentada a essas modernices das unhas de gel ou gelinho e outros que tal, pelo preço e pela necessidade de manutenção constante. Mas recentemente experimentei o verniz de gel e devo dizer que até à data estou satisfeita. No fundo, trata-se de um mero verniz, aplicado na nossa unha, após uma série de produtos que protegem a unha, e cuja secagem é feita numa maquineta com luzes de infravermelhos ou coisa do género. Garantem até 2 semanas de unhas impecáveis e com aquele aspecto brilhante que dá no olho, com extensão até às 3 semanas, altura me que já se nota o crescimento da unha. 

   A minha primeira aplicação durou as tais 2 semanas de forma impecável, sem partir, lascar ou ganhar qualquer estrago e hoje, 3 semanas depois, fui retirar o verniz (é preciso fazê-lo no cabeleireiro também, pois não sai com a acetona normal) e como a unha continua forte e reagiu bem, voltei a colocar nova cor, para as próximas 3 semanas. São aconselhadas não mais de 3 ou 4 aplicações seguidas, de acordo com a saúde da unha, e depois devemos dar um descanso de pelo menos 1 mês. 

   A melhor parte: não precisamos de nos preocupar com "ai que parto uma unha", ou "já estraguei o verniz", ou "tanta água nas mãos, lá se foi o verniz", ou ainda "ainda ontem pintei as unhas já estão estragadas aqui e aqui e aqui"...Quanto ao preço, no local onde faço, acgo bem atractivo: 5 €, com manicure e aplicação do verniz. Para 3 semanas sem arranjar unhas, vale bem a pena! 

Histórias com gente dentro...

   Mulheres subjugadas e completamente comandadas e limitadas pelos maridos ainda existem. Acompanho uma em consulta neste momento. Uma mulher de 50 e poucos anos, cuja expressão facial expressa um sofrimento maior que a revolta das suas palavras. Enquanto técnica e, sobretudo, enquanto mulher, é-me muito difícil gerir da melhor forma estes casos. Eu que cresci num mundo de total liberdade e autonomia para a mulher e que tenho a mania que sou a mulher mais independente e capaz do mundo, não consigo sequer equacionar como é possível existirem mulheres capazes de viverem numa prisão no próprio casamento e ainda dizerem "eu tenho tudo para ser feliz, mas não sei porque não o são", a mesma mulher que logo no início da consulta me diz, com o maior dos sorrisos: "hoje estou de folga e tirei a manhã para cuidar de mim e fui arranjar o cabelo e fazer a depilação nas pernas. Nunca tina feito!. 

   Esta mulher, que é apenas um exemplo de tantas outras em situação semelhante ou pior, não tem tudo para ser feliz. Na verdade, não tem nada para ser feliz! Porque esta mulher é controlada pelo marido de forma doentia, desde a hora a que sai para o trabalho e a hora que chega ("ele quer sempre levar-me ao trabalho e às 17h30 já lá está para me ir buscar), o que veste ("Ainda hoje, vesti umas claças salmão e ele disse logo tira isso, tem algum jeito essa cor"), o que compra ("Se eu quero comprar uma roupa ou uns sapatos, ou alguma coisa lá para casa, ele tem de vir comigo), o que calça, o que cozinha (o marido prefere ser ele a cozinhar. Gesto bonito? Não. Mais uma forma súbtil de controlo), a forma como decora a casa ("Vi uma casa-de-banho com uma jarrinha com uma flor e gostei. Cheguei a casa e pus uma igual na nossa casa-de-banho. Ele chegou e começou logo a mandar vir e a dizer para pôr a jarra na sala. E está lá...realmente fica lá bem...gosto mais de a ver lá também...". Não, não gosta. Mas o marido gosta e é isso que importa). Passear sem o marido é impensável; a última vez qque foi passar o dia com a irmã, à Póvoa de Varzim, o marido mudou-lhe a fechadura da porta...vale a pena continuar?

   Talvez por isto e muito mais, esta mulher diz que as pequenas coisas a fazem feliz. O que é normal, porque quando não temos nada, qualquer coisinha nos faz feliz. Para esta mulher a cozinha fà-la feliz. Não porque a cozinha é o local da mulher, mas porque a cozinha é a única divisão da casa onde conseguiu fazer valer a sua opinião e que está totalmente decorado a seu gosto. 

   E esta mulher tem sonhos. Muitos. Um deles é ir passar uma noite a um hotel. À porta de casa. Com o marido, é certo. Porque ele é o marido dela e ela nunca entrou num hotel. Claro que ele não quer. Mas também tem outros sonhos. Sonha poder caminhar pelos seus próprios passos. Poder passear na cidade sem medo das horas, sem ter de dar satisfações ao marido. Sonha poder lutar pelo que quer, "porque eu sei o que quero e sei que consigo lá chegar". Eu até sei que ela sabe o que quer e que quer poder viver e não continuar a ser controlada. O que eu não sei é se ela algum dia vai verdadeiramente ser capz de perceber o pesadelo em que vive e a relação de completo desamor que tem com o marido. "Eu acho que conseguia viver sem ele". Eu acho que ela idealiza a vida sem ele, mas que uma vez nela, se iria sentir desorientada, o que seria totalmente compreensível. Eu não sei, ainda não sei, se para ela, esta situação irá algum dia mudar. Não sei se ela terá essa força. Não sei se ela realmente percebe a irracionalidade destes comportamentos.

