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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Histórias com gente dentro (ou das coisas que eu não percebo)

   As desculpas que os filhos arranjam para não estarem presentes na vida dos pais e as desculpas que os pais arranjam para a ausência dos filhos.   

  Ou chamando as coisas pelos nomes justos, as desculpas para o desinteresse total de um ser humano por ouro que, vai-se a saber, até deveriam ser as pessoas mais importantes das suas vidas. 

   A solidão dos idosos já foi tema mais que abordado por aqui. Perturba-me, é certo, mas os dias ensinaram-me a lidar com isto. O que parra mim não é tão fácil digerir é o abandono dos nossos idosos por aqueles filhos que nunca estão mas que aparecem de vez em quando, num momento de crise ou qunado pressionados por alguma entidade, para nos dizerem coisas como "eu só não faço mais porque eles (pais) não deixam...não vale a pena, não dá,  têm um feitio que a doutora nem imagina". 

   Efectivamente não imagino. Mas o que eu não preciso de imaginar são as condições desumanas em que esses maus feitios vivem, porque essas são em reais e estão ali à minha frente. E não me peçam para compreender que é dos feitios, que são pessoas cheias de manias, que são as vidas muito ocupadas, que é o trabalho e a saúde e o mais que lhes valha. É o desinteresse. Ponto. É sermos filhos e esquecermos que o somos, esquecermos que, algures, o nosso pai e/ou a nossa mãe estão abandonados e entregues a si próprios, a viverem sabe-se lá como e à custa de quê. Perante estes filhos, que não o são verdadeiramente,  eu tenho sempre de engulir a mesma pergunta/afirmação/indignação: "desculpe lá, mas eles não são seus pais?". Não deveria isto, que já é tudo, ser suficiente para deslocar montanhas? 

   E como se não bastasse, temos ainda os próprios idosos, os pais, a desculparem estas ausências com as mesmas desculpas usadas pelos filhos. E aqui, mais uma vez, lá tenho eu de engolir um "desculpe lá,  mas vocês não são pais?". Quantas vezes aqueles pais anularam as suas vidas para estarem presentes na vida dos filhos, para mudarem uma fralda, para passarem uma noite em branco à espera que a febre baixasse, para terem o que lhes dar de comer e vestir... quanto sacrifício não terão eles feito para agora os filhos serem essas pessoas cheias de afazares e cargos importantes que nem lhes deixam tempo para visitar quem lhes deu o mundo? 

Histórias com gente dentro

   Um dia destes fui visitar novamente a Sra. C., como faço pelo menos uma vez por mês desde que a consegui "cativar" e conquistar depois de quase 2 anos de luta e visitas que terminavam com um "obrigada mas eu não preciso de nada" e que hoje é das pessoas que mais solicita a minha presença.

   A Sra. C., que nos seus mais de 80 anos, vive sozinha, é invisual há muitos anos e um autêntico mistério. Tal como todos aqueles que sofrem de alguma incapacidade sensorial, a Sra. C. é de uma sensibilidade espantosa, ao ponto de nos dizer coisas como "que se passa consigo hoje, sinto que está triste", "ei, volte à terra" quando já nos tinhamos desligado da conversa por exaustão psicológico (não, nunca deveria acontecer, mas acontece), "tem de se alimentar, as evidências de que está fraquinha são mais que muitas" ou "hoje está muito rabugenta e com ar de chateada, que se passa?"... poderia ficar a aqui mais um tempinho a discorrer sobre todas as coisas que a Sra. C. diz, e também sobre as que não diz mais eu também consigo sentir, mas o que hoje tenho de partilhar é muito simples, pelo menos para a maioria de nós.

