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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Prisioneiros do próprio corpo

   No hotel onde passei estes dias de descanso decorreu um encontro de familiares e doentes com ataxia. A Ataxia é uma doença neurodegenerativa que provoca uma forte e inevitável perda da coordenação e movimento de todos os músculos do corpo. Tudo acontece nas regiões do sistema nervoso responsáveis pelo controlo muscular dos movimentos e as manifestações (ou consequências) afectam gradualmente diversos movimentos corporais, começando na maior parte dos casos pela coordenação das pernas e, portanto, pelo andar. Do andarilho à cadeira de rodas, das pernas aos braços, e daí a todos os músculos do nosso corpo. Não há um que escape. A dada altura a nossa face perdeu toda a expressão, a cabeça não é mais capaz de permanecer erguida, a boca teima em não fechar e até as pálpebras são demasiado pesadas para as mantermos abertos.

   Foi este o cenário a que assisti durante 3 dias. Jovens, jovens demais, e adultos de meia idade, prisioneiros do seu próprio corpo, agarrados a uma cadeira de rodas, totalmente dependentes de terceiros. Enquanto uns corriam nos campos de ténis e paddle e outros se atiravam para a piscina, eles continuavam nas suas cadeiras de rodas, olhar perdido e mente sabe-se lá onde, cada um não sabendo como será o dia seguinte: será que a mão ainda vai mexer, será que conseguirei comer sozinho, será que já não poderei falar?

   Num desses dias um grupo de jovens atáxicos foi meu "vizinho" na piscina. Demasiado jovens, demasiada vida perdida, demasiada vida que ficará por viver, porque um dia os músculos fundamentais para as funções básicas serão também afectados. Entre um e outro olhar mais justificadamente triste, os risos e sorrisos foram uma constante. Para muitos já não havia um sorriso esboçado na face, mas exteriorizavam-no com sons de felicidade. Estavam em amena cavaqueira uns com os outros, contando piadas, gozando, vivendo. Os que podiam tiravam fotos, os que não podiam pediam para tirar. Todos diziam "Me voy a bañar" e lá usufruiam das excelentes condições proporcionadas pelo hotel para pessoas com mobilidade reduzida. Eram jovens com destino marcado, mas não os vi lamentarem-se (ao contrário dos seus pais), não os vi resignados à sua doença. Arranjavam-se todas as noites para o jantar, de dia vestiam bonitas roupas de praia, esticavam-se nas espreguiçadeiras e conviviam.

   Ao olhá-los dei por mim a pensar no que somos e no que poderemos ser. Dei por mim a amaldiçoar todas as vezes que lamentei de alguma forma qualquer momento da minha vida. Muito do que diariamente vivemos não é nada quando comparado com o que aquelas pessoas têm de viver. Os nossos dias são uma benção quando comparados com a batalha que cada dia representa para aqueles, e outros, doentes. Por isso, vamos pôr os olhos naqueles e noutros seres que lutam e lutam todos os dias para vencerem inimigos invencíveis. Vamos agradecer seja a quem ou ao que for pela vida que temos, pela liberdade de escolha, de movimentos, de pensamentos, de sentimentos. Ninguém sabe o que o dia de amanhã lhe reserva, mas, para alguns, o dia de amanhã trará um destino pior do que o de hoje. Para alguns, o dia de amanhã não é mais um dia de vida, mas sim menos um dia na sua breve passagem por este mundo. E esses continuam a sorrir e a viver. Esses são o exemplo do verdadeiro VIVER.

 

   Um bem-haja a todos aqueles que sofrem com uma doença que os arrancará à vida e mesmo assim continuam a sorrir, a sorrir, a sorrir...

2 comentários

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    `Na 18.06.2009 00:36

    Olá Rita

    Antes de mais obrigada por visitares este meu cantinho. És sempre bem vinda.
    Quanto à tua "cusquice", posso dizer que o meu trabalho tem dias de psicóloga e tem outros em que a psicologia passa um pouco ao lado. De facto, hoje em dia a empregabilidade está reduzida, não só para psicólogos, mas para a generalidade dos cursos. A psicologia também sofre com esta crise toda, há pouco dinheiro e ir ao psicólogo não é prioridade. E depois há a questão ainda actual da desvalorização que fazem desta profissão. Ir ao psiquiatra até sim, agora ir ao psicólogo...hum...
    Quanto à faculdade, estudei na Universidade Lusíada. Não me parece que hoje a faculdade seja um factor importante. Quando terminamos e chegamos ao mercado de trabalho, somos todos iguais. Especialmente agora com o Bolonha (agradeço não ter apanhado essa fase!). Continuo a estudar na mesma Universidade, onde estou a tirar o Mestrado. Se gosto da universidade? Gosto de algumas coisas e detesto outras. No fundo, como a generalidade das faculdades, tem aspectos positivos e negativos. A procura do trabalho é que é a verdadeira luta. Por isso, não te prendas á faculdade. Mas tem consciência que não está fácil. Para psicólogos e para quase todos os outros. Da minha experiência posso dizer que qdo temos o diploma na mão é que a verdadeira luta começa. Não é uma área fácil de vingar. Há que ir aproveitando o que vai surgindo, uns dias mais psicóloga, outros dias menos. Continuar à procura e acreditar que um dia a nossa hora vai chegar!

    Bjinhos e boa sorte!
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