Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Histórias com gente dentro...e recordar é viver...

   Há pessoas que têm uma forma fantástica de viver a vida. Todos nós já ouvimos falar delas e alguns até já tivemos o prazer de conhecer e conviver com exemplos destes. Quando a velhice chega e a solidão nos ataca, fica mais difícil continuarmos a ser essas forças da natureza, até porque já perdemos muito daquilo que se pode e antes chamavamos vida e viver. É a solidão, é a perda de quem nos é mais querido, é a doença, é a perda de capacidades, é a perda de autonomia...é uma lista interminável de perdas que nos fazem sentir cada vez menos vivos. Quando a velhice chega, passamos a viver de memórias e recordações, o que não é fácil para muita gente, pois nem todos sabemos lidar pacificamente com o que já foi e não voltará nunca mais a ser. 

   Mas se, chegada determinada fase da nossa vida, a recordação é tudo o que temos, porque não compilar, literalmente, todas as recordações que temos daquilo que foi o nosso viver?

   Ontem fui visitar novamente o Sr. A.M.B. 96 anos, viúvo há cerca de 4, daqueles que teve apenas uma companheira para a vida e que vai chorar a sua morte até ao fim dos seus dias, vive sozinho, tem uma filha muito presente, o filho morreu no ultramar, mais um desgosto que nunca ultrapassará, autónomo, independente, mentalmente activo, intelectualmente desafiante, daquelas pessoas com quem dá gosto conversar tamanho é o desafio e o interesse das nossas conversas. O Sr. A.M.B. teve uma vida cheia, cheíssima! Cheia de gentes, de momentos, de festas, de experiências, de estudos, de exposições, de trabalhos congratulados até com menções honrosas...O Sr. A.M.B. teve uma vida que qualquer um gostaria de ter vivido. Hoje a sua vida está vazia de experiências e de gentes, que já morreram na sua maioria, mas cheia, cheíssima de recordações. Recordações essas que ele está, literalmente, a compilar, em verdadeiros albúns de recordações. 

   Primeiro foram as fotografias, de que sempre tanto gostou. Após a morte da esposa começou a construir um álbum com fotografias da esposa ao longo de toda a vida, desde bebé até aos últimos retratos de quando ela ainda não estava doente (não é com a doença que ele quer continuar a recordá-la). Desse álbum passsou para um albúm sobre o filho falecido cedo demais, depois a filha, depois um albúm familiar...e fomos passando longas horas de conversa à volta daqueles albúns, daquelas fotografias e das histórias tão cheias que cada fotografia contém.

   Agora que as fotografias começam a esgotar-se, resolveu passar para recordações do seu trabalho. Mais fotografias dos seus excelentes trabalhos, das suas exposições, ao que se juntam críticas em jornais, menções, opiniões, cartas de amigos...foi esta a nossa viagem de ontem.

   Para mim, este é um excelente exemplo de saber viver a vida quando a vida já tem pouco para nos dar. Não é viver no passado, nem do passado. É viver recordando o que já vivemos, o que já fomos, quem já tivemos, o que já tivemos...é acabar a vida cheios da vida que nos encheu os dias, é viver recordando e já dizia o outro que recordar é viver...e de que maneira, e de que maneira!