   No final desta última visita (e depois de me ter partido o coração com um "não vá embora. É que quando sair eu não falo com mais ninguém até amanhã à hora de almoço quando vocês me vierem trazer a refeição") durante a qual toda a nossa conversa decorreu com a Sra. C. na cama por se encontrar constipada, instintiva e automaticamente eu despeço-me e puxo-lhe os lençóis para cima de forma a tapar-lhe as costas. De imediato a Sra. C. agarra-me a mão com uma força tremenda e a sorrir muito diz "ai, obrigada, muito obrigada, nunca ninguém me tinha feito isto". Sem palavras. Simplesmente um dos momentos mais tocantes da minha vida profissional e a prova de que não é precisa nada (ou aparentemente nada) para fazermos tanto por uma pessoa.

  

“Um comprimido que não se vende na farmácia – o afecto."

Para quem, como eu, tem a possibilidade de fazer diariamente um trabalho semelhante a este, que é tão, mas tão, doloroso mas enriquecedor, este artigo fará todo o sentido:

 

«Está com 73 anos. Só com duas muletas consegue andar de um lado para o outro. “Enquanto eu puder, entretenho-me com ele.” Está confinado à casa há uma meia dúzia de anos. A mulher dorme na cama ao lado. De três em três horas, acorda, mexe-o. Já nem precisa de despertador.

(...)

A ouvi-la está um par de enfermeiros do Magalhães Lemos, o hospital psiquiátrico da região norte. Integram a equipa de apoio domiciliário encarregada de visitar uns 400 doentes que já não conseguem vir ao serviço ou que se recusam a fazê-lo. De segunda a sexta saem dois carros, cada um com dois técnicos: dois enfermeiros, um enfermeiro e um assistente social ou um enfermeiro e um psiquiatra.

(...)

Sobra-lhes empatia. Não lhes compete pôr sondas, trocar pensos, dar banhos. Isso é tarefa dos cuidados primários. Estão incumbidos de ensinar quem cuida a cuidar e a cuidar-se, não vá o stress, a ansiedade, o desgaste levar à depressão ou ao colapso, gerar negligência, mau trato ou abandono.

(...)

O cuidador faz parte do plano terapêutico. Assume-se que sem ele nada se pode fazer. É chamado a uma consulta específica. A sós, num pequeno gabinete, um enfermeiro explica-lhe o que é a doença, como progride, como lidar com ela.

Pequenos passos podem evitar grandes stresses. Tirar os tapetes da casa, trocar os chinelos pelas pantufas, fechar bem as embalagens de detergente, exemplificara a psiquiatra Rosa Encarnação. A visita domiciliária reforça essas lições e acrescenta outras, conforme a doença evolui. Não gosta de água? Talvez goste de gelatina. Comer um prato de gelatina é quase como beber um copo de água. A gelatina tem proteínas. Se as proteínas não estiverem repostas, vai ferir-se mais.

(...)

Não é por acaso que a equipa de apoio domiciliário é multidisciplinar, elucidara Rosa Encarnação. É preciso olhar para várias áreas, porque estes doentes já não se servem das palavras, exprimem-se através de alterações do sono, agitação, agressividade e isso tem de ser compreendido.  

(...)

Há muitas famílias desavindas e, no meio delas, idosos incapazes de se amanharem sozinhos. A equipa do Magalhães Lemos, por vezes, assume o papel de árbitro. Uns queixam-se: “A minha irmã não faz nada, fica tudo para mim.” E a equipa tem de chamar a outra parte, de lembrar que “seria bom partilhar” tarefas.

Acontece, no princípio, alguém até querer assumir a empreitada por inteiro. “A pessoa não está a ver o filme todo”, nota Rosa Encarnação. A sobrecarga pode ser esmagadora. “Temos de dar tempo às pessoas para perceberem que não aguentam. Para ficarem bem consigo, algumas têm de tentar.”»

 

O artigo completo aqui: http://www.publico.pt/n1618424

Histórias com gente dentro

   Que bem me soube ir a casa da Sra. R. e encontrar por lá o Natal! Soube tão bem! Especialmente porque a Sra. R., do alto dos seus quase 90 anos, vive completamente sozinha (uma sobrinha a viver em Lisboa é a sua única família), mas mesmo assim diz que não consegue passar a época natalícia sem encher, literalmente, a sua casa de grinaldas, bolinhas e luzes a piscar. E apesar de o pinheiro estar praticamente a dobrar de tanto enfeito que ela lhe pôs e de a sua pequena sala parecer um arco-irís de tanta fita e luzinhas, ela repete e repete "isto ainda não está como eu quero"...

