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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Perigo! Alerta! Danger!

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Ando numa fase perigosa da minha vida. O motivo é simples: nos últimos dias tenho dedicado algum tempo a fazer arrumações "de Outono" e os resultados têm sido algo preocupantes. Estou, mais do que nunca, numa fase em que só o que realmente importa e tem utilidade fica. Tudo o resto é dispensável e poderá servir e ajudar outro  alguém que não eu.

Roupa, sapatos, acessórios, produtos de beleza...tem sido uma arrasia. Uso regularmente? Tem utilidade? Gosto realmente disto? (E mais importante) Tem qualidade? Fica. Não uso isto há mais de 1 ano? É desconfortável? Não gosto da cor? Nem sempre gosto de me ver com isto? Fica largo?  É "pichebeque"? Saco com ele!

Associado a isto tem surgido inevitavelmente uma outra fase: a de compôr os meus bens com aquilo que realmente preciso, interessa e gosto. Mais do que nunca estou numa onda de priviligiar a qualidade e utilidade em prol da quantidade e fazer alguns bons investimentos. Nada de extravagâncias ou loucuras porque a vida não está mesmo para isso, mas sinto que estou cada vez mais exigente e contida nas compras que faço, o que só pode ser bom.

Linha da vida

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   Um dos primeiros exercícios que fizemos na formação sobre inteligência emocional que iniciei esta semana foi "construir" a nossa linha da vida. As regras eram simples: identificar aqueles acontecimentos positivos e negativos que nos marcaram desde o nascimento até hoje. Parece realmente simples, mas a verdade é que senti alguma dificuldade em fazê-lo.

    Antes de tudo o mais, a idade foi uma condicionante. Acho que aos quase 30 anos não devemos fazer grandes reflexões sobre o que foi a nossa vida, quando ainda esperamos ter tanto para viver. Mas lá reflecti um pouco e cheguei a algumas datas importantes e marcantes, pela positiva, nestes meus quase 30 anos de existência: a entrada na escola primária (lembro-me perfeitamente desse dia), terminar a minha licenciatura e depois o mestrado com sucesso, conhecer o meu namorado e continuar com ele ao fim de quase 10 anos, ingressar no meu actual emprego para fazer uma substituição e ter conseguido efectivar o meu lugar lá, ser madrinha... e não fui muito além disto. A coisa piorou bastante quando passei para os acontecimentos negativos (o que só pode significar algo bom!). E foi aqui que eu percebi porquê que este exercício me estava a levantar tantas dificuldades.

   É claro que eu tive coisas menos boas na minha vida até hoje. Mas não foram acontecimentos maus; foram fases menos boas que eu sei reconhecer e identificar pormenorizadamente ao ponto de ainda sentir alguma dor cá dentro. Mas a questão aqui é que eu não vivo nem me faço desses grandes acontecimentos, positivos ou negativos. Eu valorizo pequenos momentos, todos os momentos, cada momento, cada pequeno nada e, por vezes, um pequeno e aparentemente insignificante gesto pode significar tanto ou mais que um daqueles acontecimentos que nomeei. É por isso que me é tão difícil identificar acontecimentos marcantes que constroem a minha vida. Porque eu gosto de a construir diariamente, tijolo a tijolo, pedra a pedra, momento a momento. Sejam eles bons ou menos bons. Pequenas coisas que, naquele instante, significaram tanto para mim, mas que se calhar no dia seguinte já nem me recordo delas. Mas naquele preciso momento fizeram todo o sentido e tiveram todo o significado para mim. Bom ou menos bom.

   A minha linha da vida é-me difícil de traçar. Acho que não tinha espaço para transcrever tudo aquilo que faz de mim aquilo que sou. Espaço para escrever e memória para reter tudo. Porque, no final, o que importa é viver.

Porque ser healthy também cansa

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Ter um estilo de vida saudável, nomeadamente uma alimentação o mais saudável possível é muito bom e bonito, mas, para além de por vezes ser financeiramente pouco animador, é cansativo e rouba-nos algum do nosso tempo livre, no qual cada segundo é precioso.

