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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Mãe

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Outra das coisas que o meu trabalhocom idosos veio confirmar foi que a nossa mãe é a pessoa mais importante da nossa vida. Sem qualquer desprezo para os pais (aliás, eu adoro o meu e sou muito mais compatível com ele do que com a minha mãe), é a figura materna que nos acompanha até ao fim dos nossos dias. Apesar da idade avançada, tenho muitos velhinhos, especialmente mulheres, que ainda hoje choram a perda da mãe e nos momentos de sofrimento e dor ainda é pela mãe que chamam. Até mesmo em casos gravíssimos de demências é muito frequente ouvi-los chamar pela mãe ou, e isto é quase regra, encontrarmos homens demenciados que passam a ver na esposa a mãe. Desde que nascemos até que morremos, mãe é tudo. É tudo em tudo e em todos os momentos da nossa vida. Mãe sabe tudo o que é melhor para nós e tem o intransmissível dom de nos fazer sentir melhores em qualquer situação. Talvez a culpa seja do amor incondicional, mas mãe é mágica. E eterna dentro de nós.

Combinações perigosas

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Um frio que nunca mais passa (e eu não funciono com temperaturas inferiores à minha idade!), um pós-gripe com ainda muito quimico no bucho, uma fase de desmotivação profissional imposta pelas chefias (tão bons exemplos que vêm de cima! Desculpem, não me consegui controlar!), que por sua vez conduz a uma fase de pouquíssima paciência para tudo e mais alguma coisa e o Idiota do Dostoievsky (não o próprio, o livro, está claro!).

Começo a temer pela minha vida. Ou pela dos outros. 

Uma questão que me tem assaltado nos últimos tempos...

   Serei eu a única criatura à face da terra que não está minimamente interessada, curiosa ou whatever nesse filme das sombras do Grey, que diz que vai estrear por estes dias? Diz que há não sei quantos criaturos "em lista de espera" para poderem FINALMENTE ver o TÃO AGUARDADO Grey e eu quase me pergunto "mas afinal quem é esse tipo?", mas lembro-me que é o mesmo daqueles livros tão cobiçados quanto o filme que todo o mundo leu menos eu (e todos aqueles que realmente gostam de literatura).

   Bem vistas as coisas, podemos dizer que o Grey é o equivalente à Violeta, mas para os pais das crianças que gostam da piquena, certo? Sendo que, se os papás tinham de acompanhar os seus pequenotes aos concertos da dita, neste caso, dizem os entendidos, que não convém nada que os mais novos acompanhem os pais na visualização desse tão aguardado filme, certo?

   E acho que deste forma as sombras do Grey tiveram todo o tempo de antena possível na minha vidinha. 

«O meu nome é Alice», Lisa Genova

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O mundo de Alice é quase perfeito. É professora em Harvard, vive com o marido uma relação que resiste à passagem dos anos, às exigências da carreira, à partida dos filhos. E tem também uma mente brilhante, admirada por todos, uma mente que não falha… Um dia porém, a meio de uma conferência, há uma palavra que lhe escapa. É só uma palavra, um brevíssimo lapso. Mas é também um sinal, o primeiro, de que o mundo de Alice começa a ruir.
Seguem-se as idas ao médico, as perguntas, os exames e, por fim, a certeza de um diagnóstico terrível. Aos poucos, quase sem dar por isso, Alice vê a vida a fugir-lhe das mãos. Ama o marido intensamente, ama os filhos, e todos eles estão ali, à sua volta. Ela é que já não está, é ela que se afasta, suavemente embalada pelo esquecimento, levada pela doença de Alzheimer.
O Meu Nome É Alice é a narrativa trágica, dolorosa, de uma descida ao abismo. É o retrato de uma mulher indomável, em luta contra as traições da mente, tenazmente agarrada à ideia de si mesma, à memória da sua vida, à memória de um amor imenso.

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   Antes do filme, o livro. E que livro. Sou suspeita para fazer qualquer tipo de comentário relativamente a um livro que gira em torno de uma doença que tanto me fascina, que tanto me assusta e com a qual lido diariamente, felizmente apenas a nível profissional. 

