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1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

1001 pequenos nadas...

...que são tudo, ou apenas esboços da essência de uma vida entre as gentes e as coisas, captados pelo olhar e pela mente livre, curiosa e contemplativa. Por tudo isto e tudo o resto: É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

"Faz de mim um bonsai"

"Ficar eternamente criança por vontade, nem que desse muito trabalho. Ser sempre assim, igual ao que fora a minha irmã. O único modo de continuarmos gémeas. Sabes, pai, se eu crescer e não crescer a Sigridur vamos ficar desconhecidas. Faz de mim um bonsai. Peço-te. Corta o meu corpo, impede-o de mudar. Bate-lhe, assusta-o, obriga-o a não ser uma coisa senão a imagem cristalizada da minha irmã. Vou passar a andar encolhida, dormir apertada, comer menos. Vou sonhar tudo o mesmo ou sonhar menos. Querer o mesmo a vida inteira ou querer menos. Querer o que queria ela. Se s bichos da terra não a deixam ser maior, se é verdade que a levam por inteiro, que fique ao menos eu, pelas duas, a ser igual, para não morrermos. No mínimo, devíamos ter enterrado muitas flores com ela. Que florissem. Porque não pode ver senão bichos e terra suja. Não colhemos flores, fomos egoístas."

«A Desumanização», Valter Hugo Mãe

«A Desumanização», Valter Hugo Mãe

 

«Mais tarde, também eu arrancarei o coração do peito para o secar como um trapo e usar limpando apenas as coisas mais estúpidas.»


Passado nos recônditos fiordes islandeses, este romance é a voz de uma menina diferente que nos conta o que sobra depois de perder a irmã gémea. Um livro de profunda delicadeza em que a disciplina da tristeza não impede uma certa redenção e o permanente assombro da beleza. O livro mais plástico de Valter Hugo Mãe. Um livro de ver. Uma utopia de purificar a experiência difícil e maravilhosa de se estar vivo.

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   Assim que este livro foi editado, corri a comprá-lo. Estava ansiosa por conhecer as novas palavras de Valter Hugo Mãe. Li-o numa semana (um bocadinho todas as noites, que o sono assim o obriga) e agora que o terminei tenho de admitir e assumir que foi, provavelmente, o livro de VHM que menos gostei até à data. Fiquei mesmo que um trago de desilusão. Depois de "O filho de mil homens" e "A máquina de fazer espanhóis", que adorei, a fasquia estava muito alta, de maneira que pensei que poderia ser sempre a melhorar. O que para mim não aconteceu com este livro. Sei que muitos dizem que é o melhor de VHM, um dos melhores do ano, etc etc, mas cada um tem os seus gostos e a sua opinião e nisto dos livros, é preciso que eles nos agarrem e mexam connosco desde a primeira página. Este não o conseguiu fazer. Não lhe descobri história que me cativasse ou personagens que me prendessem, até mesmo pensar nos fiórdes filandeses me causava arrepios...falta-lhe ali qualquer coisa, já que do início ao fim anda sempre há volta do mesmo: as mesmas personagens, os mesmos sentimentos, a mesma paisagem...é um livro que emana tristeza e melancolia a cada página, o que nem sempre o torna fácil de ler.

   Tratando-se de VHM vale sempre a pena ler, mas que já teve momentos de escrita mais felizes, lá isso já teve.  

Das boas notícias

«Mais tarde, também eu arrancarei o coração do peito para o secar como um trapo e usar limpando apenas as coisas mais estúpidas.»

Passado nos recônditos fiordes islandeses, este romance é a voz de uma menina diferente que nos conta o que sobra depois de perder a irmã gémea. Um livro de profunda delicadeza em que a disciplina da tristeza não impede uma certa redenção e o permanente assombro da beleza. O livro mais plástico de Valter Hugo Mãe. Um livro de ver. Uma utopia de purificar a experiência difícil e maravilhosa de se estar vivo.

