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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

«Ter e não ter», Ernest Hemingway

Ter e Não Ter é a história dramática de Harry Morgan, natural de Key West, e da sua luta para ganhar a vida e manter a família. Harry, dono e piloto de um barco de aluguer para expedições de pesca, é obrigado durante o período da Depressão dos anos 30 a traficar imigrantes chineses e bebidas alcoólicas ilegais de Cuba para a costa americana. As suas aventuras fazem-no envolver-se com a gente abastada e dissoluta do mundo dos desportos náuticos, e viver uma estranha e improvável história de amor. Cruelmente realista, Ter e Não Ter, que retrata uma das mais subtis e comoventes relações amorosas de toda a obra de Hemingway, é um grande romance de aventuras como só ele os sabia escrever.
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   A minha primeira viagem com Hemingway. Este ano, é, decididamente, o ano de me dedicar aos clássicos da literatura e, como tal, Hemingway não podia faltar. Mais uma vez o Continente a ter uma palavrinha a dizer nisto, já que Hemingway é o autor do mês nas lojas Continente, com todos os seus livros com 40% de desconto imediato. A desculpa ideal para conhecer este Nobel. A escolha, totalmente aleatória, recaiu sobre este "Ter e não ter" e sobre o "Adeus às armas", não pondo de parte a hipótese de até ao final do mês ainda lá ir buscar mais um ou dois, já que o preço é bastante simpático (menos de 8euros cada um).
   Não conheço Hemingway, portanto não sei se este livro é ou não o seu género literário. Confesso que estava à espera de algo mais emotivo, mas não deixa de ser interessante ver como o autor passa de uma história para outra e vai introduzindo novas personagens com uma subtileza que não nos maça. Como foi uma primeira leitura, não emito opiniões mais fortes, guardando-as para o próximo livro.  

Por mais estrenho que possa pararecer

   Tenho de admitir que cada vez tenho menos paciência para a época de saldos. Antigamente aguardava ferverosamente por a chega do dia S e corria para as lojas logo ao abrir. Nos últimos 2 anos, fui alterando os meus hábitos e hoje vou aos saldos quando posso e com cada vez menos entusiasmo. Este ano não está a ser excepção. Fui espreitando as promoções iniciais que foram aparecendo pelas lojas e comprei uma ou outra coisa que precisava (ok, é relativo!) e a muito bom preço. Agora que a minha be loved ZARA nos apresenta os seus saldos, sinto-me sem vontade de comprar (o que é bom!), para além de não ver por lá nada que justifique a loucura dos saldos. Para já fiquei-me por dois casacos para o Outono, um comprido e outro pela cinta, a um bom preço, e cada vez mais é nestes saldos que devemos investir: peças que na época normal são caritas e pelas quais podemos aguardar pelos saldos para investirmos e já a pensarmos na próxima estação. Porque com aquelas peças que nos arrebatam o coração raramente somos suficientemente fortes para as deixarmos na loja até aos saldos!

   Boas compras!

Da solidão de uma infância que passou sem se notar

É notório que Iria gosta de conversar. Com quem o fazia, quando vivia na Anta? Falava com a mãe, à noite, mas apenas sobre o trabalho. Onde levar o gado, que terra se ia ajudar a lavrar.

De dia falava com as ovelhas e as cabras. Atribuia um nome a cada uma. A Raposa, a Bonita, a Morgadinha, a Vermelhinha. Estas eram as ovelhas. As cabras chamavam-se Cornuda, Pretinha, Mocha.

Iria brincava com ela. "Anda cá Raposa!" Mostrava-lhes as roupas que estava a confeccionar, a malha que tricotava com giestas, com os gestos hábeis da costureira que sonhava vir a ser um dia.

Fazia roupa para a boneca de cartão pintado e arame que a tia Piedade lhe oferecera antes de morrer. Trazia-a sempre consigo, no cestinho das azeitonas. Como era o único brinquedo, não tinha nome, ao contrário das ovelhas. Era apenas "a boneca". Começou a desfazer-se. Primeiro nos pés. Depois despontou-lhe o arame debaixo dos braços. Mas sobreviveu, em situação de farrapo, enquanto Iria morou na Anta.

Outra brincadeira eram os estalos com marcavalos. Os montes estão repletos dessa flor roxa que nasce em cachos rasteiros ao chão. Iria arranca uma para exemplificar. Aperta com os dedos a base aberta do pequeno cone da flor, e faz rebentar contra a outra mão, com um estalo, o ar comprimido no interior. "Fazíamos assim na testa das pessoas. Toma!".

Mas que pessoas Iria? Não havia aqui mais ninguém. "Pois não. Mas eu fazia assim.", admite ela, rebentando o marcavalo na sua própria testa. "Toma!".

"Longe do Mar", Paulo Moura

Parque Biológico de Gaia

   A escaldante tarde de sábado foi passada no Parque Biológico de Gaia. Um pouco por força das circunstâncias, já que fui lá entregar a minha tartaruga, que estava comigo há 17 anos e que já estava enorme para a continuar a ter em casa, num aquário sempre pequeno para o tamanho dela. Neste parque existe um abrigo para tartarugas domésticas e por isso achei que esta solução era a melhor para lhe dar mais qualidade de vida. 
   Posto isto, decidimos visitar o parque, um local muito, muito agradável para se passear, mesmo num dia de muito calor. São quase 3 km de percurso pedestre, por entre uma vegetação imensa e animais com um aspecto muito simpático e bem cuidado. Todo o percurso do parque está devidamente marcado, passando por todos os pontos e animaizinhos, o que é óptimo, já que muitos destes parques têm tudo tão disperso que no final percebemos que deixamos alguma coisa por ver, o que não aconteceu no Parque Biológico de Gaia.
   Ser vivem no Porto e arredores e ainda não conhecem esta maravilha da cidade, passem por lá. A entrada são 6€ (adultos), mas acreditem que vale bem a pena. 