   No meio de tanta tristeza e, sobretudo, no meio de uma completa solidão, este entusiasmo com uma época festiva cai tão, mas tão bem. Quase tão bem como o comentário da Sra. R., voltada para um dos seus conjuntos de luzinhas: "Ai, isto não está como eu gosto. Espere aí...já sei! É que para isto ficar ligado como eu gosto tenho de carregar 7 vezes neste botão. Viu se eu carreguei 7 vezes? De certeza que não...deixe ver. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7...ah! Agora sim! Vê?". Não vi qualquer alteração, mas vi um grande sorriso pintado com luzinhas de Natal e isso preenche-nos o dia!

"Quem acolhe os idosos, acolhe a vida"

  “Quando a vida se torna frágil, nos anos da velhice, não perde o seu valor e a sua dignidade: cada um de nós, em qualquer etapa da existência, é querido, é amado por Deus, cada um é importante e necessário."

(cfr Homilia pelo início do Ministério Petrino, 24 de abril de 2005, Papa Bento XVI)

 

 Hoje é dia do Idoso. Mas não é, nem de hoje, que eu me lembro deles ou sinto vontade de lhes prestar uma merecida homenagem. Para mim, os idosos são o melhor do mundo, porque são aquelas pessoas que já viveram tanto e quase tudo e que, por isso, são uma fonte inesgotável de lições, conhecimentos e experiências de vida. Um idoso é uma pessoa tão cheia de tudo que quem tem a sorte de conviver com eles diariamente, ainda que em trabalho, estará, provavelmente, a passar por uma das experiências mais completas e mais gratificantes da sua vida. Se, para uns, não há nada como um sorriso na cara de uma criança, para mim, não há nada, absolutamente nada, como um sorriso na cara de um velhinho, principalmente quando a maior parte das vezes tudo o que temos de fazer para o conseguir é sorrir-lhes, tocar-lhes e dirigir-lhes um simples "olá, como está?".

A psicologia e a fé de cada um

   Apesar de a instituição onde trabalho ser completamente católica-apostólica-românica e a maioria dos nossos idosos serem católicos, temos uma minoria que professa outras religiões.

  Esta semana, em visita domiciliária a uma utente e à sua filha, ambas testemunhas de Jeová, cruzei-me com dois dos seus "irmãos", que é a forma como se tratam as pessoas que têm aquela crença em comum. Não sei se foi propositado ou não, até porque desconhecia completamente as pessoas que lá estavam, mas assim que me sentei, enquanto aguardava que os "irmãos" terminassem a sua visita (parece que é algo muito comum nesta religião, o visitarem-se uns aos outros, especialmente em tempos de maior necessidade ou dificuldade, o que eu acho fantástico), fiquei com a sensação que o discurso daqueles dois senhores tentava pura e simplesmente "vender-me" a sua religião, já que cada simples frase era acompanhada de uma longa teoria acerca dos princípios da religião. A dada altura começaram mesmo a dirigir demasiado o olhar para mim. Claro que não faltaram as acusações à igreja catolica, que a dada altura se tornaram mesmo insultuosas, o que me pareceu completamente desnecessário e de lamentar. Provavelmente a minha postura refletiu essa minha sensação, já que um deles acabou por dizer "peço desculpa se a ofendi e não sei qual é a sua religião...". Não sei se terão percebido a mensagem com a minha resposta seca de "acima de tudo respeito todas as crenças", mas imediatamente ripostaram com um rude "vocês das psicologias não ligam nenhuma estas coisas da religião, são mais de outras áreas...".

