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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Um local chamado bairro social

imagem retirada da internet

 

 

   O meu actual trabalho tem me permitido conviver e conhecer a realidade dos tão falados bairros sociais. A verdade é que nestes assuntos não podemos cair em generalizações e, muito menos, partir com estereotipos ou ideias pré-concebidas. De facto, um bairro social possui uma dinâmica muito particular, que nos conduz à ideia de uma certa "cultura de bairro" da qual, uma vez lá inserido, é muito difícil se desligarem. Nestes locais há uma série de comportamentos e formas de viver comuns que, por lá, são socialmente aceites e convenientes para uma completa integração. Para os que lá chegam vondos do "exterior" a confrontação com a vida in locu pode não ser fácil, principalmente porque tudo o que nos chega relativamente a esses meios tende a ser negativo e sempre negro, o que não reflecte de todo a verdadeira realidade.

   Há, de facto, bairros onde não nos conseguimos sentir seguros. Lembro-me de no meu primeiro dia de trabalho ter ido fazer uma visita domiciliária. Como era o meu primeiro dia acompanharam-me até à dita casa, mas o regresso ao centro social fi-lo sozinha, atravessando a pé um dos piores bairros da cidade no que a consumo e tráfico de droga diz respeito. Fi-lo olhando sempre em frente, pois olhar para trás era demosntrar insegurança, com os ouvidos em estado máximo de alerta e identificação bem visível, afinal é isso que nos vai "protegendo" nestes locais.

   Depois desse primeiro dia muitos outros se sucederam e cada um com um à vontade cada vez maior, que não significa nunca sentimento de segurança. Simplesmente vamos aprendendo a saber estar naqueles locais, mesmo que isso implique andar sempre com a chave do carro num bolso e o telemóvel no outro, ou trabar o carro para idas da mala à porta do passageiro e desta ao lugar do condutor. Hoje não me amedronta ir para aquele centro social onde à porta se está consumir e a vender droga. Aliás, não passo por lá sem um "Olá, boa tarde, como estão?". Não fico a olhar para o ar sempre que ouço alguém gritar "água", pois não há risco de levar com um balde dela na cabeça. No máximo poderei levar com alguma rajada de tiros ou algumas doses dos mais diversos produtos, já que ouvir gritar "água" é o mesmo que ouvir "bófia a entrar no bairro". Na verdade, incomoda-me muito mais saber que ali no bairro que era tão mau que acabou por ser destruido e onde agora só estamos nós, meia dúzia de casa e muitas recordações, tem sido visto uma cobra com corpo para mais de 150 cm.

   No fundo, ter a oportunidade de "entrar" na dinâmica de um bairro social é uma oportunidade única. Em conversas com pessoas que já trabalham nestes mundos há anos vou ouvindo sempre o mesmo género de comentários: "nunca houve problemas connosco", "todos nos respeitam" ou "é um trabalho extremamente enriquecedor". E a regra é esta: quanto mais "perigoso" e "pior" o bairro, maior o nosso enriquecimento, pois é ali que mais precisam de nós.

   Quase 3 meses depois do primeiro dia é precisamente isto que sinto a cada regresso a casa; aquelas 7 horas naqueles locais foram tão cheias de tudo o que é a vida, ensinaram-te tanto do que nunca se aprende nos livros ou na televisão, que só posso sorrir ao pensar que amanhã lá estarei: um bairro diferente, gentes diferentes, histórias diferentes, perigos diferentes, mas sempre com a certeza de que nessa noite dormirei muito mais plena.

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