   Esta mulher é das consultas mais complicadas que tenho actualmente. Pela situação, que me revolta e me obriga a um auto-controlo enorme. E pela pessoa que esta mulher é. Mas acima de tudo, porque esta mulher me mostrou, pela primeira vez, que é preciso sermos uma muralha cá por dentro para sabermos gerir os silêncios numa consulta...E tanto que se diz nestes silêncios!

Na cozinha: hambúrguer de grão de bico e couscous

Vamos precisar de:
  • 1 lata de grão de bico cozido
  • 250g de couscous
  • 2 colheres de sopa de farinha
  • 3 colheres de sopa de azeite
  • 1 dente de alho
  • salsa
  • Pimenta, sal, noz moscada

E fazemos assim:

  • Desfazer o grão de bico cozido num robot de cozinha até obter uma pasta homogénea;
  • Adicionar o couscous previamente cozido, o alho esmagado, a salsa, a farinha e o azeite;
  • Processar mais uma vez para unir;
  • Moldar os hambúrgueres;
  • COlocar num tabuleiro revestido com película aderente e levar ao frigorífico para firmar;
  • Grelhar os hambúrgueres de ambos os lados até ficarem dourados.

   Andava há imenso tempo para experimentar esta receita alternativa de hambúrgueres. Hoje foi o dia. A receita original é de hambúrgueres de feijão manteiga e couscous, mas para começar resolvi alterar e experimentar o grão de bico, pois parece-me um sabor mais suave que o feijão. A receita é exactamente igual para se fazer com feijão. 

   Resolvi também experimentar uma outra inovação e para além dos hambúrgueres, moldei também "bolinhas de grão de bico" para levar ao forno. Comi recentemente algo do género na Celeiro e estavam bastante boas. Os hambúrgueres grelhados estão aprovados! As bolinhas serão colocadas no forno nos próximos dias. 

A todos os/as cuidadores/as

«Hoje em dia, quando me perguntam quanto tempo vou continuar a cuidar da minha mãe, responde sempre, "Pelo menos mais um dia!"»

"Viver com Alzheimer". Dr. José Luis Molinuevo

 

   Porque cuidar é isto; viver um dia de cada vez. Ou deixar a vida correr e arrastar-se dia após dia, hora após hora, minuto após minuto...sem nunca saber o  que esperar do instante seguinte. No fundo, esta é a vida de todos nós, mas quem cuida de alguém doente vive com a certeza inabalável de que qualquer minuto pode ser o último e que o que conta é o que se faz agora, para o bem de quem de nós precisa.

   Porque cuidar é difícil, muito difícil. E cuidar com amor e do amor é ainda mais.

   Um bem-haja a todos aqueles que cuidam de alguém, com amor.   

«Cafuné», Mário Zambujal

 

Cafuné centra-se na figura de Rodrigo Favinhas Mendes, um bom malandro que não resiste aos encantos femininos e que se torna amigo de um ex-frade, Frei Urbino de Santiago, que acaba por ser o seu conselheiro e zelador espiritual. É que Rodrigo tem um coração gigante onde cabem muitas mulheres bonitas, dispostas a um carinho que ele é incapaz de recusar…

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   Primeira vez em Mário Zambujal. Obra completamente desconhecida para mim. Arrumei com ele em 5 dias (ou 5 noites!). Conclusão: não me rendi ao dito. Não sei se gosto ou não, porque foi o primeiro livro que li. Escrita simples e nada enfadonha é certo, mas...não me alargo mais em comentários.

   Alguma sugestão de um bom livro deste escritor?

A fragilidade da vida

A partir de experiências que habitualmente têm que ver com doenças graves, começa a alimentar-se um medo associado à percepção de que a vida é finita; de que a vida, tal como a interpretamos enquanto seres humanos, acaba. (...) Enquanto somos jovens não temos muita consciência dessa limitação, porém, conforme os anos vão passando, começamos a discerni-la de maneira nítida. (...) começarmos a perceber, consciente ou inconscientemente,q que a vida é frágil, que aquilo que temos neste momento podemor deixar de ter amanhã, que a capacidade de nos relacionarmos com o mundo pode mudar. (...)

A mente refugia-se num sistema confortável que nos faz sentir eternos, que nos faz esquecer os aspectos relacionados com a morte e a fragilidade da nossa existência. Isto tranquiliza-nos e faz-nos pensar que temos tempo para fazer tudo aquilo que queremos fazer. Mas o que a realidade nos diz, por seu lado, é algo radicalmente diferente: se estamos convictos e queremos fazer algo na vida, temos de o fazer já, porque a única coisa que temos é o presente. Tudo o resto são abstracções. 

"Viver com Alzheimer". Dr. José Luis Molinuevo

Ainda vestimos a camisola?

