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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Da morte

«Com a morte, também o amor devia acabar, acto contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de quaçquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir. Pensamos, existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humihante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade. E não é compreensível que assim aconteça. Com a morte, tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. Esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder. Foi como se me dissessem, senhor silva, vamos levar-lhe os braços e as pernas, vamos levar-lhe os olhos e perderá a voz, talvez lhe deixemos os pulmões, mas temos de levar o coração, e lamentamos muito, mas não lhe será permitida qualquer felicidade de agora em diante (...)»

"A máquina de fazer espanhóis", Valter Hugo Mãe 

   Li este parte do livro no mesmo dia em que fui ao funeral de uma tia minha, que faleceu aos 81 anos, vítima de doença. Fez-me ainda mais sentido do que o imenso sentido que este excerto tem só por si e sem qualquer contextualização. Não tanto pelo significado que esta morte teve para mim, já que tenho aquela forma "diferente" de encarar a morte fruto de quem lida com ela diariamente, principalmente quando se trata de uma morte que já há muito se sabia ser inevitável, mas sobretudo porque ao morrer a minha tia deixa viúvo o marido, de 84 anos, que perdeu assim o sentido da vida. Casados há mais de 50 anos e sem filhos, tinham-se um ao outro, na saúde e na doença, até ao fim das suas vidas (ou pelo menos da vida de um deles). Apesar da idade eram um casal muito ativo até aos últimos dias e completamente saudáveis do ponto de vista cognitivo. Acontece que o meu tio era totalmente dependente da minha tia, daquela dependência doentia e perigosa agora que ela já não está connosco. Acredito que neste momento não existam palavras capazes de conter todo o sofrimento por que ele está a passar e compreendo perfeitamente as suas palavras quando desesperado diz "agora estou sozinho". Para quem vive mais de 50 anos ao lado de uma mesma pessoa, num amor que só pode ser puro e verdadeiro, nada mais existe agora que a solidão, aquela solidão que nenhum familiar poderá preencher e que o vai matando um pouquinho mais a cada dia. E, de fato, por muito que se lamente, acredito que, desde aquele dia em diante, não voltará a sentir qualquer felicidade. Afinal é disto que é feita a vida e as grandes histórias de amor.