   Mantendo o título original, "Still Alice", que faz muito mais sentido quando falamos em esquecer quase tudo do que somos, este livro é uma verdadeira pérola que devorei em menos de 48h (calma, também não fiz mais nada para além de o ler e curar uma gripe repentina) e que nos oferece um cheirinho do que poderá ser viver com doença de alzheimer precoce, do ponto de vista do próprio doente. É certo que todo ele é ficcionada, mas o facto de ser escrito por uma psicóloga que conhece a realidade e o facto de eu própria conhecer alguma dessa mesma realidade, torna-o humanamente real e doloroso. As fases iniciais desta doença são de uma dor imensa para quem sofre dela, dor essa que gradualmente passa do sujeito que a tem e a vai esquecer, como a tudo o resto, para os cuidadores. De que forma, qualquer um de nós, aguentaria viver a saber que daqui a um minuto já esqueceu o que aconteceu agora, que amanhã não se recordará de hoje e que um dia não se recordará de quem é, de quem são os seus ou do que já viveu? Já imaginaram o quando custará saber que vamos esquecer tudo? Que vamos deixar de ser nós? 

   Leiam. Vale muito a pena. 

   E agora espero ansiosamente por um excelente desempenho da Julliane Moore! 

"Estou a perder os meus ontens..."

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Nós, as pessoas nas primeiras fases da Alzheimer, ainda não somos completamente incompetentes. Não estamos desprovidos de linguagem ou de opiniões relevantes ou de períodos alargados de lucides. No entanto, não somos suficientemente competentes para nos poderem ser confiadas as muitas exigências e responsabilidades das nossas vidas anteriores. Sentimo-nos como se não estivéssemos aqui nem ali, como uma personagem louca, de um livro para crianças, numa terra bizarra. É uma posição muito solitária e frustrante. (...)

(...) A minha realidade é completamente diferente daquela que era ainda há bem pouco tempo. E está distorcida. Os caminhos neurais que uso para tentar comprrender o que as pessoas dizem, o que eu penso e aquilo que está a acontecer à minha volta estão bloqueados com amilóide. Luto para encontrar as palavras que quero dizer em uitas vezes dou por mim a dizer as palavras erradas. Não consigo avaliar com confiança distâncias espaciais, o que significa que deixo cair coisas, caio muito e sou capaz de me perder a dois quarteirões de casa. E a minha memória a curto prazo está presa apenas por um ou dois fiozinhos esgaçados. 

Estou a perder os meus ontens. Se me perguntassem o que fiz ontem, o que aconteceu, o que vi e senti e ouvi, teria dificuldade em vos dar pormenores. (...) Não me lembro de ontem nem do ontem antes desse. 

E não tenho controlo sobre os ontens que conservo e aqueles que são eliminados. Esta doença não admite negociações. (...)

Temo frequentemente o dia de amanhã. E se acordar e não souber quem é o meu marido? E se não souber onde estou ou não me reconher a mim própria no espelho? Quando é que deixarei de ser eu? 

(...)

Receber um diagnóstico de Alzheimer é como ser marcada com uma letra escarlate. Isto não é quem eu sou, uma pessoa com demência. É como eu me defini a mim própria, por algum tempo, e como os outros continuam a definir-me. Mas eu não sou aquilo que digo ou aquilo que faço. Sou fundamentalmente mais do que isso. 

Sou uma esposa, mãe, amiga e futura avó. Ainda sinto, compreendo e sou digna do amor e alegria dessas relações. Ainda sou uma participante activa na sociedade. O meu cérebro já não trabalha bem, mas uso os meus ouvidos para ouvir incondicionalmente, os meus ombros para que neles chorem, e os meus braços para abraçar outras pessoas com demência. (...) Não sou uma pessoa moribunda. Sou uma pessoa que vive com Alzheimer. Quero fazer isso o melhor que conseguir. 

(...)