   A semana passada estive num congresso (boring!) sobre solidariedade social e outras temáticas relacionadas com a dinâmica das IPSS, onde um dos oradores referiu que actualmente já ninguém "veste a camisola" da instituição onde trabalha, pois esta foi substituída por um colete de forças. Provavelmente das maiores verdades que ouvi nos últimos tempos. 

   É verdade que nos últimos tempos as entidades patronais pressionam de tal forma os seus colaboradores que poucos são os que conseguem vestir, orgulhosamente, a camisola. Mascarados com a desculpa da crise e o fantasma do desemprego, muitas chefias incutem nos colaboradores um espírito de total anulação da sua vida pessoal, em prol do sucesso profissional ou das conveniências da empresa/instituição. De repente, parece que quem não trabalhar para além do horário não é bom colaborador e que casar, engravidar ou adoecer é sinónimo de irresponsabilidade ou malandrice. Parece que de repente todos nos querem tirar o direito à vida pessoal e todos temos medo de impôr a nossa posição. Fazemos o que nos mandam, tudo o que nos mandam, porque temos receio de perder o emprego e vivemos com aquela sombra do "daqui a um mês acaba o meu contrato" ou "já vamos ouvir" ou "tem de ser senão ele (chefe!) cai em cima de nós" ou...ou...ou... 

   Para muita gente, trabalhar deixou de ser um prazer. Até para muitos daqueles que gostavam verdadeiramente do que faziam. Não é tanto uma questão de já não gostarmos do que fazemos, mas antes o estarmos sujeitos a uma pressão diária tal, que chega a roçar o receio e o medo, o que é lamentável e vergonhoso, que muitas vezes nos esquecemos das coisas boas do nosso trabalho (para além do simples facto de estarmos a trabalhar!) e de como somos bons naquilo que fazemos.

   É verdade que hoje em dia é difícil vestirmos a camisola. E o motivo é simples. Não vestimos a camisola, porque quem nos chefia são os primeiros a atirar com a camisola ao chão, a esquecer todos os valores subjacentes ao nosso trabalho e, acima de tudo, a esquecer que boas equipas têm sempre bons líderes e que as questões emocionais e afectivas, o bem-estar subjectivo e individual, são os pilares fundamentais de qualquer bom desempenho. 

O desmaio de um homem

 

 

    É provavelmente a notícia do dia: Cavaco Silva sentiu-se mal em pleno discurso do 10 de Junho.

   Não é o facto de estarmos a falar do Presidente da República que quase caia para o lado em direto para todo o país que torna este acontecimente digno de referência. O que merece destaque, lamentável destaque, é o facto de termos um ser humano em síncope, independentemente de ser conhecido ou não, e de ao mesmo tempo termos todo um povo em protesto e reclamação, direito que lhes assiste, é certo, que não manifesta qualquer tipo de empatia pela ao ver um semelhante, que também por acaso até já entra na lista de pessoa idosa e de risco, numa situação no mínimo desagradável e incómoda e, quem saberia, até grave.

   E grave é esta reacção do povo ali presente, que quero acreditar não era representativo do povo deste nosso país. Porque se o nosso país é habitado por seres humanos incapazes de respeitar o sofrimento de outro ser humano, então este é, definitivamente, um país de alma perdida.

   Deixo-vos as palavras de Nuno Costa Santos, na versão online da Revista Sábado. Não podia concordar mais.

«Chegámos ao ponto em que um homem que desmaia, que desfalece, não merece um instante senão de empatia pelo menos de silêncio. Nem sequer vou falar do facto de ter sido eleito por voto da maioria. Vou apenas referir que é um ser de carne e osso e que, mesmo desafinado, também tem um coração.
Um homem é um homem é um homem. Abra-se os olhos. Quem cai, mesmo que seja um adversário, não merece um pontapé verbal, uma risada de escárnio, vinda do alto de uma janela. Merece a espera necessária a que se recomponha para voltar a ser rebatido. Não contem comigo para a festa do desmaio dos outros. O cinismo é uma ditadura do espírito. O cinismo é um desmaio das ideias.»

   Dá que pensar...

Thanks for sharing

 

   Tratando-se de um filme sobre viciados em sexo, poderiam tê-lo banalizado, tornando o tema com pretensão de cómico em jeito de gozo, com tiques de filme para adolescente com as hormonas aos saltos. Era disso que estava à espera, mas era Dómingo à tarde de sofá e não havia grandes escolhas.
   Felizmente tal não aconteceu. Uma forma ligeira mas séria de abordarem o tema do vício, especialmente o vício do sexo, quando este se torna patológico... as dificuldades em assumir os exageros, os comportamentos inadequados, a incapacidade de se relacionarem socialmente com outras pessoas fora da cama, as dificuldades de cumprir um tratamento, independentemente do número de passos deste, a importância dos grupos de apoio e da partilha de experiências, as recaídas e o que os conduz a isso, o peso que as recaídas deixa, o impacto de tudo isto na vida pessoal e, sobretudo relacional e afectiva... mas acima de tudo o assumir que é de doença que estamos a falar e não de tarados ou porcos que só pensam em sexo o dia todo.
   Contra todas as expectativas, gostei.