   Comer bem e bom dá trabalho, pelo menos se somos daquelas pessoas que diariamente sai de casa com a marmita atrás de nós carregada com lanches, snacks e almoço. Quantas vezes eu não chego a casa depois de um dia em que saio mais tarde do trabalho ou até mesmo depois do ginásio e tudo o que realmente não me apetece é pensar no que vou fazer para o almoço do dia seguinte e prepará-lo. É certo que, como ainda vivo em casa dos pais, por vezes a tarefa é facilitada pois consigo aproveitar alguma coisa do jantar. Mas quase diariamente tenho de lhe acrescentar ou modificar algo, para tornar a refeição mais saudável. As minhas manhãs de Domingo são muitas vezes passadas na cozinha a adiantar minimamente as refeições da semana, e diariamente há que pensar em almoços, lanches para meio da manhã, lanches para meio da tarde, lanches para antes do treino e ainda o pequeno-almoço do dia seguinte que sempre que possível deixo adiantado de véspera. Se bem que na altura de comer todo este esforço compensa, porque sabemos o que estamos a comer e que estamos a fazer as melhores opções, há alturas em que sinto algum desgaste e até mesmo saturação, especialmente porque, e de certeza que vocês também já sentiram isto, fico com a sensação de que a minha alimentação é "vira o disco e toca o mesmo". De tão regrada e saudável que tento ser, acabo por esgotar as ideias, especialmente para o pequeno-almoço. Já sentiram o mesmo?

   É certo que quem corre por gosto não cansa e que prefiro ter todo este desgaste e comer aquilo que gosto e não me faz mal do que estar dependente de refeições de terceiros (sempre fui muito anti comer comida que não a de minha casa) ou de opções forçadas porque não há mais nada. Mas que há dias em que ser healthy cansa e não apetece mesmo nada, lá isso há.

«O Pintassilgo», Donna Tartt

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Vencedor do Prémio Pulitzer de Ficção 2014, um dos mais importantes galardões mundiais.   "O Pintassilgo" é um livro poderoso sobre amor e perda, sobrevivência e capacidade de nos reinventarmos, uma brilhante odisseia através da América dos nossos dias, onde o suspense e a arte são dois elementos decisivos para agarrar o leitor.   «O Melhor Livro de 2013» segundo a amazon.com«Um dos 10 Melhores Livros de 2013» – The New York Times   Theo Decker, um adolescente de 13 anos, vive em Nova Iorque com a mãe com quem partilha uma relação muito próxima e que é a figura parental única, após a separação dos pais pouco antes do trágico acontecimento que dá início a este romance. Theo sobrevive inexplicavelmente ao acidente em que a mãe morre, no dia em que visitavam o Metropolitan Museum. Abandonado pelo pai, Theo é levado para casa da família de um amigo rico. Mas Theo tem dificuldade em se adaptar à sua nova vida em Park Avenue, e sente a falta da mãe como uma dor intolerável. É neste contexto que uma pequena e misteriosa pintura que ela lhe tinha revelado no dia em que morreu se vai impondo a Theo como uma obsessão. E será essa pintura que finalmente, já adulto, o conduzirá a entrar no submundo do crime.

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   São quase 900 páginas que valem realmente a pena ser lidas. É um Pulitzer 2014 e percebe-se verdadeiramente porquê. É um daqueles livros que quase desde a primeira página nos deixa com aquela sensação de estarmos a ver um filme, muito mais do que a ler um livro. Realmente envolvemo-nos com as personagens, especialmente com Theo Decker e sabemos que o fim não vai ser estrondoso, mas vai ser com certeza bom porque vai parecer real e não saído de uma história de ficção.

   Fiquei curiosa com esta autora.

 

Por cá tudo na mesma...