Por favor, não olhem para a nossa letra escarlate e não nos ponham de lado. Olhem-nos nos olhos, falem directamente connosco. Não entrem em pânico nem levem a mal se cometermos erros, porque vamos cometê-los. Vamos repetir-nos, vamor perder coisas e vamos perder-nos. Vamos esquecer o vosso nome e o que disseram há dois minutos. Vamos também tentar ao máximo compensar e ultrapassar as nossas perdas cognitivas.

Encorajo-vos a darem-nos força, não a limitar-nos. (...) Trabalhem connosco. Ajudem-nos a a desenvolver ferramentas para contornar as nossas perdas de memória, de linguagem e de cognição e a funcionar apesar delas. Encorajem o envolvimento em grupos de apoio. Podemos ajudar-nos uns aos outros, tanto as pessoas com demência com aquelas que cuidam delas, a navegar através desta terra bizarra de nem aqui, nem lá. 

Os meus ontens estão a desaparecer e os meus amanhãs são incertos, então o que tenho para viver? Vivo para cada dia. Vivo no momento. (...) Mas lá porque o esquecerei amanhã, isso não significa que não tenha vivido cada segundo dele hoje. Esquecerei o dia de hoje, mas isso não quer dizer que hoje não tenha tido importância. (...)

"O meu nome é Alice", Lisa Genova

Primeiro tu

Primeiro tu – depois os outros. Sim: primeiro tu – depois os outros. Diz comigo sem temeres ser atacado pelos velhos do Restelo, pelos politicamente correctos, pelos egoístas que querem domar (à imagem do seu egoísmo) o egoísmo: primeiro penso em mim, em eu estar bem comigo, em eu estar saudável, forte e feliz – e depois, sim, penso nos outros. Não porque sou – como podem dizer os tais que não vêem a ponta de um corno à frente dos olhos (ou melhor: os que só vêem a ponta de um corno à frente dos olhos) – um cabrão, um sacana, um egocêntrico. Não. Nada disso. Primeiro eu e depois os outros – porque só estando eu bem, saudável, forte e feliz é que poderei ajudar os outros a estarem exactamente como eu estou.

Pedro Chagas Freitas, "Eu Sou Deus"

«Uma menina está perdida no seu século à procura do pai», Gonçalo M. Tavares

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Hanna e Marius, Berlim, Século XX.
Marius encontra uma menina perdida à procura do pai. Hanna, rapariga, cabelos castanhos, olhos pretos, catorze anos. Hanna fala com dificuldades, entende mal o que lhe acontece, não percebe o raciocínio dos outros. Está perdida.
Marius está com pressa mas muda o seu percurso, acompanha-a.
A sua busca leva-os até Berlim, a um hotel com corredores que lembram fantasmas da guerra — e os dois circulam entre as obsessões e os escombros do seu século.

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   Gonçalo M. Tavares. Um dos maiores escritores portugueses. Segundo livro que leio deste senhor. E deixo a pergunta: que foi isto? Que história foi esta? 

   Não é embirração, mas tenho uma certa dificuldade em perceber os livros do escritor e dou por mim muitas vezes a pensar que durante todo o livro "não saimos do sítio", rondamos, rondamos, rondamos e não evoluimos. E quando esperamos que o aproximar do fim do livro nos traga todas as respostas, desiludimo-nos e o livro acaba da mesma forma que começou e continuou: com um valente ponto de interrogação. 

   Ainda assim, continuarei a dar hipóteses a Gonçalo M. Tavares, mas, para já, ainda não é uma das minha prioridades de leitura. 

«Eu Sou Deus», Pedro Chagas Freitas

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Desconcertante, Pedro Chagas Freitas ensina-o, no seu estilo irreverente e único, a olhar para o mundo de um ângulo completamente diferente. Um ângulo que elimina, sem misericórdia, conceitos e percepções que você julgava intocáveis.
EU SOU DEUS não é sobre fazer as coisas direitas - mas sim sobre ir ao encontro do seu direito. O direito a respirar, o direito a pensar, o direito a ser. O direito a viver.
EU SOU DEUS não é sobre aquilo que você não pode fazer - mas sim sobre aquilo que você pode, e deve, fazer. Você pode sentir medo, pode sentir inveja. Você pode sentir aquilo que o mundo insiste em dizer-lhe para não sentir. Você pode ser o seu mundo. Por isso: porque não mudar o mundo?
EU SOU DEUS não é um livro de auto-ajuda. Mas se você o ler pode auto-ajudar-se. Tenha cuidado.

