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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

O coração é uma fruta (? ou .)

" - O coração é uma fruta?

  - Corações vermelhos e corações verdes. (...) - A avó diz que há corações maduros e corações ainda verdes. (...) E que há corações tão maduros que, com o calor e o tempo, passam-se e apodrecem e até cheiram mal e deitam-se a perder."

in « Bois e Rosas dormiam»

 

   A dúvida reside no ponto. Interrogação ou afirmação. Será o coração humano uma fruta? Ou será como uma fruta? Verde ou madura, com o momento certo para ser consumida. Assim como o coração.

   Há aqueles corações verdinhos, que não sabem abrir-se. Ou não querem, que é o mais certo e o mais grave. Estes são aqueles que concorrem ao prémio do "coração de pedra", o coração que não ama, porque não sabe ou porque não quer sequer aprender. São aqueles corações que não dão hipótese, que afastam qualquer tentativa de aproximação, que repelem o calor humano e que nenhuma temperatura consegue aquecer. São corações que batem sem viver e que transformam a existência numa sucessão de processos químicos e biológicos meramente mecânicos. São corações pobres, verdadeiros repelentes de qualquer contacto humano. Corações solitários nunca poderão ser corações felizes ou portadores de felicidade.

   Depois temos o oposto, os tais corações maduros. Os corações que não conhecem limites, que dão tudo e sempre demais, que vivem no limite do máximo e que, por isso, sofrem o máximo das desilusões. Aqui o prémio será o de "coração mole" ou "coração de manteiga". Tudo nunca é suficiente. Anseiam sempre mais e mais. Sufocam na sua própria respiração e sufocam quem entra nele. De tanto baterem quase param. Tudo é sentimento avassalador, tudo é entrega, tudo é "o momento". Amar é a palavra de ordem, mas nunca sabem ou conhecem os verdadeiros sentimentos. Loucura é o seu apelido. Podem ser assustadores, doentios. E podem matar. Matar sentimentos, a pior das mortes, porque a recordação fica para sempre. 

   Entre estes dois temos o coração ideal. Que não é verde nem maduro. É um coração puro, sincero, pequeno e grande, quente e frio, que aproxima e afasta. É o coração que dá e recebe, sempre na medida certa. É o coração que avalia, que aprende, que constrói tijolo a tijolo cada um dos sentimentos. É o coração que bate ora depressa, ora devagar. Que vive momentos de cortar a respiração e momentos de puro relaxamento. Pum-pum pum-pum, sente a batida da vida e faz a vida ser sentida e ser vivida. Pum-pum pum-pum. Este é o coração de quem vê a vida como uma benção, como um desafio, como um longo percurso de aprendizagem. Este é o coração dos que amam e se deixam amar. De forma pura, sincera, transparente. Plena. Humana. 

   Este, o coração que não é verde nem maduro, mas que é o verdadeiro, é o coração que eu quero que me faça viver. E no qual eu quero viver.