 

Novo livro de Valter Hugo Mãe, dia 20 numa livraria perto de nós :)

«O Remorso de Baltazar Serapião», Valter Hugo Mãe

Numa Idade Média, os feudais abusam dos seus direitos. Baltazar, o protagonista deste romance, foi criado com a pobreza e com a violência numa família em que a vaca - animal de estimação - parece, afinal, ter tanta importância como a mãe. Porém, no meio da escuridão, Baltazar vê a luz: Chama-se Ermesinda e é a mais bela a ajuizada da aldeia. E o casamento acontece como uma bênção dos céus, preparando-se Baltazar para a educação esmerada da sua esposa, uma vez que as mulheres, já se sabe, são ignorantes e, também por isso, muito perigosas. Mas eis que, ainda quase não houve tempo para os dois se conhecerem, o senhor põe os olhos em tão bela e apetecível criatura. E logo reclama que a mesma o visite todos os dias pela manhã, quando dona Catarina, a mulher, ainda descansa... O que se passa nesses encontros ninguém sabe, mas o que Baltazar adivinha mortifica-o e enlouquece-o. Escrito numa linguagem que pretende representar a língua arcaica e rude do povo ignorante medieval, O remorso de Baltazar Serapião é um romance sobre o poder sinistro do amor e uma metáfora inegável da violência doméstica que ocupa notícias nos jornais.

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   Primeira leitura de férias.

   Valter Hugo Mãe é assim a minha mais recente paixão literária. Gosto-lhe da escrita, porque é sentida, emotiva, pura, dura e às vezes roça um bocadinho o ridículo, ao ponto de nos deixar a pensar "mas quem é que se iria lembrar de escrever sobre isto?". Em muitos momentos se assemelha a alguns livros de Saramago o que para mim é a cereja no topo do bolo.  

   Este livro tem momentos realmente duros, mas de descrição de puro do lado mais agressivo e animalesco do ser humano. Não sendo dos meus favoritos até agora, devorei-o em 24h...é Valter Hugo Mãe, que se pode fazer?

Da perda...

"(...)quando queremos que o tempo nos faça fugir de alguma coisa, de um acontecimento, inicialmente contamos os dias, às vezes até as horas, e depois chegam as semanas triunfais e os largos meses e depois os didáticos anos. mas para chegarmos aí temos de sentir o tempo também de outro modo.perdemos alguém e temos de superar o primeiro inverno a sós, e a primeira primavera e depois o primeiro verão, e o primeiro outono. e dentro disso, é preciso que superemos os nossos aniversários, tudo quanto dá direito a parabéns a você, as datas da relação, o natal, a mudança dos anos, até a época dos morangos, o magusto, a chuva de molha tolos, o primeiro passo de um neto, o regresso de um satélite à terra, a queda de mais um avião, as notícias sobre o brasil, enfim, tudo. e também é preciso superar a primeira saída de carro a sós. o primeiro telefonema que não pode ser feito para aquela pessoa. a primeira viagem que fazemos sem a sua companhia. os lençóis que mudamos pela primeira vez. as janelas que abrimos. a sopa que preparamos para comermos sem mais ninguém. o telejornal que não comentamos. um livro que se lê em absoluto silêncio. o tempo guarda cápsulas indestrutíveis porque, por mais dias que se sucedam, sempre chegamos a um ponto onde voltamos atrás, um início qualquer, para fazer pela primeira vez alguma coisa que nos vai dilacerar impiedosamente porque nessa cápsula se injecta também a nitidez do quanto amávamos quem perdemos, a nitidez do seu rosto, que por vezes se perde mas ressurge sempre nessas alturas, até o timbre da sua voz, chamando o nosso nome ou, mais cruel ainda, dizendo que nos ama com um riso incrível pelo qual nos havíamos justificado em mil ocasiões no mundo."

Valter Hugo Mãe, "A máquina de fazer espanhóis"

De um velho para os jovens

«(...) sabes, rapaz, nós estamos para aqui metidos como animais domésticos, limitados e cheios de necessidade de cuidados, é verdade, e somos de facto parecido com miúdos, porque vamos ficando atrapalhados das ideias, muito cansados para seguir com as coisas todas, e confundimo-nos constantemente, fazendo asneiras que não se esperam de adultos, mas somos, sobretudo quando estamos sossegadamente sentados, adultos, e metemos cá dentro da cabeça uma experiência de uma vida inteira que já viu de tanta coisa. Às vezes, avançando já a parte da senilidade a que vamos sucumbindo, podias aproveitar um pouco mais a nossa amizade, porque estamos a anos-luz da tua idade, mas temos um passado que é genericamente o teu presente e o teu futuro.»

"A máquina de fazer espanhóis", Valter Hugo Mãe

«A máquina de fazer espanhóis», Valter Hugo Mãe

Esta é a história de quem, no momento mais árido da vida, se surpreende com a manifestação ainda de uma alegria. Uma alegria complexa, até difícil de aceitar, mas que comprova a validade do ser humano até ao seu último segundo. a máquina de fazer espanhóis é uma aventura irónica, trágica e divertida, pela madura idade, que será uma maturidade diferente, um estádio de conhecimento outro no qual o indivíduo se repensa para reincidir ou mudar. O que mudará na vida de antónio silva, com oitenta e quatro anos, no dia em que violentamente o seu mundo se transforma?

