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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Histórias com gente (e guerra) dentro

   Tenho lido alguma coisa sobre o Ultramar e sobre os nossos portugueses que foram para lá combater e a maior parte das vezes não consigo deixar de ficar impressionada com o que fico a conhecer e com os relatos de quem por lá passou.

   Ao longo da vida todos nós conhecemos uma ou outra pessoa que "estiveram na guerra", uns mais comunicativos que outros sobre essa fase das suas vidas. Graças à minha profissão tenho contactado mais de perto com ex-combatentes e alguns deles têm conversado comigo abertamente sobre essa época. O que eu nunca tinha conhecido era um ex-combatente que trouxe a pior das feridas da guerra: a perturbação de stress pós-traumática. Já tinha conhecido um ou outro que diziam sofrer desse mal, mas que sempre se mostraram mais ou menos organizados. Recentemente recebemos num dos nossos centros de dia mais um ex-combatente com esse diagnóstico. Até ontem nunca me tinha apercebido no Sr. A. nada longe do que habitualmente encontro nestas pessoas. Até ao Sr. A. começar a gritar frases como "Chega-me a arma, chega-me a arma, estamos a ser atacados" ou "baixem-se, protejam-se", enquanto chorava como um bebé e alternava entre momentos de total alucinação e de consciência do seu estado. Mas o que mais me impressionou foram os relatos sofridos que depois o Sr. A. me fez de alguns momentos por que passou em Angola...os combates, os ataques, a morte dos seus companheiros e do povo...e tudo isto enquantochorava compulsivamente e me questionava "E para quê? Para quê, doutora?"...

   Todo o sofrimento humano é questionável, mas este sofrimento, o sofrimento da guerra, deve ser daquelas feridas abertas que nunca cura e que não mais nos deixa viver...como o Sr. A. ontem me dizia "isto está cá dentro, eu estive lá, eu matei e vi morrer, eu estive lá, e agora isto está cá dentro da minha cabeça e nunca sai, nunca sai, nunca vai sair, percebe?". Não sei se percebo, Sr. A., porque felizmente nunca passei por uma experiência tão traumática, mas respeito-o e partilho um bocadinho do seu sofrimento, que é a única forma de ajuda que tenho para lhe oferecer.

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