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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Histórias com gente dentro

 

   A Sra. A., de 89 anos, era uma senhora hiper-activa, autónoma, independente, culta, inteligente, antiga funcionária da C. M. Porto num cargo de chefia e muito, muito interessante. Um dia, há cerca de um ano, ao levar o cão companheiro de uma vida a passear caiu e, verdadeiro drama das mulheres, fracturou a anca, com necessidade de prótese. A cirurgia correu bem, a recuperação correu mal e a Sra. A. não voltou a caminhar. Não se conformando, pediu para ser novamente operada para corrigirem o erro. Contra todas as expectativas médicas e da família, esforçou-se e esfolou-se em fisioterapias e empenho pessoal. Nós últimos 5 meses passou da cadeira de rodas para o andarilho, recuperou grande parte da sua autonomia e a 22 de Maio, aquando da minha última visita, mostrava-me como já era capaz de caminhar de mão dada com alguém, referindo que em menos de um mês estaria a andar só com uma bengala. Lembro-me das últimas palavras antes da despedida: "Oh, Dra., o meu filho está com a mania que eu tenho Parkinson, acha mesmo? Eu sinto-me óptima!".

   No dia 22 de Maio, às 17h, a Sra. A. sofreu um AVC muito grave enquanto lhe faziamos a higiene da tarde. Hoje fui vê-la.

   Hoje, um mês depois da última visita, a Sra. A está acamada, hemiparética do lado direito e incapaz de falar. O seu estado é muito grave e os médicos não deram qualquer perspectiva de recuperação (não vale a pena internamento em unidades de cuidados continuados, não vale a pena fisioterapia, não vale a pena terapia da fala). O filho não se conforma e proporciona à mãe fisioterapia em casa e estimula-a verbalmente todos os dias. A Sra. A. tem um ar de sofrimento que me apertou o coração. Aquele olhar dizia tanto, dizia tudo o que não é capaz de expressar por palavras.

   Sai de lá com a certeza cada vez mais firme de que tudo pode mudar...de um minuto para o outro.