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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

Da morte...#2

«Há algum tempo, deparei-me, num jornal, com o título: "Morre-se muito nos hospitais". Mas de que estava à espera quem tal escreveu? Organizados por agências funerárias, que tendem a copiar o modelo americano, os enterros deixaram de ter carga emocional. Tanto as empresas quanto as famílias querem que tuo se passe com rapidez. Uma vez que as sociedades não desejam encarar o facto de sermos mortais, a contemplação do morto é reduzida ao mínimo. Enquanto, na idade média, os santos gostavam de ter, diante de si, uma caveira, a fim de recordar quão breve era a passagem pelo mundo, os contemporâneos procuram esquecer a mortalidade. Daí a dessacralização dos enterros. O que se passa nas capelas mortuárias das igrejas parece-se, cada vez mais, com um garden party. Por outro lado, enterrado o morto, ninguém visita o túmulo. A ida aos cemitérios, a 2 de Novembro, Dias dos Fiés Defuntos, está praticamente limitada às classes rurais.»

"A Morte", Maria Filomena Mónica

 

Da morte...

«Uma das questões mais controversas do nosso tempo é a de saber se podemos escolher o momento da nossa morte. O assunto tem sido discutido nos Estados Unidos e em alguns países europeus, mas pouco ou nada em Portugal. Em tempo de crise, os meus compatriotas estão mais ocupados a tratar da vida do que da morte, o que tem como corolário deixar o nosso fim nas mãos dos políticos, dos padres e dos médicos. Uma atitude perigosa.»

 

"A Morte", Maria Filomena Mónica

"All I wanna say is that They don`t really care about us..."

   Não percebo muito bem esse velho hábito de homenagear os grandes feitos e/ou os grandes heróis apenas e só depois de mortos. Enquanto vivas, as ditas "estrelas" (as verdadeiras, que brilham por valor próprio) enchem páginas de revistas e jornais pelos piores motivos. Gerar polémica é o objectivo-mor. Valorizar o trabalho individual? Uma ou duas páginas de longe a longe, nada de mais, não vá o artista habituar-se a tanto mimo e desmazelar-se no seu trabalho ou ver o ego aumentar para dimensões fora do real. E as homenagens, os tributos, a valorização, ficam para o post mortem, quando o homenageado não está mais presente para ver, para sentir, para agradecer, para se orgulhar, merecedoramente, do seu trabalho. Mas assim que morre torna-se o melhor do mundo, um ser único e impossível de igualar.

   Tudo isto acontece sempre que alguém "importante" morre. Tudo isto está a acontecer com a morte de Michael Jackson. Aqueles que lhe infernizavam a vida, hoje dedicam-lhe edições completas de revistas e jornais. As rádios que o ignoravam quase totalmente passam as suas músicas incessantemente, repetindo que "nunca se fez nada assim". As televisões oferecem documentários comprados e atirados para o fundo da prateleira, porque "o Jackson já era" e agora que ele se foi mesmo são noites consecutivas com reportagens e mais reportagens. Os canais de música passam os seus video clips durante dias seguidos. As lojas põe os seus dvd`s ou cd`s a tocar e todos param para ver ou ouvir o Rei da Pop. Até as revistas de moda relembram o seu estilo muito particular, os seus chapéus, os seus sapatos, a sua imagem. As vendas de tudo o que esteja associado ao seu nome disparam a 210% (dados oficiais)...não tarda muito choveram livros sobre a vida (e a morte) de Michael Jackson e inúmeros artistas se reunirão em um qualquer palco para o homenagear com aquilo que deu sentido à sua vida: a música e a dança. Não será de estranhar até a produção de um filme em torno de tudo o que este homem com voz e espírito de menino representava. Inegavelmente, Michael Jackson irá "renascer das cinzas" e a sua morte irá projectá-lo para onde ele nunca conseguiu chegar em vida, graças a tantas polémicas, histórias e momentos bizarros.

   É o espírito do "só dar valor depois de perder" levado ao extremo. É o rídiculo da valorização do corpo ausente, tantas vezes ignorado enquanto presente. Até quando?

 

O fim de um reinado

   Aos 50 anos, o rei da pop, deixou de cantar e dançar para o mundo. Cedo demais.

   Em jeito de "crónica de uma morte anunciada", a grande estrela da música do século XX partiu. Ele que teve o mundo o mundo nas mãos, tem agora o mundo aos seus pés. Legiões de fãs prestam uma última homenagem ao cantor excêntrico, polémico, com medo de envelhecer e eternamente preso a uma infância (que não teve) entregue à música.

   Polémicas à parte, foi um grande artista. Dos maiores. Marcou um geração e deixa a sua marca em qualquer canto do mundo. Será lembrado pelos escândalos, pelas histórias, pelas polémicas, pela identidade que nunca desenvolveu. Será principalmente lembrado pela sua música, pelos seus movimentos impossíveis de copiar. Pelo seu sucesso.

   Foi rei. E na música sempre o será.

