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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

O amor constrói

 

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 «Reparo desde pequena que os adultos vivem muito em casais. Mesmo que não sejam óbvios, porque algumas pessoas têm par mas andam avulsas como as solteiras, há casais de mulher com homem, de homem com homem e outros de mulher com mulher. Depois, há casais de pássaros, coelhos, elefantes, besouros. Os pinguins sãoabsurdamente fiéis, quero dizer: há também casais de pinguins, e até de golfinhos. Tudo por causa do amor.

   O amor constrói. Gostarmos de alguém, mesmo quando estamos parados durante o tempo de dormir, é como fazer prédios ou cozinhar para mesas de mil lugares. 

   Mas amar é um trabalho bom. A minha mãe diz.»

Valter Hugo Mãe, "O Paraíso São os Outros" 

9 anos de nós

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20 de Novembro é o nosso dia. 9 anos depois, é o nosso dia. E porque no amor não há segredos nem fórmulas mágicas, o que importa é sermos capazes de viver a dois, diariamente, dias felizes e dias menos felizes, dias em que mal nos conseguimos separar e dias em que qualquer coisa serve para implicar com o outro. Há 9 anos atrás não esperava estar aqui hoje, com ele. Na verdade, não esperava nada. Há 9 anos atrás eu era uma miúda de 19 anos apaixonada por um miúdo de 20 que viu uma vez na faculdade e pensou "olha que rapaz bonito", sem alguma vez pensar que 9 anos depois estaria ainda e quem sabe para sempre com esse rapaz bonito. Uns meses depois estavamos a conversar, a trocar sms, a marcar a primeira saída que também foi a última, porque bastou essa tarde junto ao mar com uma coca-cola para nunca mais nos largarmos. 

   A partir de hoje caminhamos para uma década de nós e começamos a pensar que nós tem muito mais piada que tu e eu. Somos um pelo o outro. Ele é o romântico, o lamechas, o piroso, o dedicado, o ciumento, o sonhador, o que toma a iniciativa, o que se entrga sem pensar no depois, o culto, o gadget boy, o guloso, o preguiçoso. Eu sou a racional, a fria, a dura, a teimosa, a reservada, a centrada, a introvertida, a complicada, a de humores instáveis, a peste, o bichinho dos livros, a que tem a mania da comidinha saudável, a dorminhoca... e não é que as coisas funcionam? E o melhor de tudo é saber que o que temos hoje, com tudo aquilo que somos, tem força para 9 anos e muitos mais. 

   A verdade é que a dois a vida é bem mais simples. 

P.S - Continuo a gostar de ti só assim um bocadinho pequenino.

Prometo

Prometo amar-te até ao limite, beijar-te até à última fronteira, correr quando bastava andar, saltar quando bastava correr, voar quando bastava saltar. Prometo abraçar-te com o interior dos ossos, percorrer-te a carne com a fome absoluta, e ir à procura do orgasmo todos os dias, a toda a hora, encontrar a felicidade no doce absurdo que nos soubermos destinar. Prometo falhar. Sem hesitar. Prometo ser humano, aqui e ali ser incoerente, aqui e ali dizer a palavra errada, a frase errada, até o texto errado, aqui e ali agir sem pensar, para que raios serve pensar quando te amo tão desalmadamente assim? Prometo compreender, prometo querer, prometo acreditar. Prometo insistir, prometo lutar, descobrir, aprender, ensinar. Tudo para te dizer que prometo falhar. E Deus te livre de não me prometeres o mesmo.

 

amo-te tanto mas...

amo-te tanto mas hoje tenho de levar o carro ao mecânico (...)
amo-te tanto mas hoje tenho de ver o treino do miúdo (...)
amo-te tanto mas hoje tenho de ficar até tarde no escritório (...)
amo-te tanto mas hoje tenho de me deitar cedo (...)
amo-te tanto mas hoje não estás (...)
amo-te tanto mas hoje tenho de assinar este papel, olho-te e peço-te perdão, prometo-te que não vai haver mais mecânicos nem treinos nem clientes estrangeiros nem reuniões entre nós, garanto-te que te quero acima de tudo, olho-te mais uma vez nos olhos e procuro acalmar o que te dói, mas tu só dizes para eu assinar e eu assino, as mãos tremem e até já uma lágrima caiu sobre elas, o nosso filho quando souber vai chorar como um menino pequeno outra vez, o nosso craque, podias ficar pelo menos pelo nosso craque, ou pelo menos por mim, para me manteres vivo, Deus me salve de não te ter comigo, sou uma impossibilidade se não te tiver para gostar, ai não que não sou,
amo-te tanto mas hoje não tenho nada para fazer, a casa escura, um silêncio vazio e nada para fazer, apenas esperar que te esqueças de mim e me voltes a amar, e eu amo-te tanto, ai não que não amo.
«Prometo falhar», Pedro Chagas Freitas

O poder do amor (?!?)