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   Mais uma leitura de férias, que terminei hoje (assim como as férias!) e que entra diretamente para a minha lista de livros de uma vida. Provavelmente um dos melhores retratos algumas vez feito sobre o que é envelhecer e ir perdendo aos poucos tudo o que é a vida, com os toques jocosos sobre a vida e o fim dela num lar de 3ª idade. Com todas as certezas um dos melhores livros que li até hoje e mais um que me vai "prender" a Valter Hugo Mãe.  

Os velhinhos...(provavelmente, o melhor testemunho brutal da velhice)

«Como faria falta ferrarmos toda a gente e vingarmo-nos do mundo por manter as primaveras e a subitamente estúpida variedade das espécies e as manifestações do mar e a expectativa do calor e a extensão dos campos e as putas das flores e das arvorezinhas cheias de passarinhos cantantes aos quais deviamos torcer o pescoço para nunca mais interferirem com as nossas feridas profundas. Que se fodam. Que se fodam os discursos de falsa preocupação dessa gente que sorri diante de nós mas que pensa que é assim mesmo, afinal estamos velhos e temos de morrer, um primeiro e o outro depois e está tudo muito bem. Sorriem, umas palmadinhas nas costas, devagar que é velhinho, e depois vão-se embora para casa a esquecerem as coisas mais aborrecidas dos dias. Onde ficamos nós, os velhinhos, uma gelatina de carne a amargar como para lá dos prazos. Que ódio tão profundo nos nasce. Como incrivelmente nos nasce alguma coisa num tempo que já supúnhamos tão estéril.»

"A máquina de fazer espanhóis", Valter Hugo Mãe 

Da morte

«Com a morte, também o amor devia acabar, acto contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de quaçquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir. Pensamos, existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humihante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade. E não é compreensível que assim aconteça. Com a morte, tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. Esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder. Foi como se me dissessem, senhor silva, vamos levar-lhe os braços e as pernas, vamos levar-lhe os olhos e perderá a voz, talvez lhe deixemos os pulmões, mas temos de levar o coração, e lamentamos muito, mas não lhe será permitida qualquer felicidade de agora em diante (...)»

"A máquina de fazer espanhóis", Valter Hugo Mãe 

   Li este parte do livro no mesmo dia em que fui ao funeral de uma tia minha, que faleceu aos 81 anos, vítima de doença. Fez-me ainda mais sentido do que o imenso sentido que este excerto tem só por si e sem qualquer contextualização. Não tanto pelo significado que esta morte teve para mim, já que tenho aquela forma "diferente" de encarar a morte fruto de quem lida com ela diariamente, principalmente quando se trata de uma morte que já há muito se sabia ser inevitável, mas sobretudo porque ao morrer a minha tia deixa viúvo o marido, de 84 anos, que perdeu assim o sentido da vida. Casados há mais de 50 anos e sem filhos, tinham-se um ao outro, na saúde e na doença, até ao fim das suas vidas (ou pelo menos da vida de um deles). Apesar da idade eram um casal muito ativo até aos últimos dias e completamente saudáveis do ponto de vista cognitivo. Acontece que o meu tio era totalmente dependente da minha tia, daquela dependência doentia e perigosa agora que ela já não está connosco. Acredito que neste momento não existam palavras capazes de conter todo o sofrimento por que ele está a passar e compreendo perfeitamente as suas palavras quando desesperado diz "agora estou sozinho". Para quem vive mais de 50 anos ao lado de uma mesma pessoa, num amor que só pode ser puro e verdadeiro, nada mais existe agora que a solidão, aquela solidão que nenhum familiar poderá preencher e que o vai matando um pouquinho mais a cada dia. E, de fato, por muito que se lamente, acredito que, desde aquele dia em diante, não voltará a sentir qualquer felicidade. Afinal é disto que é feita a vida e as grandes histórias de amor.

Amar

«O Antonino disse à Isaura que amasse. Que amasse, pelos dois, o pescador, que dele cuidasse como quem cuidava do importante destino do mundo. O toque de alguém, dizia ele, é o verdadeiro lado de cá da pele. QUem não é tocado não se cobre nunca, anda como nu. De ossos à mostra.

  E amar uma pessoa é o destino do mundo.»

Valter Hugo Mãe, "O filho de mil homens"