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É só isto que eu não compreendo no nosso país. Há greves e manifestações de todos os tipos e grupos, cidadãos revoltados, um povo na miséria, classes profissionais que só sabem apontar o dedo acusador ao governo, gente e mais gente que se queixa e queixa e queixa e queixa... Durante anos levamos com os portugueses revoltados e que afirmam não aguentar mais. A culpa é sempre do governo, do coelho e de todos os ladrões que o acompanham. E depois chega este dia e o que é que esse mesmo povo que se queixava e revoltava e manifestava faz? Isso mesmo, garante que tudo continuará na mesma ou pior. E eu só me pergunto: que legitimidade tem o português para amanhã estar a reclamar seja do que for quando é ele que permite a continuidade de tudo aquilo que ainda ontem estava mal, mas que hoje parece já estar "ok, isto serve"? Eu assumo aqui que não fui votar. É verdade, atirem-me todas as pedras que sou um péssimo exemplo de cidadã. Não votei. A razão é simples: o nosso voto deve ser sempre uma questão de princípios. Devemos votar naquilo que acreditamos e naquilo que para nós faz sentido. Até hoje nunca nenhum partido político fez sentido para mim. Eu acredito nas pessoas e sei que um dia que vá votar será na pessoa, independentemente das cores que veste. Este ainda não foi o ano. Nenhum deles me convenceu. Nenhum deles me disse nada. Mas também nenhum deles me ouvirá acusá-los. Eu sei que não fiz nada para tentar mudar o cenário em que vivemos. Eu sei que se todos pensarem como eu isto era a república das bananas. Mas eu também sei que não votar também é um direito que me assiste. E sei, acima de tudo, que o povo português é um excelente exemplo desse ditado também tão português do "cão que ladra não morde". Eu não votei. Mas também não faço greve, não participo em manifestações, não desgasto os meus dias a acusar os ladrões do governo por todo o mal que me acontece para chegar ao dia 4 de Outubro de 2015 e confirmar que aquilo não presta mas está bom para mim. Realmente, somos um povo complicado... E eu se fosse governo estava neste momento a rir- me a bandeiras despregadas na cara de todos os portugueses. O que quer que aconteça daqui para a frente, fomos nós, portugueses, que pedimos.

1 mês depois

   Não é um balanço de 1 mês das minhas novas funções. É mais um reflectir sobre o que este primeiro mês significou para mim. Faz sentido fazê-lo, apesar de ser ainda tudo muito recente. Continuo em aprendizagem, hoje e sempre. Continuo a falhar, a sentir-me perdida em determinados momentos, a viver situações em que fico mesmo com aquela cara de "e agora o que é que eu faço?". Continua a ser tudo novo para mim. Continuo a sentir falta das minhas antigas funções. Mas já algo mudou em mim. Adaptei-me, conformei-me, mentalizei-me e diariamente tenho percebido que isto pode realmente ser uma experiência boa para mim. Aos poucos começo a sentir-me em casa, começo a sentir que aqueles idosos me respeitam, me procuram. Já rimos juntos, já brincamos, já desabafamos. Começo a perceber que é fundamental saber impôr-me. E confirmo a minha certeza de que o mais difícil do meu trabalho é gerir as pessoas e não os problemas, mas que o segredo para a solução passa muito por saber ouvir, manter a calma e conversar sobre as coisas.

   Ainda só passou um mês, mas é o suficiente para dar o braço a torcer, como se diz na gíria, e admitir que ao contrário do que esperava ou supus sem conhecimento dos factos, até estou a gostar do que faço e tenho dias em que regresso a casa com a sensação de "fiz o que devia/podia e só por isso o dia correu bem". Afinal, estamos a falar de um desafio e nisso eu não gosto nada de falhar.

Dia Internacional do Idoso

«(…) sabes, rapaz, nós estamos para aqui metidos como animais domésticos, limitados e cheios de necessidade de cuidados, é verdade, e somos de facto parecidos com miúdos, porque vamos ficando atrapalhados das ideias, muito cansados para seguir com as coisas todas, e confundimo-nos constantemente, fazendo asneiras que não se esperam de adultos, mas somos, sobretudo quando estamos sossegadamente sentados, adultos, e metemos cá dentro da cabeça uma experiência de uma vida inteira que já viu de tanta coisa. Às vezes, avançando já a parte da senilidade a que vamos sucumbindo, podias aproveitar um pouco mais a nossa amizade, porque estamos a anos-luz da tua idade, mas temos um passado que é genericamente o teu presente e o teu futuro (…)» (Valter Hugo Mãe, “A máquina de fazer espanhóis”)