   É este o nome do novo programa de Domingo à noite da Sic, a confirmar o absoluto degredo em que os canais generalistas se têm tornado. Sendo eu uma interessada por tudo o que envolve o comportamento humano, lá fui espreitar o dito programa e de imediato fiquei com duas grandes dúvidas: a primeira e mais racional é "quem, no seu perfeito juízo de director de programas, acha pertinente continuar a investir neste tipo de programas, que serão sempre, sempre, uma imitação do velhinho Big Brother, que já andou o que tinha para andar. E segundo, quem, também no seu perfeito juízo, acha que ir para um programa televisivo onde os fazem chafurdar na lama ou os fecham em cabines de baratas, é assim a maior prova de amor que podiam dar/ter? 

   Não consigo perceber o conceito destes programas que transformam sentimentos em jogos, onde até se aposta dinheiro na coragem, ou na "quantidade" de amor da cara metade. Afinal qual é o objectivo deste programa? Provar a confiança e o amor de casais através de espécies de jogos sem fronteiras? E como é que se vai descobrir o casal vencedor, que deverá ser aquele cujo amor terá mais poder ou força? O casal mais apaixonado é aquele que ganhou mais dinheiro nos jogos sem fronteiras do amor? 

   Estas coisas fazem-me confusão...é que eu ainda sou do tempo em que o amor era uma coisa a dois, só nossa, que até nem nos importavamos de mostrar ao mundo mas sem audiências ou apostas monetárias à mistura. Sou daquele tempo em que, apesar de muitos valores se terem começado a perder e as tecnologias estarem a substituir as relações humanas, as provas de amor eram assim coisas de nos cortar a respiração, não porque cheirassem a m****, mas porque tinhamos encontrado alguém capaz de dar a vida por nós. Sou do tempo em que a confianção numa relação era o seu pilar mestre e construída dia-a-dia, sem joguinhos e apostas ou baratas. E o mais estranho nisto tudo, é que eu sou deste tempo e preocupa-me que se reduzam relações humanas tão importantes e fundamentais como é o amor conjugal a meros jogos e programas televisivos. 

   Toca a amar de televisão desligada, que isso sim é viver!

Viver com amor

«Conhecer o amor de um homem como aquele que Deus me concedeu através de Pedro é uma sorte tão rara como ter filhos perfeitos e saudáveis. E deve ser por isso que o mundo não nos perdoa: por sermos tão felizes, por termos alcançado o que o comum dos mortais nem sequer se atreve a almejar: amor, paixão, entendimento, uma casa, uma família, uma vida vivida na plenitude de um amor tão amigo. Ninguém consegue ser feliz com a alegria alheia. A felicidade é uma maldição cravada em carne viva no coração de todos aqueles que vivem sem ela, tal como o amor. Quem vive sem amor não consegue conviver com os apaixonados. E quem vive com amor já não consegue aprender a viver de outra maneira.»

"Minha Querida Inês", Margarida Rebelo Pinto

Cem anos de amor

«Intigrado com esse enigma, esgravatou tão profundamente nos sentimentos dela que, à procura do interesse, encontrou o amor, porque a tentar que ela o amasse acabou por amá-la. Petra Cotes, pelo seu lado, ia amando-o cada vez mais, à medida que sentia o carinho dele aumentar e foi assim como, na plenitude do Outono, voltou a acreditar na superstição juvenil de que a pobreza era uma condição do amor. Ambos evocavam então como um estorvo as paródias desatinadas, a riqueza aparatosa e a fornicação desenfreada e lamentavam-se de quanta vida lhes tinha custado encontrar o paraíso da solidão partilhada. Loucamente apaixonados até ao fim de tantos anos de cumplicidade estéril, gozavam o milagre de amarem-se tanto à mesa como na cama e chegaram a ser tão felizes, que quando eram dois velhos esgotados ainda continuavam a traquinar como coelhinhos e a discutirem como cachorros.»

 

"Cem anos de Solidão", Gabriel Garcia Márquez

Só um mundo de amor pode durar a vida inteira *

Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. 
O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixonade verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. 
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios.Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas. 
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há,estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.  Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? 
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida,o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. 
O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. 
O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado,viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não.  Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.


Miguel Esteves Cardoso, in 'Jornal Expresso'