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     Os excertos de crónicas de Pedro Chagas Freitas inundam as páginas sociais, por isso não admira que os seus livros vendam tanto. O estilo "crónica" não é o que eu mais gosto de ler; é daquelas coisas que vamos lendo, um bocadinho aqui um bocadinho ali, aproveitar pequenos momentos livres. PCF sabe escrever. É um facto. E sabe escrever sobre basicamente tudo. Ou se preferirmos, sabe escrever sobre tudo o que é a vida. Sem cair em dramatismos ou romantismos excessivos, as suas palavras fazem sentido e têm significado. É claro que tem os seus momentos de loucura e de vez em quando lá saem textos menos interessantes e até um pouco repetitivos, que nos fazem fechar o livro durante um dia ou dois, mas na generalidade há sempre algo de positivo para se retirar das suas palavras. 

   Um livro para ir lendo, saboreando, sublinhando e reflectindo. 

Subfelicidade

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O que mais dói é a subfelicidade. A felicidade mais ou menos, a felicidade que não se faz felicidade, que fica sempre a meio de se ser. A quase felicidade. A subfelicidade não magoa – vai magoando; a subfelicidade não martiriza – vai martirizando. Não é intensa – mas é imensa; faz gritar, sofrer, saltar, chorar – mas em silêncio, em surdina, em anonimato. Como se não fosse. Mas é: a subfelicidade é. A subfelicidade faz-te ficar refém do que tens – mas nem assim te impede de te sentires apeado do que não tens e gostarias de ter. Do que está ali, sempre ali, sempre à mão de semear – e que, mesmo assim, nunca consegues tocar. A subfelicidade é o piso -1 da felicidade. E não há elevador algum que te leve a subir de piso. Tens de ser tu a pegar nas tuas perninhas e a subir as escadas.

(...)

A subfelicidade é uma tristeza. Uma tristeza de hábitos, de rotinas, de sorrisos – uma tristeza que inibe a surpresa, o imprevisível, a gargalhada. Uma tristeza que te faz refém do que fazes e te impede de te seres o que és. Olha em redor: a toda a volta há pessoas subfelizes, pessoas que dizem “vai-se andando”, pessoas que dizem “tem de ser”, pessoas que dizem “eu até gosto dele”, pessoas que dizem “sou feliz” com os olhos cheios de “queria ser feliz”, pessoas que dizem “é a vida”. Mas não é. A vida não é a quase felicidade. A vida não é a subfelicidade.

Pedro Chagas Freitas, "Eu Sou Deus"

 

Ainda que nos (vos) custe admitir, a subfelicidade é o estado comum da maioria dos mortais. Temos momentos felizes, estados felizes, dias felizes, mas a maior parte do tempo conformamo-nos com o que a vida nos vai dando e, raramente, ou poucos de nós, passam de momentos de felicidade para uma vida de felicidade, que será, provavelmente, das tarefas mais difíceis (e desafiantes) desta existência. 

 

E o primeiro já passou

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   Janeiro já era. O primeiro mês do ano já lá vai. Dizem que é o mais longo do ano, que custa muito a passar e que vem carregado de decisões de ano novo que ao dia 15 já estão esquecidas. E é frio. Muito frio. Tudo verdade.

   Janeiro foi o início e agora, com Fevereiro, tudo parece retomar o seu ritmo normal. Ainda por cima é um mês pequenino e cheio de festas dispensáveis mas lucrativas, entre Namorados e Carnaval e até os remorsos pelas resoluções de ano novo que ficaram pelo caminho em Janeiro parecem já esquecidas (felizmente, não tomei nenhuma!). O frio (e a chuva!) promete continuar, mas as lojas já se enchem de primavera e ajudam-nos a sonhar com dias mais longos, mais quentes e mais tudo. 

   Janeiro já se foi. O primeiro capítulo de 2015 está escrito. Que Fevereiro nos traga mais páginas de momentos felizes. 

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