   Meus senhores e minhas senhoras, nós, os das psicologias, ligamos e muito a essas coisas da religião, simplesmente porque a religião é um dos principais pilares da personalidade de muita gente, especialmente dos idosos. Eu valorizo, e muito, a fé e as crenças de cada um, já que é isso que explica, justifica, fundamenta, estrutura, muitos dos comportamentos, pensamentos e ideias das pessoas. A crença religiosa de cada idoso é uma das perguntas que fazemos logo nas nossas fichas de inscrição e no nosso diagnóstico mais "psicológico" exploramos a forma como cada um vive a religião e quais os hábitos que tem. Por isso, minhas gentes com pensamentos retrogados, a psicologia e qualquer trabalho psicológico é inseparável das questões religiosas. Eu preocupo-me em conhecê-las, expolorá-las e saber um pouco do fundamento teórico de casa religião dos nossos idosos. Mas acima de tudo, e psicologias à parte, eu respeito todas as crenças, e respeito foi aquilo que me pareceu faltar a estes dois "irmãos".

Histórias com gente dentro

   Hoje fui pela primeira vez confrontada com a situação de ter uma idosa à minha frente que esta noite não teria onde dormir, depois de ter sido colocada fora de casa pela sua família, que de família tem realmente muito pouco. Sim, em pleno século XXi temos "famílias" que nos dizem coisas como "ela não entra mais lá em casa, nós não a queremos lá e vamos pôr as coisas todas dela cá fora ou no lixo", estando completamente desinteressadas relativamente ao local onde a idosa, com quase 80 anos, passará a noite.

   Não querendo entrar em pormenores sobre o historial desta família e desta idosa, que acreditem é bastante longo e confuso, ao ponto de, a partir de hoje, passar a ser caso de polícia e tribunal, o que me custa mesmo é saber que há gente capaz de tratar assim alguém que, tendo os piores defeitos do mundo e o pior feitio dos arredores (porque acreditem que a idosa é uma pessoa extremamente complicada e, especialmente, perigosamente mentirosa, não sei se por compulsão ou demência) até é nossa mãe e/ou avó.

   Claro que, como seria de esperar, barramos contra as burocracias da nossa querida segurança social e da suposta rede de emergência social que perante situações de emergência demora demasiado tempo a actuar, isto se chegar sequer a fazê-lo. E a idosa lá continuava, ao final da tarde, sem local onde pernoitar, porque ao telefone nos diziam qulauqer coisa como "isto não é assim às duas pancadas que aceitamos qualquer um numa instituição para pernoitar". Realmente, isto de ter uma rede social que em vez de abrir portas coloca grades nas janelas não é para qualquer um...

   Valeu-nos a excelente actuação do chefe F., da equipa de policiamento de proximidade da freguesia, que acionámos de imediato e que foi incansável nos contactos e no apoio na resolução do caso, assumindo a total responsabilidade pela idosa. De louvar.

   Neste momento, não sei que seguimento teve o caso. Simplesmente porque me obriguei a desligar do mesmo. Chega a um ponto que as coisas deixam mesmo de depender de nós e não há mais nada que possámos fazer. Obriguei-me, por isso, a sair de lá e desligar-me da idosa e da situação, vingando-me numa excelente aula de Body Pump. Poderá ser frieza. Para mim é a única forma de fazer o meu trabalho diariamente com um sorriso na cara e cheia de coisas boas e positivas para dar aos meus velhinhos. Não posso carregar o peso desta idosa e da sua história cá dentro e continuar a viver como se nada fosse. Se não for capaz de carregar no botão Off, as noites são em branco e o pensamento está neles, em cada um dos idosos que conheço e que sofrem diariamente. É, acima de tudo e apenas, uma forma de sobreviver e continuar a acreditar.

   A primeira coisa que vou fazer amanhã de manhã é ligar a saber do estado das coisas. E depois desligo o botão outra vez e quem sabe o telemóvel...

Histórias com gente dentro

O Sr. F. nos seus quase 80 anos tem o hobbie de fazer réplicas dos barcos onde tanto navegou enquanto pescador de profissão. Este barco vi-o nascer e crescer até se tornar neste belo barco feito pelo Sr. F. especialmente para mim. 

   Tenho ou não tenho o melhor emprego do mundo? 

