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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

"Vivi, confesso que vivi..."

   Hoje conheci a Sra. C., que começou esta semana a frequentar um dos nossos centros de dia. Esta poderia ser apenas mais uma utente, já vem até ao centro de dia para evitar passar tanto tempo sozinha em casa. Até aqui tudo normal. Tudo normal até nos sentarmos a conversar com a Sra. C. e nem darmos pelas horas passar (sim, horas!).

   Assim que me sentei e me apresentei e trocamos as primeiras palavras, pressenti que aquela não ia ser mais uma daquelas conversas típicas da velhice que passam sempre pela doença, pela solidão e pela tristeza por tanto sofrimento. A Sra. C., dona de uns lindos olhos azuis mar, foi confrontada há pouco mais de 2 meses com um diagnóstico de cancro do pulmão num estado avançadíssimo, daqueles que não deixam muito espaço à esperança. Ainda assim, a Sra. C. não desmoralizou. Foi à luta, está na luta, e aceitou realizar algumas sessões de quimioterapia a título quase experimental, não porque acredite no milagre da cura, mas porque talvez se consiga "trancar" o cancro, porque ela gostava de viver mais alguns anos, "na minha casa, com as minhas coisas e a minha vida". Não há tristeza na sua voz, não há o "ai meu deus, porquê me tinha de acontecer isto a mim", não há o medo de partir. Há a vontade de continuar a viver, porque gosta de viver, de cá andar. E de dançar. Adora dançar. E as suas palavras parecem que nos envolvem ali numa dança quase perfeita, guiados por alguém que já viveu tanto e que agora, nisto que podem ser os seus últimos momentos, nos diz, mais que uma vez: "mas eu vivi, vivi muito. E vivi exatamente a vida que queria, tive tudo o que de bom a vida me podia dar e também coisas muito más que me ensinaram a viver e continuar sempre a lutar". E os seus olhos transmitem precisamente este estado de plenitude com a vida, que nem sempre foi boa, mas que soube sempre transformar numa vida cheia. Não foi uma boa vida, não foi uma vida fácil, mas foi uma vida que soube levar de tal forma que nunca, por uma só vez, lamentou o que quer que fosse.

   À despedida, e para que não ficassem dúvidas: "a minha maior asneira foi ter fumado desde os 15 anos até há 2 anos atrás. Agora estou a pagar por isso. Mas acredite que vivi uma vida cheia de vida. Foi a vida que sempre desejei". À saída, a promessa de voltarmos a conversar na próxima semana, mas desta vez "só lhe vou contar sobre as minhas malandrices".

   Há pessoas fantásticas neste mundo e eu tenho tido a oportunidade de conhecer tantos exemplos, que cada vez percebo melhor o porquê de ter a profissão que tenho.