Hoje, como nunca antes, vivemos mais. A esperança média de vida para cada um de nós parece não parar de crescer, com todas as implicações positivas e negativas que isso acarreta. Como vivemos mais, envelhecemos mais e durante mais tempo. O processo de envelhecimento é universal, gradual e irreversível, referindo-se a um conjunto de mudanças e transformações que ocorrem com a passagem do tempo. Começamos a envelhecer no dia em que nascemos e enquanto a vida nos sorri, desejamos poder continuar a envelhecer por muitos e muitos anos. Envelhecer é bom, desde que seja um envelhecimento feliz. Quem não gostaria de chegar aos 100 anos cheio de vitalidade, saúde e vontade de envelhecer ainda mais? Infelizmente, envelhecer e ser velho (termo que utilizo com todo o respeito e humanidade que dedico aos nossos “mais velhos”) nem sempre é uma experiência feliz.

O número de pessoas ditas idosas não para de crescer e diariamente nos questionamos e preocupamos com as consequências destes números. É preciso cuidar dos nossos velhos, dizem os entendidos, e cada vez mais parece ser uma realidade que este país não é para velhos. Questionar o muito ou pouco que se faz pelos mais idosos não é a minha função ou pretensão, mas enquanto técnica e sobretudo enquanto pessoa que respeita e admira os nossos velhos, preocupa-me, mais do que o saber cuidar, o querer olhar por eles e para eles, dignificando-os, humanizando-os, respeitando-os e dando-lhes atenção, afecto e, porque não, amor. Preocupam-me aqueles que envelhecem sozinhos, abandonados ou negligenciados, como se por estarem na última etapa das suas vidas não merecessem tudo aquilo que um ser humano merece. Uma sociedade que esquece os mais velhos não é uma sociedade da qual nos devemos orgulhar de fazer parte. Fazer do envelhecimento uma história com um final feliz está nas mãos de todos nós que convivemos diariamente com esta realidade, seja nas nossas casas, seja no nosso trabalho. Tempo (de vida) é aquilo que lhes parece escapar entre as mãos e, por isso, tempo é o que temos de lhes dar. Tempo para estarmos lá e os ouvirmos; ouvirmos as suas histórias repetidas até à exaustão, as suas experiências, as suas preocupações, os seus medos, os seus desejos, se é que ainda lhes é permitido esperar algo mais da vida, as suas queixas, ainda que sem fundamento, as suas birras, as suas cismas, as suas constantes chamadas de atenção.

«(…) afinal, estamos velhos e temos de morrer, um primeiro e outro depois e está tudo muito bem. Sorriem, umas palmadinhas nas costas, devagar que é velhinho, e depois vão-se embora para casa a esquecerem as coisas mais aborrecidas do dia. Onde ficamos nós, os velhinhos, uma gelatina de carne a amargar como para lá dos prazos.»

(Valter Hugo Mãe, “A máquina de fazer espanhóis”).

Numa época de frenesim e minutos contados, onde ficam afinal os velhinhos? Numa impessoal cama de hospital durante dias intermináveis após a alta clínica? Na solidão das suas casas? Depositados num lar que nunca será o seu verdadeiro Lar? E nós, qual o nosso papel? Já sabemos que não podemos mudar o mundo, por maior que seja a nossa vontade. Mas o que às vezes nos esquecemos é que podemos fazer realmente a diferença no pequeno mundo de alguém que já viveu tanto que julga que agora não pode pedir nada mais que a solidão de um sofá ou de uma cama onde os dias se arrastam sem significado a caminho de uma morte que parecem desejar mais do que tudo, porque afinal já perderam mesmo tudo.

Na nossa vida e no nosso trabalho com os idosos deixo-vos um novo ideal: não chega sorrir-lhes; vamos arrancar a cada um deles, todos os dias, um sorriso. Eu sei que todos nós somos capazes de o fazer. Por eles e por nós. Porque afinal, os idosos de amanhã somos nós.

 

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