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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Foi há 13 anos e é para sempre

 

Retirado daqui : http://www.josesaramago.org/detalle.php?id=1393

 

A 8 de Outubro de 1998, quando estava a ponto de embarcar, uma assistente de bordo comunicou a José Saramago que lhe havia sido atribuído o Prémio Nobel de Literatura. O escritor abandonava Frankfurt após ter assistido a algumas sessões na feira do livro. De bagagem ligeira, como sempre viajou, com a sua pequena mala e a sua gabardina, José Saramago fez o caminho de regresso ao terminal por um corredor deserto. Ali, durante uns minutos, um homem só, sem possibilidade de comunicar com ninguém, fez-se a pergunta que explica quem era e de que matéria estava feito: “Tenho o Prémio Nobel e quê?”. Nesse corredor do aeroporto de Frankfurt, José Saramago relativizou também o maior galardão que um escritor pode receber. Por isso, cumpridas as suas obrigações de laureado, regressou à escrita com o seu livro mais cruel para com a sociedade que habitamos: A Caverna. E após este, outros dez livros, uma biblioteca redonda, que manifestam a vontade criadora e a força de José Saramago, o homem que alheio ao que se passava ia com a sua pequena mala e a sua gabardina a caminho de casa, quando se lhe cruzou a Academia Sueca com o Prémio Nobel para a imaginação, a compaixão e a ironia. Para José Saramago.

 

 

Nas palavras de Eduardo Prado Coelho

 

Podemos às vezes pensar que a literatura se vai converter numa coisa do passado, destroçada pela voragem das imagens precipitadas, massacrada pelo clamor eufórico das novas tecnologias, em que o livro, e o silêncio à volta do livro, e a luz desse silêncio, e o murmúrio em nós dessa voz silenciosa, tenderiam a ser substituídos por uma espécie de algazarra comunicativa em que nada fica de comum naquilo que se comunica. Podemos cair nessa espécie de pessimismo, e temos razão nisso – aliás, Saramago tem sido um dos mais perseverantes na denúncia desses perigos. E, no entanto, o milagre acontece: é possível que o Prémio Nobel atribuído a um escritor se torne em inédito motivo de orgulho nacional, a tal ponto que se pôde transformar em motivo de controvérsia saber se o Prémio era um prémio apenas de Saramago, ou se era um prémio que pertencia a todos nós, portugueses (e mesmo aos falantes da língua portuguesa espalhados pelo mundo). É possível que de súbito se possa afirmar, não que a literatura desceu à rua, mas que a literatura subiu à rua. É possível, portanto, que um país se levante em alegria porque alguém ganhou um prémio de literatura. É possível que um escritor invente uma energia nova para a palavra «levantar». Mas Saramago deu-nos a explicação: há momentos em que tudo parece possível; este é um desses. Sabemos bem que se trata de uma quimera. Mas a vida não fazia sentido sem momentos destes: como toda a obra de Saramago prova, o «não» de uma ficção, inventada pelo obscuro e insubmisso gesto de um revisor, deverá sempre ser mais forte do que o «sim» de qualquer realidade pragmática