Histórias com gente (e guerra) dentro

   Tenho lido alguma coisa sobre o Ultramar e sobre os nossos portugueses que foram para lá combater e a maior parte das vezes não consigo deixar de ficar impressionada com o que fico a conhecer e com os relatos de quem por lá passou.

   Ao longo da vida todos nós conhecemos uma ou outra pessoa que "estiveram na guerra", uns mais comunicativos que outros sobre essa fase das suas vidas. Graças à minha profissão tenho contactado mais de perto com ex-combatentes e alguns deles têm conversado comigo abertamente sobre essa época. O que eu nunca tinha conhecido era um ex-combatente que trouxe a pior das feridas da guerra: a perturbação de stress pós-traumática. Já tinha conhecido um ou outro que diziam sofrer desse mal, mas que sempre se mostraram mais ou menos organizados. Recentemente recebemos num dos nossos centros de dia mais um ex-combatente com esse diagnóstico. Até ontem nunca me tinha apercebido no Sr. A. nada longe do que habitualmente encontro nestas pessoas. Até ao Sr. A. começar a gritar frases como "Chega-me a arma, chega-me a arma, estamos a ser atacados" ou "baixem-se, protejam-se", enquanto chorava como um bebé e alternava entre momentos de total alucinação e de consciência do seu estado. Mas o que mais me impressionou foram os relatos sofridos que depois o Sr. A. me fez de alguns momentos por que passou em Angola...os combates, os ataques, a morte dos seus companheiros e do povo...e tudo isto enquantochorava compulsivamente e me questionava "E para quê? Para quê, doutora?"...

   Todo o sofrimento humano é questionável, mas este sofrimento, o sofrimento da guerra, deve ser daquelas feridas abertas que nunca cura e que não mais nos deixa viver...como o Sr. A. ontem me dizia "isto está cá dentro, eu estive lá, eu matei e vi morrer, eu estive lá, e agora isto está cá dentro da minha cabeça e nunca sai, nunca sai, nunca vai sair, percebe?". Não sei se percebo, Sr. A., porque felizmente nunca passei por uma experiência tão traumática, mas respeito-o e partilho um bocadinho do seu sofrimento, que é a única forma de ajuda que tenho para lhe oferecer.

Por favor, não abram o jornal!

 

   Ontem apeteceu-me fazer algumas actividades de grupo com os idosos de um dos nossos centros de dia. Nada programado, deixei a inspiração correr e lá fomos passando um tempinho agradável. A dada altura lembrei-me: vamos conversar sobre as notícias do jornal de hoje? Actividade básica mas bastante importante para os manter actualizados e orientados no tempo. Lá comecei, três ou quatro páginas de habemos papa, então o que acham, sabem como se vai chamar, quantos anos tem, o que acham, etc e tal. Seguiu-se o desastre azul e branco do FCP no jogo do dia anterior e as expectativas de que o SLB perdesse nessa noite (o que não se concretizou)...tudo muito animado, tudo a participar...a partir daqui foi o descalabro. Nas seis ou sete páginas seguintes apenas constavam as palavras "matou", "degolou", "esfaqueou", "agrediu", "roubou"...o risco de gerar ali um grupo de idosos completamente depressivo era enorme e resolvi parar, já muito arrependida de me ter lembrado de ler as notícias.

   Dei por mim a pensar se é disto que um país depressivo e negativista como Portugal actualmente é precisa...pelo que pude perceber, não exisia uma única notícia positiva naquelas páginas. Nos telejornais, que eu cada vez tenho menos vontade de ver, a ementa repete-se. Até nos programas da tarde todas as histórias que nos apresentam são de tristeza e desgraça. É como se esta coisa do mau e muito maus estivesse enraizada em nós. Só vemos as coisas más, parece que as procuramos, que gostamos do "coitadinho" e raramente valorizamos ou fazemos notícias do que é bom, nacional ou de fora. A única vontade que dá é de não abrir os jornais, não ligar a televisão, não ouvir rádio...é só desgraça que nos invade os sentidos.