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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Elogio da futilidade, segundo a pipoca mais doce

 

Há uns tempos, numa entrevista a propósito do blog, perguntavam-me se eu assumia a futilidade. Claro que a pergunta não era inocente. Saiu da boca da jornalista já carregada de preconceito, como se ter um lado fútil fosse, provavelmente, a pior coisa que nos pode acontecer nesta vida, Deus-nos-livre-e-guarde. Aparentemente, só devemos ter na cabeça assuntos de alto relevo para a humanidade. E tudo o que não passe por economia, política ou filmes de Godard, então é fútil e não interessa. Pois, tenho muita pena. Tenho um lado fútil na minha vida, e se isso incomoda muita gente, é para o lado que durmo melhor e mais aconchegadinha. Eu sei que é uma tristeza de todo o tamanho gostar de sapatos e roupa bonita, de ir a spas e de me enfiar numa avião sempre que posso (haja tempo e dinheiro), quando o que eu devia era estar fechada em casa a desenvolver grandes teorias sobre a existência humana, mas que fazer? Deu-me para isto, e desconfio que não há cura que me resolva esta doença. O que verdadeiramente chateia as pessoas, tenho para mim, é que uma pessoa goste de sapatos mas também goste de ler. Que goste de vestidos mas também esteja atenta ao que se passa no mundo. Que passe a vida nas compras mas que também tenha dois dedos de testa. Toma-se a parte pelo todo porque, para muito boa gente, não é possível ter-se só um lado fútil. Não, se gosta de futilidades, então é fútil por completo e acabou-se. Espeta-se-lhe com o rótulo de tontinha, porque é demais assumir (e perceber) que uma mulher possa ser feminina e inteligente ao mesmo tempo (oh, grande heresia!). Pois é. Mas eu acho (e sei) que sou as duas coisas. Não abro mão das unhas pintadas, como não abro mão das notícias. E se ambas podem coexistir pacificamente no mesmo mundo, porque é que tenho de optar? Há poucos dias tive a oportunidade de entrevistar uma escritora holandesa que teve um cancro gravíssimo aos 21 anos. No livro que lançou, escreveu toda a experiência dolorosa de quimioterapia e tratamentos agressivos, a perda de cabelo, a falta de esperança. Mas tudo isso foi intercalado com os seus episódios sobre namorados, festas, roupa e viagens. Falei-lhe  desse facto, da capacidade para se abstrair da doença, e ela respondeu-me de forma interessante: “As pessoas ficaram um bocadinho surpreendidas por escrever sobre sapatos quando tinha um cancro. Suponho que devia apenas limitar-me a falar de vida e de morte, mas eu continuava a ser uma mulher de 21 anos que se preocupava com namorados e em estar bonita”. Pois é. Será assim uma coisa tão transcendente ter mais do que um interesse na vida? E será assim tão estranho continuar a querer saber de coisas fúteis mesmo que o mundo à nossa volta esteja a desabar e que um cancro nos esteja a devorar os pulmões? Qual é, afinal, o grande mal de ter coisas que nos alegram o dia, se essa é apenas um lado da nossa vida, um entre tantos? Nenhum, não há mal nenhum. Excepto para pessoas cinzentonas e ensimesmadas, pessoas a quem a boa disposição alheia incomoda mais do que a fome em África (e olhem que há muitas). Essa sim, é a verdadeira futilidade. O que não interessa.

 

daqui