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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Razão sensível para uma sociedade grisalha

“Se o idoso se suja, berra-se com ele, se anda devagar, que se despache, se não quer tomar banho, tem de ser à força.”

Catalo dos Santos, Leal & Leal, 2005, pág.14 

   Quantas vezes já não ouvimos ou mesmo presenciamos estas ideias e atitudes?

   Numa sociedade cada vez mais grisalha facilmente detectamos uma escassez de paciência e dedicação às pessoas mais velhas. Ainda que isso nos incomode, é preciso falar da realidade tal como ela é: este país (ainda) não é para velhos. O preconceito, a discriminação, o abandono e a falta de assistência aos idosos prevalece de forma bastante flagrante na nossa sociedade e surge diariamente. Esquecem-nos que os nossos e nós também vamos envelhecer, assumimos uma representação do idoso com alguém incapaz, incompetente e passivo e deixamo-los na sua solidão final, entre as recordações do que já foi e já foram e a incerteza do que virá (e isto quando a doença não lhes rouba também esta capacidade).

   Quando trabalhamos com idosos e retiramos desse trabalho o nosso vencimento mensal, a razão, enquanto faculdade do homem que lhe permite conhecer, raciocinar e agir, facilmente se poderá sobrepor às emoções e sensibilidade humana. Trabalhar com idosos exige sermos capazes de encontrar o equilíbrio perfeito entre aquilo que somos e aquilo que temos de fazer e aquilo que o outro precisa, ou seja, o equilíbrio entre a razão e a emoção/sensibilidade. Exige sermos capazes de identificar e privilegiar aquele laço invisível mas fundamental que liga um indivíduo ao outro e que conduz à partilha de experiências e sentimentos comuns.

   Pensar o ser humano apenas em termos racionais, enquanto objecto de trabalho, por exemplo, ou enquanto alguém a quem prestamos um serviço pelo qual somos pagos, é desumanizá-lo. É sermos pessoas sem capacidade de sentirmos pessoas. A dimensão afectiva não pode ser esquecida. Citando Michel Maffesoli, “ à moral do «deve ser» poderia suceder uma ética das situações. Esta será atenta à paixão, à emoção, numa palavra, aos afectos de que estão impregnados os fenómenos humanos”. Temos aqui uma espécie de razão sensível que nos torna mais humanos e nos dota de uma sensibilidade generosa, que nos ajuda a compreender a alma humana do outra e a direccionar a energia social e individual para um mesmo objectivo: a dedicação ao outro, que o faz perceber que afinal ainda vale a pena viver e que são muitas mais que um corpo inútil, gasto, dependente e só.

   Quando parecem não existir quaisquer garantias ideológicas, religiosas, institucionais e políticas e nos sentimos cansados dos grandes e inquestionáveis valores culturais que moldam uma sociedade que se diz moderna mas que está impregnada de falhas e carências, talvez seja preciso apostar na sabedoria relativista e emocional que saber que nada é absoluto e que dá à sociedade a possibilidade de se recriar a partir da experiência sensível que nos torna pessoas capazes de sentirem pessoas. Os nossos idosos precisam de se “sentirem sentidos”, precisam de uma palavra e de ouvido amigos, precisam de sorrisos, do conforto que vai para além do proporcionado por um banho ou por uma refeição; precisam do calor de toque, precisam que olhem por eles mais sobretudo para eles; precisam de 15 minutos de dedicação e atenção, porque muitas vezes isso é tudo o que lhes enche os dias.