Pela estrada nacional

A EN2 existe ao nível do chão e não deixa ninguém indiferente à sua passagem. Os IP sobrevoam as cidades, deixando-as sozinhas.

É verdade que agora, quando viajamos, não passamos por lado nenhum. Abandonámos esse mundo, que no entanto continuou a existir, de modo fantasmagórico. Em certas zonas, os únicos sinais de vida são os stands de venda de automóveis usados (um dos emblemas da EN2) e os gigantescos e horríveis restaurantes vocacionados para "casamentos e baptizados". Como se a vida só existisse, ritualizada e esporádica, quando os emigrantes vêm casar ou baptizar os filhos.

"Longe do Mar", Paulo Moura

Fériiiaaassss!!!

Oficialmente e preguiçosamente de férias durante duas semanas.
Mais do que necessárias, espero recarregar baterias não fazendo absolutamente nada.
Se também é o vosso caso, aproveitem!

«Longe do Mar», Paulo Moura

Longe do Mar é uma viagem pela Nacional 2. De Chaves a Faro, pelo interior, Paulo Moura percorreu a mais longa estrada do país, contando histórias de lugares e pessoas. Essa primeira série de reportagens foi publicada no jornal Público, em Agosto de 2007. Mais tarde, o jornalista decidiu voltar atrás, recapitulou caminhos e narrativas, em busca do que ficara por contar.
Que aconteceu aos contrabandistas de Vila Verde da Raia? À menina que amou de mais, aos playboys do Tortosendo, à louca do Trevim, ao casal de ferreiros apaixonado por livros, a Natália, que dormiu na cela prisional do assassino do marido, ou Joaquina, que viveu sozinha, com a filha, Iria, durante 20 anos, numa aldeia abandonada?
Os seus destinos, não o da estrada, marcaram o rumo desta viagem.

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   Um livro pequenino, muito fácil de se ler, editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, à venda em qualquer Pingo Doce por pouco mais de 3 euritos.

   Neste livro viajámos através da EN2, a mais longa do país e provavelmente a mais deserta, mas cheia de histórias de outros tempos que às páginas tantas nos deixam a pensar no que a vida já foi...

   Bastante interessante.

 

 

A importância de cada coisa

   No passado sábado realizou o passeio anual de colaboradores da nossa instituição. Este passeio já é uma tradição da instituição, mas nos últimos 3 anos foi interrompido principalmente enquanto forma de redução de custos, pelo que nunca tinha participado em nenhum. Tratando-se de um passeio com mais de 200 pessoas e cujo programa prometia um dia demasiado cheio que terminava com bailarico, estava um pouco reticente em participar, apesar de nunca ter posto a hipótese de não o fazer. Momentos destes, de convívio entre todos os colaboradores, convívio de igual-para-igual, independentemente da nossa categoria profissional (apesar de nem todos o conseguirem fazer), são importantes para o bem-estar pessoal e emocional dos nossos colaboradores e da própria instituição. É um dia diferente, sem obrigações, sem horários, sem cansaço , que corta totalmente a rotina diária. Mas acima de tudo, a existência deste dia, destes passeios e de tudo o que ele proporciona, desde o conhecer lugares diferentes, ao almoçar e jantar em hóteis mais ou menos chiques, passando pela convivência com todos os colegas, possibilita a muita gente a única oportunidade que têm de sairem das suas rotinas e das suas coisas. Isto porque cerca de 80% dos nossos colaboradores não técnicos superiores pertencem a uma classe média-baixa e até mesmo baixa (e muito baixa!), cujas vidas nem sempre são fáceis e cujas oportunidades de terem experiências destas não foram nenhumas. Se para muitos de nós ir até Aveiro andar de moliceiro é coisa para fazermos sempre que nos apetecer e ter um almoço tipo buffet num hotel de 4 estrelas é tudo menos surpreendente, para muitas das nossas colaboradoras isto é a mais bela das novidades e uma oportunidade única de conhecerem um bocadinho mais da vida e do mundo. E é nisto, nestas coisas que poderão até ser aborrecidas para alguns (confesso que para mim, ao final do dia, ao perceber que ainda faltavam tantas horas para aquele dia terminar, o passeio se tornou tudo menos divertido), que uma actividade como esta se mostra riquíssima do ponto de vista humano. A prova disto foi a completa paródia em que andaram todo o dia, com gritos histéricos e brincadeiras de adolescentes incluídas e muitas fotos para o facebook e, acima de tudo, os olhares brilhantes de todas elas (e desculpem ser tendenciosa, mas 99% dos nossos colaboradores são mulheres) no final da noite, depois de terem, todas elas sem excepção (e eu incluída por cerca de 30 minutos, porque é igualmente importantes envolvermo-nos com elas neste espírito de partilha), dançado sem parar durante mais de 3horas seguidas!

   Um grande bem haja à instituição por porpocionar aos seus colaboradores oportunidades destas.

Estou velho

Não resisti mais. Ela sentiu isso, viu os meus olhos húmidos de lágrimas e só então deve ter descoberto que eu já não era o que fui e sustentei-lhe o olhar com uma coragem de que nunca me julguei capaz. Estou velho disse-lhe. Já estamos, suspirou ela. O que se passa é que não o sentimos por dentro, mas por fora toda a gente vê.

Gabriel García Márquez, "Memória das minhas putas tristes"