A eutanásia e a vida

   Um canal nacional ofereceu-nos hoje um interessante debate sobre um não menos interessante (mas polémico) tema: a Eutanásia. A minha posição face a este tema é a mesma que face a muitos dos temas mais polémicos da actualidade. Sou a favor da liberdade individual. E sou a favor da vida. Da vida que pode ser vivida enquanto vida. Da vida que nos permite ser gente até ao fim. E que vida é essa a que aqueles que vivem há anos confinados a uma cama, alimentados por mãos que não são as suas, que respiram um ar que não é o seu, têm? Será vida aquilo que uma criança de 12 anos em estado vegetativo persistente desde os 9 anos sente?

   Eutanásia não é matar. Quem diz "deixa-me partir" não quer dizer "despacha-me". Quer dizer "ajuda-me a dar sentido a uma vida que perdeu todo o seu sentido". A Eutanásia pode ser uma resposta para a vida que já terminou muito antes da morte. A resposta que os cuidados paliativos deveriam ser capazes de dar e não dão. Depois da dor física controlada, quem controla a dor da alma? Quem controla a consciência que nos atormenta com a verdade da nossa condição?

   Cultural e moralmente falando, Portugal não está pronto para o referendo. Não podemos pedir aos portugueses que digam sim ou não, quando para muitos eutanásia é sinónimo de matar em jeito de homicídio. Se não estamos prontos para um referendo, estaremos com certeza prontos para investir na saúde dos nossos. Se não queremos "ajudar a morrer", temos de querer melhorar a resposta aos doentes terminais. Mais serviços de cuidados paliativos. Ainda que, para mim, isto não seja resposta ao pior sofrimento humano, poderá ser resposta ao físico.

   Não sou a favor da banalização da Eutanásia e da sua prática só "porque sim" ou porque "assim poupa trabalho". Sou a favor de uma análise cuidada e precisa da consistência de cada pedido de ajuda. Da procura de respostas que minimizem o sofrimento. Sou a favor da dignidade da vida. E uma vida que não pode ser vivida, que não deixa viver, deixou de ser uma vida e passou a ser uma morte antecipada e dolorosamente prolongada pela ética.  

Morte em directo luso-hollywodesca

   Ontem, 5f, 7 de Agosto de 2008, Portugal viveu um momento hollywodesco digno de filme de acção com balas à mistura, reféns, mortos e feridos (dos graves como nos verdadeiros filmes de acção). Uma agência bancária foi assaltada por dois indivíduos que ao se aperceberem da inutilidade do seu acto que iria resultar em nada e mãos a abanar, resolveram fazer reféns e exigências e recusar negociações. Mais de oito horas depois do início desta aventura e antes do The End aparecer, houve espaço para 3 tiros certeiros que atingiram os dois assaltantes, matando automaticamente um deles e ferindo com gravidade o outro. A polícia diz que esta era a única solução e todos elogiam o sangue frio do atirar a matar. Para mim, não sei se era a única ou a melhor solução. Sou contra o crime mas a favor da vida humana e, criminosos ou não,  experientes ou inexperientes, tendo eles planeado ao mais pequeno pormenor todo o filme ou tendo simplesmente agido ao sabor das emoções e da surpresa do inesperado, foi um final trágico e triste, até porque a morte nunca é a melhor forma de pagarmos pelos nossos erros. Não há dor, não há sofrimento, não há remorso, não há um cérebro a trabalhar nas recordações dos nossos actos, não há, e se não há nada não há castigo. 

   Final feliz tiveram os reféns e isso sim deixa-me satisfeita. Quanto às nossas forças policiais, tratou-se de um dos momentos altos das suas carreiras, no qual poderam mostrar aquilo para que foram treinados e para que são pagos, o que, felizmente, não têm muita oportunidade de mostrar. Uma última palavra para os meios de comunicação social, esses sim os mais vencedores dos óscares deste filme luso-hollywodesco. Era ver quem tinha a melhor fonte, a melhor notícia em primeira mão confirmada por fonte segura, a melhor imagem. Emissões interrompidas para imagens e mais imagens da desgraça alheia, e o português agradece, porque a vida real é bem melhor que as 50 telenovelas transmitidas todas as noites e o que ele gosta é de espiar a vida dos outros, que parece sempre bem mais interessante que a sua. Hoje não se fala de outra coisa nas televisões, nos jornais, nas conversas de café. Portugal esteve ao nível de Hollywood e não foram precisos actores, argumentos ou realizadores. Bastaram 2 seres humanos reais, armados e abatidos.

  É este o nosso mundo.

 

 

Morte ignorada

 Uma mulher de 49 anos morreu em plena sala de um hospital psiquiátrico de Nova Iorque sem ninguém notar e sem ninguém a socorrer. A mulher caiu da cadeira, esteve estendida no chão, morta, quase uma hora e ninguém fez nada.

Imagens registadas pelas câmaras de segurança do hospital mostram a mulher caída, inerte, um segurança a ir à sala de espera, olhar para ela, e saiu sem a tentar socorrer. Passaram, entretanto, outros funcionários do hospital, incluindo um médico, que também nada fizeram. Quando a ajuda chegou, a mulher estava morta há pelo menos 45 minutos.

 

Um belo exemplo do egoísmo americano, da individualidade levada ao extremo, da indiferença, desprezo social , quiça racismo...

Mas que raio de mundo é este em que se assiste impávido e sereno à morte de um ser humano?

Em casos como este é de louvar o espírito português de "admirar a desgraça alheia". Entre um curioso e outro, alguém deveria parar para ver alguém morrer.